É preciso reconhecer o valor dos nossos ativos ambientais e cuidar deles

Pandemia aumenta a expectativa por uma recuperação verde da economia. A hora é de fazer diferente e de fazer melhor

Por Marina Grossi | ODS 8 • Publicada em 30 de setembro de 2020 - 08:41 • Atualizada em 2 de outubro de 2020 - 11:45

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“O Brasil pode liderar hoje a luta pelo futuro sustentável”. A frase é de Larry Fink, CEO da BlackRock, maior gestora de fundos de investimentos do mundo, e foi proferida na terça-feira, dia 8, durante evento promovido pelo Banco Central para divulgar sua agenda sustentável. Fink já havia atraído os olhos do mundo todo para os temas da sustentabilidade, em sua tradicional carta anual para CEOs, em janeiro de 2020, quando decretou que havia uma “mudança estrutural” por ocorrer nas finanças mundiais, e essa mudança passava essencialmente por uma maior adoção das práticas sociais, ambientais e de governança  – representadas pela sigla em inglês ESG.

Não é de hoje que o executivo vem falando de sustentabilidade em suas cartas ao mercado. Isso acontece já pelo menos desde 2016, apenas um ano depois dos países assinarem o Acordo de Paris e da ONU lançar os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), estendendo ao setor empresarial a responsabilidade com o futuro do planeta. Antes disso, em 2012, na época da Rio+20, ele já chamava a atenção para o tema da governança corporativa. Quase uma década se passou desde lá e foi preciso uma pandemia parar o mundo para que o tema efetivamente ocupasse um assento no board de muitas empresas.

 Em vários países, a pandemia trouxe consigo a expectativa de uma recuperação verde. Governos e empresas veem na reconstrução da sua economia e dos seus negócios uma oportunidade de fazer diferente, de fazer melhor. Além da influência das mudanças climáticas, cada vez mais acentuadas e frequentes, e também da redução explícita da biodiversidade do planeta, apontada como uma das causas para a atual pandemia e ameaças de outras, essa retomada verde também é impulsionada por quem já percebeu que só tem a ganhar com a sustentabilidade.

Empresas mais sustentáveis serão as mais bem-sucedidas. Essa frase, que estampa a principal crença do CEBDS para o futuro, tem ganhado força com o movimento mais ativo dos investidores e já começa a se tornar realidade. Um exemplo é o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), criado em 2005, e que possui em 2020 uma carteira que engloba 37,62% (R$ 1,64 trilhão) do valor total do mercado acionário do Brasil, segundo dados da B3. Em geral, as ações destas empresas estão à frente das que ainda não adotaram os critérios ESG.

No google trends, mecanismo que aponta as tendências ao longo do tempo nas buscas online, o termo ESG teve uma disparada desde maio, indicando que é crescente a procura por maior compreensão sobre essas práticas e como adotá-las. Na mídia se acumulam os artigos e matérias sobre o tema ESG, dia após dia. E nas empresas crescem as adaptações nas rotinas e processos para uma nova abordagem sistêmica em que as decisões de negócios considerem os impactos socioambientais.

E Larry Fink, assim como lançava seu prognóstico oito anos atrás sobre a necessária evolução desta sigla nos negócios, agora fala de Brasil. Antecipando mais uma vez um prognóstico para a próxima década, a década da implementação dos ODS. A perspectiva de que o País possa protagonizar ações em prol de um futuro sustentável já é bastante conhecida da ciência, e reconhecida no meio empresarial. Mas demanda ações que estão além do alcance de empresas. Demanda, por exemplo, o poder de Estado. Não é questão de um partido, de um governo ou de uma ideologia. Demanda o combate à criminalidade, demanda ações de polícia, de punição e de Justiça para proteger a nossa maior riqueza que é a imensa biodiversidade não só na Amazônia, mas em todos os nossos biomas. Demanda ações para potencializar essas riquezas. Demanda políticas públicas que intercedam para viabilizar o desenvolvimento sustentável da região e permitir que as empresas possam atuar em prol da bioeconomia, se diferenciando das quadrilhas que desmatam, queimam e destroem as florestas.

No início do mês (4), o vice-presidente Hamilton Mourão, presidente do Conselho Nacional da Amazônia, reconheceu em live promovida pelo jornal Estado de São Paulo, que o governo Bolsonaro “derrapou na largada” no combate ao desmatamento. Correr contra o tempo, acelerar medidas e implementá-las de fato, é o que esperamos e o que será capaz de sinalizar para o mundo que reconhecemos o valor dos nossos ativos ambientais e que sabemos como cuidar deles.

Marina Grossi

Marina Grossi é economista, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) desde 2010. Foi negociadora do Brasil na Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima entre 1997 a 2001 e coordenadora do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas entre 2001 e 2003. Participou das negociações do Protocolo de Kyoto.

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