Mulheres reitoras: número de lideranças femininas avança lentamente nas universidades públicas

Universidades federais têm 40,5% de reitorias chefiadas por mulheres. Dados revelam avanços, mas equidade de gênero ainda é um desafio

Por Micael Olegário | ODS 5
Publicada em 28 de janeiro de 2026 - 09:01  -  Atualizada em 28 de janeiro de 2026 - 09:18
Tempo de leitura: 12 min

Reitoras e vice-reitoras recebem ministra Márcia Lopes na sede da Andifes; discussão sobre equidade de gênero envolve esforço coletivo (Foto: Divulgação/Andifes – 20/08/2025)

As mulheres reitoras estão ocupando cada vez mais espaço na gestão das instituições públicas de ensino superior no Brasil. Entre as 69 universidades federais (UFs), elas lideram 28 reitorias ou 40,5%, enquanto os homens reitores são 41 ou 59,5%. Contudo, a diferença ainda existente mostra que a equidade de gênero em posições de decisão na academia ainda está distante.

Apesar de serem minoria, o número de mulheres reitoras cresceu nos últimos 10 anos. Estudo de 2017 mostrava que, nas 63 universidades federais da época, as mulheres ocupavam apenas 30,2% dos cargos. O mesmo movimento acontece nas vice-reitorias e em outras posições de poder e decisão, como as pró-reitorias.

“É um movimento que está crescendo, mas que é lento e envolve mudanças estruturais, porque não podemos negar que temos duplas jornadas. A própria maternidade acaba sendo um um ponto de muita reflexão para as mulheres ocuparem esses espaços”, aponta Jenifer Saffi, reitora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).

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Os avanços, porém, não chegaram a todos os lugares. Pelo menos nove UFs brasileiras nunca tiveram uma reitora, o que inclui instituições com décadas de existência, como a Universidade Federal do Pará (UFPA), fundada em 1957, e a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), criada em 1954.

Enquanto a primeira universidade federal surgiu em 1920, a primeira mulher a ser reitora só veio mais de 60 anos depois, com Maria do Rosário Cassimiro, na Universidade Federal de Goiás (UFG), em 1982. A nomeação ocorreu quando o Ministério da Educação era comandado por Esther de Figueiredo Ferraz, primeira mulher a ser reitora de uma universidade na América Latina, em 1965, na Universidade Mackenzie.

A estrutura patriarcal se reflete de forma bastante evidente nas posições de poder na academia, assim como historicamente ocorre nas ciências. Centenária e pioneira do tipo no país, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) teve apenas uma mulher reitora na sua história – Denise Pires de Carvalho, entre 2019 e 2023.

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Entre as 28 lideranças femininas atuais, três delas são as primeiras mulheres reitoras de suas instituições: Martha Bohrer Adaime, na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) – desde 1960; Nadir do Nascimento Nogueira, na Universidade Federal do Piauí (UFPI) – desde 1971; e Diana Araújo Pereira, na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) – desde 2010.

Universidades estaduais

As desigualdades de gênero não se manifestam apenas nas instituições federais. Referência nacional e fundada em 1934, a Universidade de São Paulo (USP) também só teve uma mulher reitora – Suely Vilela Sampaio, entre 2005 e 2009. Entre as 41 universidades estaduais mapeadas na reportagem, 16 delas (39%) possuem lideranças femininas e 25 (61%), masculinas. 

Algumas universidades estaduais com décadas de existência também nunca tiveram mulheres reitoras, entre elas: a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), desde 1966; a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), desde 1974; e a Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), desde 1965.

As mulheres se cobram mais e elas são mais exigidas também pelo seu entorno, por estarem nessa posição de destaque

Jenifer Saffi
Reitora da UFCSPA

Essas diferenças contrastam com o fato de que as mulheres são maioria entre as discentes de instituições de ensino superior. Nas federais, por exemplo, são 52,1% de alunas contra 47,9% de alunos. Já nas estaduais são 54,5% de alunas e 45,5% de alunos, segundo dados do Censo da Educação Superior 2024.

As assimetrias começam ao se observar a proporção de docentes, com os homens assumindo a maioria das vagas. Nas federais, as mulheres professoras são 43,8% e os homens professores 55,2%. Nas estaduais são 47% de docentes mulheres e 53% de docentes homens, também conforme os dados de 2024.

Cabe relembrar que a escolha de um reitor ou reitora, em geral, envolve um processo democrático, com eleição interna por docentes, servidores e discentes de cada instituição. Tanto nas federais quanto nas estaduais, o mais comum é a elaboração de uma lista tríplice a partir do resultado dos pleitos, que depois é encaminhada ao chefe do executivo (presidente ou governador/a), responsável pela nomeação.

Universidades privadas

Pela própria natureza das universidades particulares, não existem dados sobre o número de dirigentes mulheres e homens. Vice-presidente acadêmica da Vitro Educação, grupo responsável por instituições como UNIASSELVI e UniCesumar, Sara Pedrini explica que a presença de lideranças femininas na educação privada espelha o que acontece em outros setores, ou seja, uma maioria de homens em posições de poder.

“Não existem movimentos muito articulados, mas existem iniciativas institucionais que visam promover a mulher a um espaço maior de liderança”, pondera Sara, também diretora da Associação Nacional das Universidades Particulares (ANUP). Segundo ela, existe um crescimento também lento na diversidade de gênero nesses cargos.

