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As garotas dinamarquesas

As histórias e as histórias de Einar e Gerda Wegener, que estão entre os destaques do Oscar deste ano


Uma das obras na exposição "Gerda Wegener”, em cartaz até 16 de maio no museu Arken, em Copenhagen
Uma das obras na exposição “Gerda Wegener”, em cartaz até 16 de maio no museu Arken, em Copenhagen

Com quatro indicações ao Oscar, o filme “Garota Dinamarquesa” trouxe de volta aos holofotes a história até então esquecida do casal de pintores dinamarqueses Einar e Gerda Wegener, interpretados por Eddie Redymane e Alicia Vikander, cuja relação foi combustível para avanços na arte e nas discussões de gênero no início do século XX.

Os quadros de Lili são entendidos como uma produção conjunta de Gerda e Einar. Enquanto um pintava, o outro posava. E não sabemos quem decidia mais. Estes trabalhos representam os mais importantes da vida dos dois.

Andrea Rygg Karberg
Curadora da exposição “Gerda Wegener”

A produção mostra o processo de transformação de Einar em Lili Elbe, a primeira no mundo a realizar uma operação de mudança de sexo. E como isto inspirou o trabalho artístico de Gerda, que ganhou destaque depois que ela passou a retratar o marido transexual.

– É uma história maravilhosa e importante sobre gênero, amor e coragem. O filme é ótimo, mas a história real é ainda melhor – comenta o jornalista Nikolaj Pors, que desde 1999 pesquisa sobre os Wegener e lançará em breve “Lili”, uma biografia de 320 páginas.

Gerda e Einar Wegener em frente ao quadro de Gerda intitulado "Sur la route d'Anacapri"
Gerda e Einar Wegener em frente ao quadro de Gerda intitulado “Sur la route d’Anacapri”

Os dois casaram-se em 1904 e viviam sem emoções em Copenhagen, até o dia em que Gerda pede a Einar para posar no lugar de uma modelo que faltara à sessão. Um pouco resistente no início, Einar veste-se como bailarina para atender ao pedido da esposa. O filme mostra esse como um ponto de virada. Ele toca aquele tecido liso, estica delicadamente o pé para imitar o de uma dançarina e algo se transforma.

A partir daí, Lili começa a surgir. Primeiro, como uma brincadeira: Einar veste perucas, roupas femininas, põe maquiagem e o casal ri junto. Depois, o desejo de ver-se como mulher ganha força. Lili começa a posar com frequência para Gerda e aparece publicamente em algumas ocasiões, geralmente no carnaval. Apenas amigos próximos sabem quem é Lili. Gerda é uma incentivadora, até porque seus quadros começam a trazer inovações ao apresentar a imagem transgênera numa época em que esse termo nem existia.

– Os quadros de Lili são entendidos como uma produção conjunta de Gerda e Einar. Enquanto um pintava, o outro posava. E não sabemos quem decidia mais. Estes trabalhos representam os mais importantes da vida dos dois – afirma Andrea Rygg Karberg, curadora da exposição “Gerda Wegener”, em cartaz até 16 de maio no museu Arken, em Copenhagen.

Gerda, arte e feminismo

A exposição foi aberta ao público ano passado como parte das celebrações dos 100 anos do voto feminino na Dinamarca. Pois, segundo a curadora, Gerda é uma figura forte da época, que conseguiu, mesmo sendo mulher, ter reconhecimento artístico num momento em que o mercado era dominado pelos homens. Além dos quadros de Lili, Gerda também produziu desenhos e pinturas, muitas delas eróticas, com mulheres autênticas e independentes no centro. Mas, para ser valorizada, mudou-se para Paris em 1912.

A fama veio na cidade-luz, o casal ganhou popularidade também na Dinamarca, mas há décadas estava esquecido. Quase todas as 178 obras expostas no museu de Arken, a maior da história da artista, pertence a coleções privadas. Na Dinamarca, há apenas poucas obras no Museu Teatro, de Copenhagen, mas Andrea explica que elas estão lá mais pelo fato de retratarem bailarinas do que pelo reconhecimento da artista. Porém, há não muito tempo, o governo francês comprou três quadros de Gerda, que estão no Museu de Arte Moderna, no Centro Georges Pompidou, em Paris.

– Gerda é incomparável, não menos do que isso. Ela foi à frente do seu tempo na sua investigação corajosa da identidade de gênero – defende Andrea, que justifica seu esquecimento pelo fato de, além de ser difícil encontrar sua obra em acervos públicos, seu estilo ter ficado fora de moda em meados do século XX.

Ela é de longe a pintora mais famosa entre os dois. Einar nunca teve muito prestígio no meio artístico. Suas obras pertencem a colecionadores privados e a poucas galerias de Vejle, sua cidade de origem. Após o lançamento do filme, o Museu Vejle decidiu homenagear o conterrâneo com uma modesta exposição.

– Como uma historiadora da arte, esta exposição levantou algumas questões. As pinturas de Einar Wegener não têm grande valor artístico, não são tão interessantes, mas a história de sua transformação é – diz a curadora Marie Dufresne, contando que Lili nunca assinou nenhum quadro.

Por isso, os produtores da exposição fotografaram e entrevistaram os colecionadores das obras. Embora o museu também tenha oito de suas pinturas, todas as imagens expostas na verdade são fotografias numa montagem digital. Essa decisão foi tomada, segundo Marie, simplesmente porque as obras “não são interessantes o suficiente” e a pegada da exposição era mais “sociocultural”. Mesmo assim, Marie conta que, em 2014, Tom Hooper visitou o museu e passou o dia analisando os quadros de Einar.

