De que adiantam armários lotados se as roupas não nos protegem do coronavírus?

Em artigo, Yamê Reis reflete sobre como a pandemia pode mudar o mundo da moda

Por Yamê Reis | ods9 • Publicada em 25 de abril de 2020 - 10:26 • Atualizada em 1 de maio de 2020 - 15:31

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Modelo usa máscara no desfile da Neonyt durante a Berlin Fashion Week outono/inverno 2020, em janeiro (Foto: Alexander Koerner/Getty Images for MBFW)

No começo de 2020, logo que a epidemia começava na China, eu estava na Berlin Fashion Week e pude acompanhar o desfile da Neonyt, a feira de Moda Sustentável, que me impactou tremendamente. A Moda mostrava ali seu incrível poder de prever novos comportamentos, fazendo desfilar naquela passarela da Kraftwerk os seres do futuro, humanos protegidos por máscaras e equipamentos vestíveis sobrepostos ao corpo, mais importantes e essenciais que as roupas que estavam carregando. Aquelas imagens não me saíram da cabeça: que mundo era aquele tão disruptivo onde os nossos corpos precisavam de tantos equipamentos de proteção?

Um mês depois, viajei para a Fashion Week de Milão, onde vi nas ruas muitos asiáticos usando máscaras faciais antipoluição de marcas de luxo. Minha busca chegou a Gucci, Louis Vuitton e Chanel, mas também a muitos jovens estilistas como a chinesa Masha Ma, que em 2014 havia desfilado máscaras com cristais Swarovsky na Paris Fashion Week, causando grande comoção nas redes sociais.

Modelo usa máscara no desfile da Neonyt durante a Berlin Fashion Week outono/inverno 2020, em janeiro (Foto: Alexander Koerner/Getty Images for MBFW)

Porém, desde 2010, quando os níveis de poluição em Shangai atingiram patamares apocalípticos, a China começou a conviver com as máscaras faciais como acessório essencial de saúde e proteção respiratória. Para amenizar o cenário de distopia e ficção científica, surgiram empresas como a Vogmask que, através de parcerias criativas com novos designers, tornaram o acessório um produto de moda.

Mas no cenário global de 2020, as máscaras reaparecem com um novo significado, a proteção essencial para salvar vidas, e todo o planeta se mobiliza para que elas sejam fabricadas em velocidade máxima. Milhares de tutoriais de máscaras caseiras se espalham pelas redes numa corrente solidária de cuidado e empatia, iniciando um movimento coletivo de fazer à mão, de distribuir sobras de tecidos entre as costureiras para protegerem suas famílias e suas comunidades, podendo até gerar alguma renda para a sobrevivência imediata.

As marcas de moda têm a oportunidade de se tornarem relevantes nesse novo mundo gerando produtos que salvem vidas, que ajudem a sua comunidade a atravessar a pandemia de forma solidária e transparente. Quem quer mais um vestido novo quando já descobrimos que termos armários lotados de roupas não nos ajudaram a enfrentar esse momento de sobrevivência?

Yamê Reis

Yamê Reis é a idealizadora do Rio Ethical Fashiom. Atualmente atuando como coordenadora de Design de Moda no IED-Rio, a executiva de moda tem carreira desenvolvida na liderança de projetos com forte impacto no mercado brasileiro, potencializando capacidades criativas e gerando novos negócios em empresas como Cantão, Totem e Le Lis Blanc. Em 2017 fundou a Moda Verde, empresa que atua nas áreas de Educação, Direção Criativa e projetos especiais para Moda Sustentável. Seu objetivo central é colaborar com empresas que desejem contribuir de forma positiva para a construção de uma moda socialmente responsável e com baixo impacto ambiental. Socióloga e fundadora do Partido Verde nos anos 80, Yamê atuou em projetos pioneiros como Amazon Life (1993), produziu e desfilou a primeira coleção feita com tecidos de hemp para sua marca autoral Yamê Reis (1994) e lançou no Fashion Rio o primeiro jeans orgânico nacional, uma parceria do Cantão com o selo NOW (Natural Organic World) (2007).

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