Quando falamos de instituições que precisam apresentar resultados financeiros, resultados pedagógicos e de performance, muitas vezes a mulher ultrapassa a sua jornada de trabalho e bastante. Essas questões afastam as mulheres de posições de liderança

Sara Pedrini
Vice-presidente da Vitro Educação

Entre as ações práticas para promover a equidade na esfera privada, a diretora da ANUP cita mentorias e formações voltadas para estimular a participação de mulheres na gestão, além de mudanças na cultura organizacional de cada instituição. “Deveríamos superar esse obstáculo até pelo pelo que a gente constrói na academia, porque é uma luta de muitos anos, mas isso é difícil. Precisamos quebrar esse teto de vidro”, enfatiza Sara.

Representatividade

Além de desafiar as estatísticas e o histórico patriarcal das universidades, a presença de mulheres em cargos de liderança é atravessada por diversos fatores, como a representatividade. Professora de bioquímica, Jenifer Saffi ingressou na UFCSPA em 2009 e conta que nunca se imaginou como reitora. “Não está no radar, num primeiro momento, de uma mulher ocupar um cargo dessa envergadura”, comenta.

Jenifer relata que, em sua época de graduação na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), não havia mulheres nessa posição. A primeira reitora foi Wrana Maria Panizzi, em 1996, quando Jenifer já estava no doutorado. “No momento em que vai aumentando o nosso número de referências, isso se torna um caminho muito mais viável”, acrescenta.

Diferente de outras universidades, a UFCSPA possui maioria de docentes mulheres, o que também se reflete nos cargos de gestão terem maior presença feminina. “Deveria ser um caminho natural que então mais mulheres ocupassem esses espaços, porque elas estão cada vez mais qualificadas”, pontua a reitora, sobre o número crescente de mulheres na graduação e pós-graduação.

Professora do departamento de Comunicação na UFSM, Milena Carvalho Bezerra Freire de Oliveira Cruz assumiu a Pró-Reitoria de Extensão da instituição em 2026. Antes, ela tinha ocupado cargos de coordenação de curso e departamento, com tarefas operacionais e mais ligadas ao diálogo com alunos, mas nunca com poder de decisão sobre orçamento, por exemplo.

“Existem alguns convites que uma mulher não pode dizer não, porque são espaços difíceis de serem ocupados”, afirma Milena, sobre o misto de surpresa e determinação de abrir possibilidades para outras mulheres. “É quase como honrar a trajetória de quem já esteve e possibilitar a daquelas que virão”, complementa.

Reitora da UFPEL, Úrsula Rosa da Silva, ao lado de Jenifer Saffi, Denise Pires de Carvalho e Suzanne da Rocha Vieira Gonçalves, reitora da FURG; mulheres reitoras são maioria nas universidades gaúchas (Foto: Bruna Araújo/MEC)

Desigualdades e violências

Se por um lado, a presença de mais mulheres acrescenta olhares mais diversos para as gestões, por outro, está permeada por cobranças e violências silenciosas. “As mulheres se cobram mais e elas são mais exigidas também pelo seu entorno, por estarem nessa posição de destaque”, observa Jenifer.

Milena menciona algo semelhante e lembra que até o comportamento das mulheres passa a ser mais monitorado. A mesma frase em uma reunião pode ser lida como positiva se vier de um homem e negativa se for dita por uma mulher. “A universidade brasileira funciona a partir de uma lógica patriarcal. A própria produção do conhecimento científico no mundo se dá a partir de uma lógica masculinista”, evidencia a pró-reitora de extensão da UFSM.

Para as mulheres, a decisão de ocupar posições de poder implica ainda em negociações com familiares e redes de apoio. Isso porque, as responsabilidades de tarefas domésticas e de cuidados recaem, quase sempre, sobre as mulheres. Nesse contexto, estão incluídos cuidados com filhos/as e também com outros familiares, como pais idosos.

Ao comentar sobre as duplas jornadas de trabalho, Sara Pedrini observa que essa lógica atinge de forma mais severa lideranças de universidades privadas. “Quando falamos de instituições que precisam apresentar resultados financeiros, resultados pedagógicos e de performance, muitas vezes a mulher ultrapassa a sua jornada de trabalho e bastante. Essas questões afastam as mulheres de posições de liderança”, acrescenta a diretora da ANUP.

Pesquisadora de temáticas ligadas ao gênero no universo da comunicação, Milena pontua a necessidade de se pensar também em outras interseccionalidades que afetam a presença de mulheres em cargos de chefia nas universidades, como desigualdades regionais e de raça. Sobre esse último aspecto, entre as 28 reitoras atuais, apenas duas são mulheres negras. 

“Andivas”

Criada em 1989, a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (ANDIFES) tem sido responsável por estimular o debate sobre gênero entre gestoras e gestores de universidades brasileiras, o que inclui discussões em eventos e a criação de um grupo específico de reitoras e vice-reitoras, as “Andivas”.

É um ambiente seguro, de troca de experiências e de compartilhamento de boas práticas”, detalha Jenifer, sobre o grupo das Andivas. A reitora da UFCSPA cita ainda encontro com a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, para discutir parcerias, ações e políticas de igualdade de gênero, inclusive, para o enfrentamento à violência e ao assédio nas universidades.

Ao mencionar a Política de Igualdade de Gênero da UFSM, Milena lista pontos essenciais para combater as desigualdades e violências no meio acadêmico. “Precisamos pensar em políticas de equidade de gênero que possibilitem a permanência das estudantes-mães, que muitas vezes são obrigadas por uma questão social, cultural e histórica, a abandonar os cursos. Precisamos de políticas de permanência para servidoras e lógicas de responsabilização para situações de assédio que não são poucas”.

Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestrando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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