ODS 1
Rio amplia áreas verdes para amenizar ondas de calor e alerta para impactos na saúde
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"É preciso repensarmos hábitos individuais e coletivos porque as mudanças climáticas são uma realidade", diz secretária municipal Tainá de Paula
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O calor neste mês de fevereiro está acima do que o corpo humano é capaz de suportar. Esta semana a cidade do Rio de Janeiro atinge recordes de temperatura, com o marco histórico de 44ºC nesta segunda-feira (17/02), a mais alta registrada pelo Sistema Alerta Rio nos últimos dez anos. O município permanece em Nível de Calor 4 (NC4), numa escala que vai até NC5 segundo o Protocolo de Enfrentamento ao Calor Extremo. É o maior nível já atingido, desde a criação do protocolo.
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As altas temperaturas já apresentam impactos nos serviços de saúde. Mais de 5 mil pessoas buscaram atendimento médico em unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) na cidade desde o início do ano, com um aumento nos casos de desidratação e descompensação de doenças crônicas. Além disso, ondas de calor como esta foram responsáveis pela morte de 48 mil brasileiros entre 2000 e 2018, segundo estudo do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
O Programa Cada Favela é Uma Floresta busca resgatar o equilíbrio entre o espaço urbano e o meio ambiente, e certifica que uma vida sustentável é uma realidade possível para todos. Esse tema exige que sejam reconhecidas as peculiaridades da favela carioca, tanto em termos de suas formas urbanas, como das práticas cotidianas de seus habitantes.
Diante desse cenário crítico, a Prefeitura do Rio implementou ações como as ilhas de resfriamento — áreas sombreadas ou refrigeradas —, e a distribuição de água potável nesses pontos, que podem ser consultados no aplicativo e no site do Centro de Operações e Resiliência da Prefeitura do Rio. O que mais o poder público pode fazer? Para responder a esse e outros questionamentos quanto às ações para frear os impactos do calor extremo, o #Colabora conversou, via whatsapp, com a arquiteta, urbanista e secretária municipal de Meio Ambiente e Clima do Rio de Janeiro, Tainá de Paula:
#Colabora: Eventos extremos como a atual onda de calor serão cada vez mais comuns, devido à crise climática. Até o momento, quais foram os principais aprendizados quanto às ações que precisam ser tomadas para amenizar os impactos das altas temperaturas?
Tainá de Paula: É preciso repensarmos hábitos individuais e coletivos. Devemos nos manter hidratados, usar filtro solar, porque as mudanças climáticas são uma realidade! O Rio faz a sua parte, mas o Estado, Brasil e o mundo também precisam fazer a sua. Aprendermos e estarmos atentos aos sintomas, como tontura, dor de cabeça, náuseas e fraqueza, que podem indicar insolação ou desidratação, por exemplo. Coletivamente, manter o solo coberto com vegetação ou outros materiais para reter a umidade e reduzir a temperatura; plantar árvores para diminuir a sensação térmica, fazer sombra e manter a umidade do ar. Outro ponto importante, claro, é evitar o desperdício de água, um recurso essencial para a hidratação e para a manutenção da vegetação.
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Veja o que já enviamos#Colabora: No último ano, em entrevista à reportagem do #Colabora, você explicou que, dentre as principais medidas para mitigar os efeitos do calor, estavam a construção e restauração de áreas verdes e criação de novos parques, além da abertura de chafarizes e pontos de hidratação por outras secretarias. Além destas, quais ações estão sendo implementadas neste período de calor extremo?
Tainá de Paula: Temos o Programa Corredores Verdes, que criam corredores ecológicos para conectar fragmentos de vegetação urbana, promover biodiversidade, reduzir a temperatura local e mitigar mudanças climáticas. Queremos implementar ações estratégicas em áreas urbanas, ruas e avenidas com plantios de espécies nativas. Tivemos: o Corredor Verde de Bangu, com 7,18 Km de vias arborizadas; o Corredor Verde de Guaratiba, com 7,11 Km de vias arborizadas; o Corredor Verde do Complexo do Alemão, com 4,27 Km de vias arborizadas; e o Corredor Verde de Irajá, com 15 Km de vias arborizadas

#Colabora: Como está o programa “Cada Favela Uma Floresta” e qual a importância de projetos como esse em locais mais vulneráveis ao calor?
