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Uma catástrofe amigável

Filme sobre vazamento no Golfo do México quase inocenta o petróleo

A explosão da plataforma Deepwater Horizon, operada pela Transocean e alugada à BP, causou o maior vazamento de petróleo do mundo. Foto Guarda Costeira dos EUA
A explosão da plataforma Deepwater Horizon, operada pela Transocean e alugada à BP, causou o maior vazamento de petróleo do mundo. Foto Guarda Costeira dos EUA

(John Wills*) No início de “Deepwater Horizon” (“Horizonte profundo: desastre no Golfo, o novo filme de Peter Berg, a filha do técnico-chefe da área eletrônica, Mike Williams (Mark Wahlberg), usando uma lata de coca-cola como propulsora, explica como funciona a exploração de petróleo. Ela fala orgulhosamente de como “meu pai amansa os dinossauros”. A lata explode espetacularmente, enquanto ela admite que “óleo é um monstro”. “Deepwater Horizon” é a história da relação das pessoas com o petróleo. E também a história de como essa relação pode acabar mal.

O óleo é mostrado como o sangue vital de uma nação. Os empregados da Transocean residem numa paisagem petrolífera, cozinham e abastecem na bomba de gasolina. A América da Deepwater Horizon não é uma terra de Teslas e Prius, mas de incontáveis SUVs, e não há nada de fundamentalmente errado com isso.

O filme é uma dramatização do desastre de 2010, no Golfo do México, no qual a plataforma móvel offshore Deepwater Horizon, operada pela Transocean e alugada à BP, sofre uma explosão. O equipamento afundou e a explosão causou o maior vazamento de petróleo do mundo e uma espantosa catástrofe ambiental.

O filme é anunciado como a história de relatos esquecidos do desastre. Em vez de cobrir a catástrofe ambiental, ele focaliza, nas palavras de Wahlberg, “o lado humano do drama”. Com exceção de alguns poucos vilões notáveis, a história humana é sobre heróis, como um tributo. É a versão familiar do mocinho blue-collar americano (que, se permitirem, consegue fazer seu trabalho), vítima de interferência externa. São pessoas reais. Nós simpatizamos com a funcionária da ponte Andrea Fleytas (Gina Rodriguez), que não consegue consertar seu automóvel vintage nem levar a plataforma para a segurança.

Usando uma lente pós 11/9, vemos um tripulante da companhia operadora Transocean sacrificando sua vida para salvar seus amigos, à medida em que a plataforma fumegante – como um verdadeiro arranha-céu dentro d’água – afunda. Uma bandeira dos EUA arde enquanto trabalhadores pulam de uma altura de dez andares no oceano. Os resgatados se reúnem num navio próximo e rezam o Pai Nosso, enquanto outra bandeira americana queima ao fundo.

Os créditos listam as 11 vítimas reais do desastre, com fotos de cada uma. O filme é emotivo e poderoso.  Quando o técnico em eletrônica Williams emerge da carnificina, desorientado e horrorizado, sente-se sua vulnerabilidade (um crédito à atuação de Wahlberg). Ao contrário de muitos filmes hollywoodianos de catástrofe, o de Berg trata dos traumas com maturidade e sensibilidade.

Mark Wahlberg é o ator principal do filme. Foto Darizan Geisler-Fotopress /DPA
Mark Wahlberg é o ator principal do filme. Foto Darizan Geisler-Fotopress /DPA

Mas, para uma película sobre um desastre petrolífero, o óleo até que não se sai mal. Sim, é um “monstro” rebelde, que cria superstições entre os trabalhadores da plataforma. Cenas debaixo d’água, de uma criatura terrível despertando, são de qualidade digna de “Jaws” (“Tubarão”) ou de Abyss (“O segredo do abismo”).

Mas o óleo é mostrado como o sangue vital de uma nação. Os empregados da Transocean residem numa paisagem petrolífera, estejam ou não na plataforma. Eles cozinham e abastecem na bomba de gasolina. Berg destaca bem essa paisagem industrial: quase se sente o cheiro de gasolina. A América da Deepwater Horizon não é uma terra de Teslas e Prius, mas de incontáveis SUVs, e não há nada de fundamentalmente errado com isso. Em vez de uma commodity em retração, o petróleo está em todo lugar, em abundância.

Os vilões reais da história não são os americanos esbanjadores de combustível nem o petróleo em si, mas a corporação gigante BP. Seus executivos ignoram descaradamente riscos na busca de lucro, cegamente adeptos da ideia de que “Houston, não temos um problema”. O filme retoma a cobertura da imprensa na época, que mirou na BP mas deixou de reconhecer os problemas mais amplos. Berg embarca numa familiar narrativa do bem contra o mal, opondo o gerente da plataforma, Jimmy Harrell, homem franco e honesto, ao escorregadio representante da BP, Donald Vidrine (John Malkovich).

Mas há um caso maior aqui, que envolve a Transocean, gerente da contratante Halliburton (que destruiu provas ligando o papel da companhia no vazamento), ao lado de regulamentação inadequada e fiscalização governamental insuficiente.

O filme termina com apenas uma frase detalhando como este se tornou o pior desastre ambiental da história americana. E aí está a oportunidade perdida. Holywood identifica o vazamento como importante e digno de atenção, mas recua diante da possibilidade de advogar uma mudança real ou de defender uma agenda ambiental.

É um filme-catástrofe de Hollywood, não um filme ambiental: mais “The Towering Inferno” (“O inferno na torre”) do que “An Inconvenient Truth” (“Uma verdade inconveniente”). A única referência óbvia ao desastre que se desenrola são alguns poucos pássaros embebidos em petróleo que se espatifam no navio de resgate.

Mas a história real de Deepwater Horizon se arrastaria por mais 87 dias e 5 milhões de barris de petróleo derramados, com efeitos devastadores sobre a vida marinha no Golfo do México. Como o desastre não é o foco do filme, também não há indícios de combate às questões fundamentais no coração dessa tragédia: dependência do petróleo, exploração ambiental e mudança climática. Embora fiquemos sabendo que os heróis viram as costas à indústria petrolífera (e nunca mais retornam às plataformas), não há estímulo à audiência para que faça o mesmo.

“Deepwater Horizon” alcança impacto emocional, mas em última análise substitui uma história preocupante de desastre ambiental por um conto reconfortante sobre o espírito humano. É uma jogada de segurança de Hollywood.

*John Wills é professor de História na Universidade de Kent, Inglaterra

(Tradução: Trajano de Moraes)

Escrito por The Conversation

The Conversation

The Conversation é uma fonte independente de notícias, opiniões e pesquisas da comunidade acadêmica internacional.

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