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‘Quantas Luzias ainda serão perdidas?’, indaga pesquisadora

Pesquisadora que participou dos estudos do fóssil humano mais antigo das Américas escreve sobre a tragédia anunciada do Museu Nacional


Crânio de Luzia e a reconstituição de sua face: fóssil mais antigo das Américas estava no Museu Nacional (Foto: AFP PHOTO / ANTONIO SCORZA)
Crânio de Luzia e a reconstituição de sua face: fóssil mais antigo das Américas estava no Museu Nacional (Foto: AFP PHOTO / ANTONIO SCORZA)

O Museu Nacional, a mais antiga instituição científica do Brasil, foi destruído. Destruído pelo descaso do poder público, destruído pelos cortes em educação e cultura, destruído pelo abandono de políticas de incentivo à preservação do patrimônio. Em seus 200 anos de existência, que se confundem com a própria história da pesquisa científica no Brasil, o museu contribuiu para a formação de dois elementos-chave para o desenvolvimento de um programa de pesquisa de uma nação. O primeiro elemento-chave seria o acervo. Ora, não existe museu sem acervo. O que é exposto nas vitrines, sabemos, é apenas parte do vasto material coletado por pesquisadores e que forma o pilar de suas pesquisas. O acervo do Museu Nacional contava com cerca de 20 milhões de artefatos, entre objetos arqueológicos e etnográficos, rochas, plantas e animais, além de obras de arte e mobília antiga. Ainda é cedo para afirmar que tudo foi destruído, mas pode-se dizer que a maior parte do acervo foi perdida.

Qualquer um que tenha trabalhado com pesquisa e educação no Brasil sabe que, não raramente, tira-se dinheiro do bolso para comprar equipamentos e insumos

Mercedes Okumura

Objetos em um acervo são como pessoas: únicos e insubstituíveis. Poderão ser feitas novas escavações arqueológicas, poderão ser feitas novas coletas zoológicas, poderão ser feitas novas prospecções geológicas, mas os exemplares perdidos, como o nome já diz, estão perdidos. Ainda que o prédio seja restaurado, a perda de seu acervo único (como são todos os acervos, exceto os novos acervos digitais) nunca será reparada. O segundo elemento, sem o qual museu nenhum pode funcionar é o elemento humano.

Nesses 200 anos, o Museu Nacional formou inúmeros pesquisadores, nas mais diferentes áreas do conhecimento. Esses, além de contribuir com a geração de novo conhecimento, ainda têm a tarefa inerente dada a qualquer pesquisador brasileiro: fazer ciência apesar do poder público. Qualquer um que tenha trabalhado com pesquisa e educação no Brasil sabe que, não raramente, tira-se dinheiro do bolso para comprar equipamentos e insumos. Essa não é uma situação particular do Museu Nacional, é algo comum e até naturalizado em museus e instituições de pesquisa Brasil afora. Não vou me ater aos números vergonhosos sobre o orçamento repassado ao Museu para sua manutenção, mas pode-se dizer que essa situação de penúria e abandono vivida pelo Museu Nacional é a realidade de muitas outras instituições. Uma tragédia da dimensão desse incêndio choca e causa revolta, mas não podemos esquecer que a cada dia que passa, diversos museus e instituições de pesquisa pelo país afora, sofrem suas “pequenas tragédias”, comprometendo o seu funcionamento, não de forma brutal como um incêndio o faria, mas de forma lenta, gradual, porém não menos importante.

A arqueologia brasileira entrou para os holofotes da comunidade científica internacional graças ao trabalho feito a partir do estudo do esqueleto da Luzia

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Mercedes Okumura

De forma pessoal, a história da minha vida se emaranha com a do Museu Nacional por dois acontecimentos. Primeiro, eu trabalhei nessa instituição por quatro anos, tendo me desligado em junho deste ano. Eu conheci a realidade de se trabalhar em uma instituição no Rio de Janeiro, o estado que talvez melhor represente a falência do poder público no Brasil. Eu conheci a realidade de se trabalhar em uma universidade federal (o Museu Nacional faz parte da UFRJ), cujos repasses orçamentários se tornavam cada vez menores. Por outro lado, eu conheci o acervo fabuloso dessa instituição. Desenvolvi pesquisas nesse acervo, com alunos e colaboradores, brasileiros e estrangeiros. Vi colegas realizando trabalhos importantes em outras áreas. Presenciei a fascinação de alunos do ensino fundamental e médio que nunca tinham visitado um museu.

No dia sete de junho deste ano, eu pedi exoneração, para assumir outro cargo em São Paulo. Nunca imaginei que seria a última vez que veria o Museu. Continuei ligada, de algum modo, a ele, dado que minha vinda para São Paulo tinha como objetivo assumir a coordenação do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos do Instituto de Biociências da USP. Esse laboratório foi o responsável, na pessoa do agora professor aposentado Walter Neves, pelas pesquisas realizadas com o esqueleto humano apelidado de Luzia (o mais antigo das Américas, escavado em Minas Gerais em 1971 e, desde então, parte do acervo do Museu Nacional). Pode-se dizer que a arqueologia brasileira entrou para os holofotes da comunidade científica internacional graças ao trabalho feito a partir do estudo do esqueleto da Luzia. Esse esqueleto, considerado um ícone da pré-história brasileira, foi destruído no incêndio, junto a tantos outros artefatos de valor inestimável.

Não tenho expertise para discutir as perdas específicas de outros tipos de acervo do Museu Nacional. Tenho certeza que havia outras “Luzias” nas coleções de paleontologia, geologia, etnografia… Assim como há “Luzias” em todos os museus brasileiros, apenas esperando que o poder público entenda que cultura, educação e história não são meras frivolidades na formação de um projeto de nação ou de um povo. Ao contrário, são imprescindíveis para entendermos de onde viemos e qual direção queremos tomar.

O fogo continuou por horas no Museu Nacional,na Quinta da Boa Vista, com um prejuízo ainda incalculado. Foto Francisco Proner Ramos/AGIF
O fogo continuou por horas no Museu Nacional,na Quinta da Boa Vista, com um prejuízo ainda incalculado. Foto Francisco Proner Ramos/AGIF

Escrito por Mercedes Okumura

Dra. Mercedes Okumura trabalhou de 2014 a junho de 2018 no Museu Nacional como docente de arqueologia e atualmente é coordenadora do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo.

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2 Comentários

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  1. Lamentável, nos sentimos impotentes diante de tantos descasos. Ano passado fiquei comovida ao ver os músicos da Orquestra do Rio de janeiro sendo desvalorizados através da falta de pagamento de salários e demissões. Mercedes Okumura fica aqui nossa solidariedade e ao mesmo tempo nossa indignação de, nosso país ter uma profissional como vc e tantos outros e, não reconhecer e valorizar como deveria.

  2. Cada vez mais fica evidente que o setor cultural brasileiro é em parte bastante desvalorizado. Não só pelo fato de podermos ver isso na realidade que era o Museu Nacional, mas também de outros campos da industria cultural. A exemplo a de quadrinhos. Qualquer quadrinista/ilustrador que queira lançar uma obra, muitas vezes é obrigado a bancar os custos com seu próprio capital ou procurar um financiamento coletivo como acontece no Catarse. Há a possibilidade claro, de tentar apoio com políticas públicas de incentivo cultural como a Lei Rouanet o que não é nada fácil. Enfim,

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