Nova geração de mulheres transforma a Sapucaí em território de liderança feminina

Carnaval não aceita mais mulheres 'só para constar': profissionais estão quebrando o ciclo de herdeiros masculinos nas escolas de samba

Por Luiza Souto | ODS 5
Publicada em 11 de fevereiro de 2026 - 09:16  -  Atualizada em 11 de fevereiro de 2026 - 11:24
Tempo de leitura: 9 min

Laísa Lima, 26 anos, única mestra de bateria nas 27 escolas de samba que vão desfilar na Marquês de Sapucaí: nova geração de mulheres ganha protagonismo na Passarela (Foto: Luan Oliveira / Divulgação)

O Carnaval nasceu do protagonismo feminino: eram as Tias baianas que abrigavam e financiavam o samba quando ele ainda era caso de polícia. Mas, 110 anos após o registro do primeiro samba, com esse nome (“Pelo Telefone” feito na casa de Tia Ciata), o topo da pirâmide ainda é um território em disputa. Mas, em 2026, elas riscam o chão da Marquês de Sapucaí com mais autoridade.

O que tem me acalentado nessa correria é o carinho que eu estou recebendo, principalmente das mulheres. As pessoas estão se inspirando em mim

Laísa Lima
Mestra de bateria do Arranco

Das 27 escolas que vão desfilar na Passarela do Samba (12 do Grupo Especial e 15 da Série Ouro, a divisão de acesso), as mulheres ocupam espaços de comando com estreias em postos-chave: das cinco presidentas à primeira mestra de bateria da história da Sapucaí, passando por quatro intérpretes, duas diretoras de Carnaval e ainda uma única carnavalesca.

Diná Costa, 73, presidente do Arranco do Engenho de Dentro (Série Ouro), afirma que a gestão feminina traz um ganho técnico pelo olhar atento aos detalhes. Ela mesma costura fantasias e cozinha as feijoadas da escola. Ao lado da vice Tatiana Santos, defende que a “caneta feminina no topo” abre alas para talentos invisibilizados.

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Um desses potenciais é a mestra de bateria Laísa Lima, 26 anos, filha do lendário diretor de carnaval da Beija-Flor, Laíla, morto na pandemia de covid-19 em 2021. Mesmo com uma bagagem que inclui a direção de tamborim na escola de Nilópolis, com a ocupação inédita no Arranco, admite que o peso da responsabilidade só não assusta mais porque tem o apoio de outras mulheres.

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“Estou indo com medo mesmo. Mas o que tem me acalentado nessa correria é o carinho que eu estou recebendo, principalmente das mulheres. Pessoas que realmente se identificam e falam: ‘eu sempre quis estar na bateria’. É estranho falar assim, mas as pessoas estão se inspirando em mim”, admira-se.

Laísa reforça que desde o convite da escola da Zona Norte se preocupou em buscar representatividade na própria agremiação, a começar pela diretoria, passando ainda pela intérprete Pâmela Falcão. “Não estou ali pela mídia, mas para representar cada mulher que passa pelo Carnaval e para dizer que ela pode fazer a mesma coisa que os homens, e até melhor.”

A intérprete Jéssica Martin no ensaio técnico da Beija-Flor: mulheres vão transformando Sapucaí em território de liderança feminina (Foto: Eduardo Holanda / Beija-Flor)

Nada de mulheres como figuração

E que não seja um papel de coadjuvante, complementa Elisa Fernandes, 44 anos, diretora de Carnaval da Unidos da Tijuca, a única a ocupar o posto no Grupo Especial, ao lado de Fernando Costa. “Não pode ser um cargo ocupado por uma mulher só para constar.”

Elisa conta que enfrentou resistências no início da sua atuação, e escolheu focar na boa convivência e no bem-estar, com a ajuda de atendimento psicológico implementado recentemente na agremiação. Deixando claro, porém, que era ela a responsável pelo desenvolvimento do trabalho. “Só não permito que me desautorizem. Logo no início, reforcei que há um motivo para eu estar na liderança.”

