Covid-19: mercado da reciclagem vive ‘apagão’ e entidades não se entendem

Enquanto caminhões da coleta seletiva do Rio param, em São Paulo atividade segue, mas sem separação manual nas centrais de triagem

Por Emanuel Alencar | ODS 6 • Publicada em 26 de março de 2020 - 13:12 • Atualizada em 27 de março de 2020 - 10:19

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Garis, em São Paulo, recebem mensagens de apoio dos moradores. Reprodução WhatsApp

A crise global imposta pela ameaça do Sars-CoV-2 já impacta fortemente o mercado da coleta seletiva, triagem e reciclagem de resíduos sólidos. Na Região Metropolitana do Rio há relatos de atividades paralisadas e famílias com dificuldades financeiras. O setor, altamente dependente da informalidade, vive dias turbulentos também quanto a orientações a serem seguidas. Duas grandes entidades não se entendem: enquanto a Associação Brasileira de Engenharia Sanitária Ambiental (Abes) defende a paralisação do setor de recicláveis, a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) recomenda que as atividades continuem, desde que seus atores tomem os cuidados necessários. A infecção pelo coronavírus mergulhou os sistemas de limpeza pública na incerteza.

Quem está em casa sem nenhum sintoma continua separando para a coleta seletiva. O primeiro embasamento é o seguinte: a OMS diz que, em casos de virologias por transmissão respiratória, os materiais recicláveis não são um veículo de transmissão

Carlos Silva Filho
Presidente da Abrelpe

Como o cenário enfraquece o lado mais frágil da cadeia – os catadores -, a Federação das Cooperativas de Catadores de Materiais Recicláveis (Febracom) do Rio enviou uma carta ao governo do estado pedindo um auxílio de R$ 200 por mês aos seus filiados (700). Na outra ponta, da indústria de transformação dos recicláveis em matéria-prima, também há paralisia. Todos em compasso de espera.

“A gente sugere que seja feito um arranjo para garantir uma renda mínima para os cooperados. A situação está complicada, pois a coleta seletiva da Comlurb também parou”, diz Marcio Carvalho, presidente da Federação das Cooperativas de Catadores de Materiais Recicláveis (Febracom) do Rio de Janeiro, estimando em 3 mil pessoas diretamente afetadas no Grande Rio.



Sinais trocados

A Abrelpe, que congrega 41 empresas do ramo da limpeza pública urbana, orienta as pessoas a continuarem a segregar plástico, PET, papel, papelão, alumínio em casa. Há, porém, uma exceção: se houver alguém com sintomas de Covid-19 ou suspeita no domicílio.

“Quem está em casa sem nenhum sintoma continua separando para a coleta seletiva. O primeiro embasamento é o seguinte: a Organização Mundial de Saúde (OMS) diz que, em casos de virologias por transmissão respiratória, os materiais recicláveis não são um veículo de transmissão”, diz Carlos Silva Filho, presidente da Abrelpe. “É claro que orientamos reforço no uso dos equipamentos de proteção individual. O melhor é manter os serviços com mais proteção do que abandonar tudo e depois entrar numa crise sem precedentes”.

Já a Abes argumenta que, diante da impossibilidade de as cooperativas trabalharem com equipamentos adequados de segurança, o melhor a se fazer é simplesmente paralisar toda a cadeia de reciclagem. Num documento com orientações, a entidade que congrega 10 mil profissionais das engenharias sanitárias, é contundente: há inviabilidade para o prosseguimento de serviços de coleta seletiva, transporte e manejo de recicláveis. E a entidade pede ainda que o poder público garanta uma bolsa auxílio aos mais necessitados.

A Abes se baseia em estudos realizados por duas universidades a respeito do tempo de permanência do coronavírus em superfícies. Pode durar, dependendo do material, de duas horas a nove dias

Heliana Katia Campos
Coordenadora da Abes

“A Abes se baseia em estudos realizados por duas universidades a respeito do tempo de permanência do coronavírus em superfícies. Pode durar, dependendo do material, de duas horas a nove dias. Nos países vizinhos Chile, México e Argentina a orientação tem sido a mesma proposta por nós”, diz Heliana Katia Campos, coordenadora da Câmara Temática de Resíduos Sólidos da Abes. “A coleta seletiva é sempre muito importante para diminuir a pressão nos aterros sanitários e até nos lixões, mas neste momento consideramos que os benefícios não justificam os riscos à saúde dos catadores”.

Em São Paulo, a Autoridade Municipal de Limpeza Urbana (Amlurb) decidiu paralisar a triagem manual das cooperativas, mas os caminhões da coleta seletiva continuam rodando pelos bairros da capital. Na maior metrópole brasileira, a crise também revela o melhor do ser humano. Moradores de bairros da Zona Norte, como Jaçanã e Vila Zat, têm escrito recados de apoio aos catadores nas sacolas de lixo.

O Movimento Nacional dos Catadores, que congrega 20 instituições, está trabalhando em uma campanha nacional para arrecadar fundos. E São Paulo já lançou a sua vaquinha virtual de recursos para 30 cooperativas: https://benfeitoria.com/cooperativassp

Emanuel Alencar

Jornalista formado em 2006 pela Universidade Federal Fluminense (UFF), trabalhou nos jornais O Fluminense, O Dia e O Globo, no qual ficou por oito anos cobrindo temas ligados ao meio ambiente. Atualmente, é editor de Conteúdo do Museu do Amanhã. Tem pós-graduação em Gestão Ambiental e cursa o mestrando em Engenharia Ambiental pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Apaixonado pela profissão, acredita que sempre haverá gente interessada em ouvir boas histórias.

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