ODS 1
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Veja o que já enviamosPatriarcado: a conta que não fecha
Todo mundo conhece uma mulher abusada, mas ninguém conhece (ou é) abusador
Eu perdi as contas de quantas vezes eu me sentei diante de um computador para escrever sobre algum caso de abuso sexual que foi parar na mídia ou, bizarramente, foi transmitido por ela, como aconteceu agora no Big Brother Brasil, no BBB26. Mas a indignação que parece tomar conta das redes e discursos não acompanha a experiência das vidas de qualquer mulher, de qualquer idade, em qualquer tempo da história.
Não importa onde a gente esteja. Numa casa gravada e transmitida 24 horas por dia. Em algum templo religioso, de qualquer crença. Num hospital, em sala de cirurgia, desacordada. No trabalho, na escola, na rua. Em casa. Nos nossos quartos, sob nossos lençóis, com os companheiros que escolhemos ter. Em absolutamente qualquer lugar, nossos corpos são lidos e tratados como disponíveis, desfrutáveis, violáveis, prontos para satisfazer os fetiches, desejos e desvios masculinos. Desde que nascemos. Até morrermos. Aliás, nem quando morremos.


A gente cresce aprendendo a apertar o passo, a puxar a saia, a evitar certas ruas, a fingir que não ouve uma provocação na rua. Enquanto meninos aprendem, em casa ou não, que sua masculinidade é justamente afirmada por tentar um beijo à força. E se tornam homens asquerosos que falam, ao pé do ouvido de uma estagiária, “te comeria todinha”. Que fazem piada dizendo que meninas “já aguentam” ou “sabem o que estão fazendo”, delirando em feitos sexuais que nunca tiveram ou terão na vida. Que defendem a “família”, seja lá o que isso for, exibem suas esposas em churrascos em que falam exclusivamente de futebol enquanto enchem o rabo de cerveja, mas trocam histórias e falácias de conquistas sexuais, piadas misóginas e homofóbicas em “grupos de zap”.
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Veja o que já enviamosTodo mundo conhece uma mulher que sofreu abuso. Simplesmente porque todas, em maior ou menor grau, já passou por isso uma ou mais vezes na vida. Mas é raríssimo que alguém, sobretudo algum homem, conheça um abusador e reserve a ele a responsabilidade pela violência que cometeu e/ou comete. É uma conta que não fecha e não vai fechar. Em absolutamente qualquer caso de violência sexual, seja ela qual for, há sempre uma sétima cavalaria, de homens, e sim, também de mulheres, pronta para descredibilizar a vítima e justificar o abusador.
“Ele é maluco”. Não é. Jogar a responsabilidade de uma violação para uma patologia da qual o abusador teoricamente não tem culpa, é tirar dele a responsabilidade pelo que fez e faz, e omitir o fato de que essas violências só existem porque ele quis. Porque eles querem. Porque eles decidem que vão impor seus corpos, seus toques e suas vontades sobre uma mulher, custe o que custar.
“Ah, ela tava pedindo”. Pedindo exatamente o que e como? Ainda que em algum momento na história da humanidade possa até ser verdade que um homem achou que estava sendo seduzido e se enganou, eu NÃO CONSIGO ENTENDER como isso se transforma em um ato: um beijo, uma carícia, uma penetração, ou qualquer mínima interação íntima mandatória, sem que a vítima participe ativamente do processo, consentindo.
“Ele não sabia o que tava fazendo/tava doidão/é só um menino”. Sabia sim.
“Mas vão estragar a vida dele por um erro?”. Bom, eu tento muito ser antipunitivista, mas por mim (e isso é uma opinião pessoal), SIM. É o mínimo.
Estamos falando de um sistema que funciona com regularidade matemática. Quando quase uma em cada três mulheres no mundo já sofreu violência física ou sexual, como aponta a Organização Mundial da Saúde, o abuso não é desvio, é norma. É o patriarcado operando como projeto político: garantindo acesso aos corpos das mulheres e, ao mesmo tempo, garantindo álibis morais, jurídicos e sociais aos homens que violam. É a tal cultura do estupro em pleno funcionamento. Como eu dizia, a conta não fecha porque ela nunca foi feita para fechar.
Gisèle Pelicot, francesa que se tornou conhecida internacionalmente após revelar ter sido vítima de estupros coletivos sistemáticos organizados pelo próprio marido, durante anos, quis que o julgamento do desgraçado fosse público. E cravou, mesmo sob risco de escrutínio, que diante da violência sexual, “a vergonha precisa mudar de lado”. Ela precisa pousar onde sempre deveria ter estado: em quem viola, em quem protege, em quem relativiza, em quem pergunta “mas será?”. Não há nada de acidental em uma violência que atravessa gerações, culturas e espaços. O escândalo é o mundo seguir funcionando como se isso fosse normal. Na TV e na vida.
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