Einar, imagem transgênera

Se a obra de Einar não tinha tanta importância, já sua contribuição para o trabalho de Gerda e as questões de gênero, sim. Além de a imagem transgênera ganhar mais espaço na sociedade da época, Lili foi pioneira ao se submeter, em 1930, à primeira de uma série de quatro cirurgias de mudança sexo numa clínica de Dresden, na Alemanha. Ela, no entanto, morreu em 1931 por complicações da última delas.

A bravura de Lili ocorreu num período em que seu comportamento era condenado pela maioria, inclusive por médicos, que tentaram tratamentos desumanos para “curá-la”. Apenas em 1973 que o “Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais” (DSM) – a chamada “bíblia da psiquiatria”, que define a conduta desses médicos em todo o mundo – retirou a homossexualidade da lista de transtornos mentais. E no caso dos transgêneros – grupo que no livro inclui travestis, drag queens, transformistas e transexuais –, essa revisão só ocorreu em 2013. Ou seja, até há pouquíssimo tempo a psiquiatria tratava o tema como doença, embora, na prática, muitos médicos já tivessem virado essa página.

Novas produções e mais divulgação ajudam a desmistificar os transgêneros na sociedade, como explica o cartunista Laerte num artigo publicado na UOL: “Todas essas formas de expressão (travesti, crossdresser e transformistas) estão compreendidas dentro do que a gente entende com o termo transgeneridade. O filme levanta essas questões. A primeira delas é a diferença entre a questão de gênero e a orientação sexual. Einar não era homossexual”.

– Acho que o filme levanta um tema importante e que tenta produzir uma representação sutil e positiva de uma mulher trans – comenta Dag Heede, professor de literatura na Universidade do Sul da Dinamarca e especialista na discussão sobre representações de mulheres-trans.

Heede foi ainda consultor do filme hollywoodiano, e, embora tenha aprovado o resultado final, aponta algumas falhas na produção:

– Einar e Gerda são muito jovens e bonitos. Einar tinha 48 anos quando fez a cirurgia. E o personagem de Gerda é o de uma mulher heterossexual que se sacrificou pela felicidade do marido. Não acredito que seja verdade. Lili era um interesse em comum e um projeto de ambos.

Na história real, segundo o jornalista Nikolaj Pors, Einar e Gerda se divorciaram em 1930, pois o governo dinamarquês não permitia o casamento entre duas mulheres, e Lili ganhou uma identidade oficial. Após parte das cirurgias, Lili conheceu Claude Lejeune, com quem teve um relacionamento aceito por Gerda, que também teve relações bissexuais durante o casamento. Depois da morte de Lili, Gerda casou-se com um italiano e mudou-se para o Marrocos. Ela morreu em 1940 na Dinamarca, novamente divorciada e com sua arte já esquecida.

No filme, outra falha curiosa chama a atenção: uma linda área montanhosa é apresentada como a terra natal de Einar nas cenas finais. A sequência, no entanto, foi gravada em Stavanger, na Noruega. Entre dinamarqueses, virou piada. Pois o país é majoritariamente plano, não há uma única montanha alta como aquela.

Gerda e Einar Wegener

  • O quadro "Lili with a Feather Fan", de 1920, feito por Gerda Weneger
    Gerda/ Morten Pors
    O quadro "Lili with a Feather Fan", de 1920, feito por Gerda Weneger
  • Um anúncio publicado na revista francesa ”La Vie Parisi"
    Gerda (4)/ Reproducao
    Um anúncio publicado na revista francesa ”La Vie Parisi"
  • Ilustração na capa da revista dinamarquesa ”Vore Damer”, feita por Gerda Wegener
    Gerda (1)/ Reproducao
    Ilustração na capa da revista dinamarquesa ”Vore Damer”, feita por Gerda Wegener
  • A obra de Gerda Wegener, "Queen of Hearts (Lili)", pintada em 1928
    Gerda (6)/ Morten Pors
    A obra de Gerda Wegener, "Queen of Hearts (Lili)", pintada em 1928
  • Quadro "The Ballerina Ulla Poulsen in the Ballet Chopiniana", de Gerda Wegener, Paris, 1925
    Gerda (7)/ Reproducao
    Quadro "The Ballerina Ulla Poulsen in the Ballet Chopiniana", de Gerda Wegener, Paris, 1925
  • "The Carnival", 1925, de Gerda Weneger
    Gerda (8)/ Morten Pors
    "The Carnival", 1925, de Gerda Weneger
  • "Two Cocottes with Hats (Lili and friend)", de Gerda Wegener, 1925
    Gerda (9)/ Morten Pors
    "Two Cocottes with Hats (Lili and friend)", de Gerda Wegener, 1925
  • “Woman in the Window”, de Einar Wegener
    Einar/ Reproducao
    “Woman in the Window”, de Einar Wegener

 


Escrito por Flavia Milhorance

Jornalista com mais de dez anos de experiência em reportagem e edição em veículos de imprensa do Brasil e exterior, como BBC Brasil, O Globo, TMT Finance e Mongabay News. Mestre em jornalismo de negócios e finanças pelas Universidade de Aarhus (Dinamarca) e City University, em Londres.

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