Tainá de Paula: Estamos em processo de finalização do programa no Complexo da Maré e vamos iniciar no Complexo do Alemão, em articulação com a Secretaria Municipal de Habitação (SMH). O Programa Cada Favela Uma Floresta busca resgatar o equilíbrio entre o espaço urbano e o meio ambiente, e certifica que uma vida sustentável é uma realidade possível para todos. Esse tema, pertinente em qualquer abordagem que trate do ambiente construído, exige que sejam reconhecidas as peculiaridades da favela carioca, tanto em termos de suas formas urbanas, como das práticas cotidianas de seus habitantes.
Temos ações na expansão das áreas verdes, focando nas principais ilhas de calor, áreas densamente populosas. O aumento de áreas verdes, além de reduzir as temperaturas, tem inúmeros impactos positivos na saúde humana: fortalece a microbiota e capacidade imunológica, além de reduzir alergias; reduz o estresse e o risco de saúde mental ruim; reduz entre 6% e 8% a mortalidade, em qualquer causa; e melhora na qualidade do ar
#Colabora: Em alguns locais, pessoas enfrentam a onda de calor sem acesso à água. O que poderia ser feito para garantir o abastecimento contínuo de água durante os períodos de alta temperatura e evitar que a população sofra com a falta desse recurso essencial?
Tainá de Paula: Primeiramente, é crucial implementar um sistema de racionamento estratégico, priorizando áreas críticas como hospitais, escolas e residências de pessoas vulneráveis, comunicando claramente os horários de racionamento à população para que todos possam se preparar. Em paralelo, a distribuição de água por caminhões-pipa deve ser mobilizada para fornecer água potável em áreas afetadas, com prioridade para comunidades remotas e de baixa renda. Campanhas de conscientização são primordiais para promover o uso consciente, incentivando práticas de economia como evitar o desperdício durante o banho e a lavagem de roupas. Por fim, a manutenção urgente da infraestrutura é necessária para verificar e reparar vazamentos nas redes de distribuição, evitando perdas e garantindo o abastecimento contínuo.
Pensando a longo prazo, é essencial investir em infraestrutura, expandindo e modernizando os sistemas de captação, tratamento e distribuição, além de construir reservatórios e represas para aumentar a capacidade de armazenamento e incentivar a instalação de caixas d’água nas residências. A gestão sustentável dos recursos hídricos é crucial, implementando políticas de uso racional da água com foco na conservação dos mananciais, incentivando a reutilização da água por meio de sistemas de captação de água da chuva e tratamento de águas residuais. O combate às mudanças climáticas também é fundamental, adotando medidas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa que contribuem para o aumento das temperaturas e a intensificação das secas. Realizar um monitoramento constante dos recursos hídricos para prevenir possíveis crises também são pontos que merecem atenção.
#Colabora: Quais ações você caracteriza como essenciais para garantir a resiliência do Rio e outras cidades frente às mudanças climáticas e aos eventos de calor extremo?
Tainá de Paula: A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima tem, historicamente, aumentado as áreas verdes através do reflorestamento. São quase 40 anos de programa consolidado, protegendo e restaurando o bioma Mata Atlântica. Também temos ações na expansão das áreas verdes, focando nas principais ilhas de calor, áreas densamente populosas. O aumento de áreas verdes, além de reduzir as temperaturas, tem inúmeros impactos positivos na saúde humana: fortalece a microbiota e capacidade imunológica, além de reduzir alergias; reduz o estresse e o risco de saúde mental ruim; reduz entre 6% e 8% a mortalidade, em qualquer causa; e melhora na qualidade do ar.
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Estudante de jornalismo na Universidade Federal Fluminense (UFF). Gonçalense, ou papa-goiaba, apaixonada pelas possibilidades de se contar histórias na área da comunicação. Foi estagiária na Assessoria de Comunicação do Ministério Público Federal e da UFF. Amante da sétima arte e crítica amadora do universo geek.