São Gonçalo acredita no potencial da população para superar problemas

Esgoto a céu aberto em um dos principais pontos de São Gonçalo: saneamento é uma das prioridades da Agenda Local 2030 (Foto: Victor Coutinho/Casa Fluminense)

Segunda cidade mais populosa do Rio tem apenas 4% do esgoto coletado e tratado, uma das prioridades da Agenda Local 2030

Por Casa Fluminense | ODS 11ODS 6 • Publicada em 22 de outubro de 2020 - 09:00 • Atualizada em 28 de outubro de 2020 - 08:30

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Esgoto a céu aberto em um dos principais pontos de São Gonçalo: saneamento é uma das prioridades da Agenda Local 2030 (Foto: Victor Coutinho/Casa Fluminense)

Luize Sampaio*

Para a população de São Gonçalo, segunda cidade mais populosa do estado do Rio, os moradores são a verdadeira potência da cidade. Essa foi uma das principais conclusões da pesquisa feita para a Agenda São Gonçalo 2030. Organizada pela juventude local, a publicação traz um levantamento sobre os principais problemas do município e também uma série de propostas de políticas públicas para resolver essas questões. A produção da agenda começou em 2019, os organizadores realizaram uma consulta pública com a população via internet com objetivo de mapear de que forma os moradores enxergavam a cidade, olhando suas potencialidades e demandas.

As respostas surpreenderam o grupo. A maioria das pessoas afirmou que a principal virtude da cidade eram os próprios moradores. Segundo Gustavo Gomes, pesquisador de gestão pública e um dos responsáveis pela agenda,  isso tem muito a ver com a relação da cidade com a cultura. Ela resiste mesmo com um investimento municipal de apenas 0,01% no setor. “Tem uma brincadeira aqui que todo grupo musical do Brasil tem um gonçalense. Temos muita gente talentosa que faz arte mesmo sem oportunidades e em meio a  falta de investimento da prefeitura em equipamentos culturais. A maioria dos artistas precisam sair do município para conseguir trabalhar”, explicou Gomes.

Esse foi um dos diagnósticos discutidos na Agenda São Gonçalo 2030, que será lançada no próximo sábado (24/10), às 10h, nas redes sociais da Casa Fluminense. O documento foi elaborado pelo projeto participativo Ressuscita São Gonçalo. A agenda local é fruto de um trabalho colaborativo de jovens universitários de diferentes áreas como gestão pública, engenharia e saúde. Juntos, o grupo tem como objetivo desmistificar a ideia do fazer política na cidade.

Nutricionista sanitarista, Amanda Rodrigues explica que a publicação vai ajudar nesse processo. “Queremos que a população perceba que ela também é capaz de fazer política na sua cidade, propondo e lutando por mudanças. Vamos trabalhar com a agenda na rua, apresentando para a pessoas para criar essa cultura que pode ser importante para o futuro político de São Gonçalo. Essa pode ser uma forma de explorar mais a ideia de mandato coletivo, com as pessoas cada vez mais perto da construção das pautas políticas”, afirmou Amanda.

Organizadoras da Agenda São Gonçalo 2030: pesquisa com a população desde o ano passado (Foto: Casa Fluminense)
Organizadoras da Agenda São Gonçalo 2030: pesquisa com a população desde o ano passado (Foto: Casa Fluminense)

Falta de transparência municipal como principal entrave.

A publicação foi dividida em oito eixos prioritários – entre eles, o saneamento básico, grave problema do município. O Mapa da Desigualdade 2020 mostrou que menos de 4% do esgoto de São Gonçalo é coletado e tratado. No segundo município mais populoso do estado, a população precisa conviver com valões a céu aberto e sem perspectiva de mudanças.

Para Gustavo Gomes, o saneamento é um exemplo da falta de transparência da gestão municipal.  “Mesmo nesse momento estratégico em que estamos discutindo o novo Marco Legal do Saneamento, ainda não existe na prefeitura uma discussão aprofundada de como essa mudança se dará no município. Precisamos ter mais acesso a dados para gente começar a realmente discutir de forma estratégica o planejamento da cidade”, explicou o pesquisador em gestão pública.

Durante a construção da Agenda de São Gonçalo, uma das maiores dificuldades encontradas pelos organizadores foi conseguir acessar alguns dados que deveriam ser públicos. Amanda Oliveira afirmou que algumas propostas ficaram de fora da agenda por causa da falta de dados. “Isso afetou muito o nosso trabalho, a gente gastava o dobro do tempo porque as informações estão muito espalhadas. Era necessário sempre confirmar por outros meios, não dá para depender do site da prefeitura que nem sempre está no ar”, explicou Amanda.

Entre os entraves causados pela falta de organização no espaços virtuais de consulta aberta a população está a falta de descrição de como os investimentos são usados. Durante a pesquisa o grupo só conseguiu acessar as informações básicas orçamentária de cada setor. Isso porque o portal de transparência da prefeitura apresenta apenas o planejamento do uso da verba pública, mas não como esse recurso foi executado na prática.

*Casa Fluminense

Casa Fluminense

A Casa Fluminense é um espaço permanente para a construção coletiva de políticas e ações públicas por um Rio mais justo, democrático e sustentável. Formada em 2013 por ativistas, pesquisadores e cidadãos identificados com a visão de um Rio mais integrado, acredita que a realização deste horizonte passa pela afirmação de uma agenda pública aberta à participação de todos os fluminenses e destinada universalmente a todo o seu território e população e não apenas - ou prioritariamente - para as áreas centrais da capital.

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