É a paz, estúpido!

Questões crucias como meio ambiente e segurança não podem ser equacionadas em velhas e provincianas fronteiras

Por Renato Galeno | artigo ods17 • Publicada em 26 de junho de 2016 - 17:19 • Atualizada em 26 de junho de 2016 - 17:27

Como dizia Winston Churchill: ““você deve olhar para os fatos, porque eles olham para você”
Como dizia Winston Churchill: "“você deve olhar para os fatos, porque eles olham para você”
Como dizia Winston Churchill: ““você deve olhar para os fatos, porque eles olham para você”

É possível mensurar o quanto a União Europeia e o Reino Unido perderam, ou ganharam, com o Brexit. Todos vimos as reações das Bolsas e a cotação da libra esterlina. É possível contar o número de encanadores poloneses no Reino Unido e de aposentados britânicos na Espanha. Dependendo do lado, podemos apontar o quanto uns e outros economizarão ou gastarão com a decisão de uma pequena maioria do eleitorado britânico e norte-irlandês – e o “nosso” lado sempre terá a vantagem nessa conta, pois ressaltaremos aquilo que nos é mais conveniente. Mas há um fator que só pode ser mensurado quando deixa de existir: a paz, a principal derrotada no plebiscito britânico.

A paz foi a intenção original e declarada aos quatro ventos para a própria existência do processo de integração europeu desde antes de ele sair do papel. A hoje quase esquecida Declaração Schumann (Robert Schumann, então ministro do Exterior da França), que em 1950 anunciou para as populações da França e da então recém-criada Alemanha Ocidental o projeto de integração institucional europeia, afirma com todas as letras que era preciso criar uma “forte estrutura” para “tornar a guerra não apenas impensável, mas materialmente impossível”.

Fomos todos saturados de informações econômicas, portanto é razoável afirmar que o grande público, e até mesmo o eleitorado britânico, tenha simplesmente ignorado as lições da história europeia ou a relação indissociável entre violência e nacionalismo. Mas a desculpa da ignorância não é aceitável para os líderes políticos – neste caso (diferentemente da Lava-Jato) dolo e cegueira deliberada são sinônimos. Torna-se preciso afirmar com todas as letras: o objetivo da União Europeia não é, nem nunca foi, a prosperidade econômica. E inverter a famosa frase de James Carville, quando assessor do provável próximo “primeiro-cavalheiro” dos EUA e então candidato à presidência: quando se trata de UE, a máxima válida sempre foi “é a paz, estúpido!”

A paz foi a intenção original e declarada aos quatro ventos para a própria existência do processo de integração europeu desde antes de ele sair do papel. A hoje quase esquecida Declaração Schumann (Robert Schumann, então ministro do Exterior da França), que em 1950 anunciou para as populações da França e da então recém-criada Alemanha Ocidental o projeto de integração institucional europeia, afirma com todas as letras que era preciso criar uma “forte estrutura” para “tornar a guerra não apenas impensável, mas materialmente impossível”. É essa estrutura que podemos estar vendo se desmanchar agora – é a guerra que pode voltar a se tornar possível.

Exagero? Como disse Churchill, um primeiro-ministro britânico bem mais habilidoso que o atual premier demissionário David Cameron, “você deve olhar para os fatos, porque eles olham para você”. Desde o fim do Império Romano do Ocidente, lá pelo século V de nossa Era, nunca a Europa (aqui compreendida como a região geográfica na qual estão os países participantes da UE hoje) teve um período de paz tão longo. Antes dos atuais 71 anos, o período máximo fora de 43 anos – entre 1871 e 1914. E este período terminou com uma guerra com 15 milhões de mortos…

Mas se a saída do Reino Unido torna a guerra novamente possível na Europa, poder-se-ia (a mesóclise não está novamente na ordem do dia?) afirmar – respeitando a frase de Schumann – que ela continua a ser impensável. Como diria Boris Johnson, líder da campanha do “Leave”, “indeed”! O problema é que já houve momentos anteriores em que a guerra era impensável na Europa e, apenas por ser possível, ocorreu. Aos fatos (que estão olhando para nós!).

O Congresso de Viena (1814-1815) determinou o fim das Guerras Revolucionárias e Napoleônicas (1792-1815) e inaugurou o período de ouro da diplomacia europeia: o Concerto Europeu. Por meio de alianças, confederações regionais e congressos, os líderes europeus afastaram o problema da guerra por duas gerações. Mas 38 depois, estourou a Guerra da Crimeia (a primeira, bem antes da Putin, entre 1853 e 1856). Uma das “piores” guerras da história em termos técnicos, pois os europeus tinham esquecido como se pegava em armas! E não parou por aí: a esta guerra se seguiram outras quatro, a última delas a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), terminada com a humilhação francesa e a unificação da Alemanha, fundada dentro do Palácio de Versalhes.

Exceção? Vamos a outro exemplo. Sei que parece ridículo hoje, mas quando os combates da Primeira Guerra Mundial terminaram, líderes e populações acreditaram que o problema da guerra tinha ficado para trás – um dos nomes usados para descrever a Grande Guerra de 1914 depois de seu fim era “Guerra para Acabar com Todas as Guerras”. A guerra se tornara impensável novamente. A criação da Sociedade das Nações e o otimismo da década de 1920 fizeram a população europeia acreditar que o pesadelo acabara. A ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, em 1933, mostrou que não.

A única garantia para a não ocorrência de guerras na Europa é torná-las materialmente impossíveis.

Os mecanismos da união europeia – políticos, sociais, ambientais, diplomáticos, de segurança, culturais, migratórios, educacionais, linguísticos e, sim, econômicos, são apenas meios para atingir o fim último da instituição que é impedir que os europeus voltem a se matar. Meios muitas vezes nobres, sem dúvida, mas ainda assim instrumentos para alcançar um bem mais fundamental.

Portanto, mesmo que fosse verdade que a União Europeia fracassou em se tornar um veículo para a obtenção de prosperidade econômica (e o quanto os vetos e postergações britânicos contribuíram para uma estrutura econômica falha não deve ser desprezado), isso empalidece em relação ao apagamento, para todos os efeitos práticos, da fronteira entre a França e a Alemanha. Ou quando se observa uma geração de milhões de jovens que se sentem à vontade em outros países europeus e que não acreditam mais numa suposta – e logicamente impossível – superioridade de uma nação em relação às demais.

Como disse Kant (o inventor do generoso conceito de “reino dos fins”), é necessária a criação de uma “federação de Estados” para que se alcance uma “Paz Perpétua”. A ideia de federação é um palavrão quando sai da boca do nacionalista e racista Nigel Farage, líder do partido de extrema-direita britânico UKIP. Se você tivesse que escolher entre Farage e Kant, quem escolheria? Na Inglaterra (mas não da Escócia, na Irlanda do Norte ou na cidade de Londres), Kant perdeu.

Cosmopolitismo filosófico à parte, uma série de questões absolutamente práticas deixa claro que uma volta às fronteiras nacionais é danosa. Não é mais possível fingir acreditar que questões de importância crucial para o bem-estar de dezenas de milhões de pessoas, como meio ambiente, epidemias, segurança ou, sim, fluxos financeiros desregulamentados, possam ser equacionadas nas provincianas fronteiras da nação. São questões continentais, mesmo globais – ou seja, nossas também, a um oceano de distância.

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Renato Galeno

Jornalista e professor, Renato Galeno foi repórter do Dia e do Globo antes de se dedicar à carreira acadêmica. Mestre em Relações Internacionais e doutorando em Ciência Política pela UFF, é professor do Ibmec e comentarista da GloboNews

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