A mulher merece estar nesse lugar de fala

Jéssica Martin
Intérprete da Beija-Flor

Primeira intérprete de Nilópolis após um legado de 50 anos de Neguinho da Beija-Flor, Jéssica Martin, 36, assegura que a azul e branco sempre abriu espaço para as mulheres, e que levará para sua estreia na Sapucaí, ao lado de Nino do Milênio, o “anel” passado pelo antecessor: “Estávamos em um show e, ao cantar “Meu anel de bamba, entrego a quem mereça usar” (Não Deixe o Samba Morrer), Neguinho beijou minha mão como se tivesse passando o anel para mim. Levei isso para a vida e hoje sou sucessora dele.”

Jéssica fala que chegou na escola há quatro anos, sem saber cantar um samba-enredo. E que, com a ajuda de profissionais, encontrou seu próprio tom, “uma voz masculina e feminina, agradável a todos”. “Acho que estão gostando muito.”

Inspirada por “mulheres empoderadíssimas” como Elza Soares, Alcione e Clara Nunes, a intérprete agora quer ser o espelho para as meninas de Nilópolis. “A mulher merece estar nesse lugar de fala”.

Giovanna Páglia, 32 anos, com seu xinquerê: desafio no comando do naipe do instrumento na bateria da Portela (André Frutuôso / Estúdio Casa de Mainha)

“Que cada uma que chega seja caminho para as outras”

Escola de samba mais antiga do Rio de Janeiro, a Portela trará apenas sua terceira diretora na bateria (os responsáveis por seções rítmicas, subordinados aos mestres), com a mineira de Ituiutaba Giovanna Páglia, 32 anos, comandando o naipe de xequerês, instrumento criado por mulheres africanas proibidas de tocar tambores.

Filha de pais atletas e formada em engenharia de produção pela UNB, a ex-patinadora artística que queria ensinar funk para meninas lembra que foi um “não” na Mangueira que a levou para Madureira.

Em 2025, a verde e rosa tornou-se a única do Grupo Especial com um naipe de ritmistas exclusivamente feminino, especialistas em xequerê. Isso depois de quase 80 anos sem aceitar mulheres em sua bateria. Gio, então, tentou vaga no Palácio do Samba, sem sucesso.

O Carnaval do futuro precisa de mais redes de afeto. Precisamos ser sol, água e semente umas das outras

Annik Salmon
Carnavalesca do Arranco

Reconhecendo seu talento, o produtor cultural e percussionista Ricardo Guerra a encaminhou para o subúrbio. “De toda dificuldade que é para uma mulher negra, vinda de fora, liderar, tenho me sentido reconhecida pelas pessoas certas, e que sou importante nessa função. Espero que eu seja a terceira de muitas”, acentua.

Se depender de seu movimento, o Agbelas, será mesmo: criado por Gio em 2019, ele usa o instrumento como portal de cura. “O xequerê salvou a vida de uma mulher que sofreu abusos e não podia mais tocar instrumentos de impacto. É um útero ancestral que permite o florescer”, relata.

A carnavalesca Annik Salmon com alegoria para o desfile do Aranco: abertura de caminhos para outras mulheres (Foto: Artur Amaro / Arranco)

Annik Salmon, 44, única carnavalesca nas 27 escolas do Carnaval 2026, na Sapucaí, endossa a rede. Após anos recusando o rótulo de “toque feminino” para sobreviver, hoje ela o usa como diferencial para iluminar histórias como a do palhaço Xamego, uma mulher (Maria Eliza Alves dos Reis) que trabalhou por décadas no circo disfarçada de homem e será homenageada no enredo do Arranco para 2026. “O Carnaval do futuro precisa de mais redes de afeto. Precisamos ser sol, água e semente umas das outras”, conclui.

Com uma trajetória no Carnaval que começou na Porto da Pedra e passou por Unidos da Tijuca, Vila Isabel e Mangueira como assistente, até passar a fazer parte de comissões responsáveis por desenvolvimento de enredos da Unidos da Tijuca, entre 2015 a 2019, e começar a carreira solo em 2019 novamente na Porto da Pedra, Annik assina sozinha o enredo do Arranco pelo segundo ano consecutivo.  “No que lhes foi permitido, nossas antepassadas foram pioneiras; agora é nossa vez de sermos. Que cada uma que chega seja caminho para as outras.”

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Luiza Souto

Jornalista e pesquisadora do Rio de Janeiro. Tem experiência na cobertura sobre Direitos Humanos, diversidade e gênero. Também produtora e roteirista de campanhas e minidocumentários com essas temáticas. Contribuiu com veículos como Folha de S. Paulo, Extra, O Globo, GloboNews e UOL.

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