O município de Santos, no litoral de São Paulo, é uma das cidades mais antigas do Brasil e completa 480 anos no dia 26 de janeiro de 2026. Atualmente é a cidade mais feminina do país e tem a estrutura etária mais envelhecida entre as cidades com mais de 100 mil habitantes.
Com uma área territorial de 281 quilômetros quadrados (km2) e uma densidade demográfica de 1.490 habitantes por km2 em 2022, a população de Santos apresentou grande crescimento demográfico entre 1872 e 1991 e uma certa estabilização nas últimas três décadas.
Leu essa? Como lidar com o acelerado envelhecimento populacional do Brasil?
O gráfico abaixo mostra que a população de Santos era de 9,2 mil habitantes em 1872 (quando foi feito o primeiro censo demográfico do país) e deu um salto para mais de 200 mil habitantes em 1950. Desde o final do século XIX, com a valorização do café brasileiro no mercado internacional, Santos tornou-se o principal porto exportador do país. Isso atraiu trabalhadores, comerciantes, imigrantes (especialmente italianos, portugueses e japoneses) e investimentos. No início do século XX, a cidade se modernizou rapidamente.
Entre 1950 e 1991, a cidade de Santos acrescentou outros 200 mil habitantes funcionando como polo de atração, beneficiada pela industrialização do ABC paulista e pela proximidade com São Paulo. Muitos migrantes nordestinos também se instalaram na Baixada Santista em busca de emprego nos setores portuário, comercial e de serviços.
A partir de 1991, a população de Santos parou de crescer e até diminuiu ligeiramente. De fato, existe uma limitação geográfica, pois Santos está situada em uma ilha estreita entre o mar e a Serra do Mar, com espaço físico extremamente limitado para expansão horizontal. Isso impede a construção de novos bairros ou grandes conjuntos habitacionais.
Com a valorização imobiliária (impulsionada pela proximidade com a capital, qualidade de vida e turismo), muitas famílias de renda média e baixa migraram para cidades vizinhas como São Vicente, Praia Grande e Cubatão, onde o custo de moradia é menor. A modernização e automação do Porto de Santos reduziram a demanda por mão de obra intensiva. Empregos que antes exigiam centenas de operários passaram a requerer menos pessoas, mas com maior qualificação técnica.
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Veja o que já enviamosA queda das taxas de fecundidade, o envelhecimento da estrutura etária e uma baixa imigração líquida são componentes demográficos que contribuem para a estabilização da população. O censo demográfico de 2022 registrou uma população de 418,6 mil habitantes em Santos, reduzindo o tamanho em relação a 2010. Mas o último censo teve reconhecida falha de cobertura e o próprio IBGE estimou uma população de 429,6 mil habitantes em 2024, o maior valor desde 1991.
A redução do ritmo de crescimento demográfico e o envelhecimento da população é uma característica universal. O gráfico abaixo mostra que o Índice de Envelhecimento (IE), no século XXI, está aumentando de forma acelerada no mundo, no Brasil e em Santos. No ano 2000 havia 32 idosos de 60 anos e mais para cada 100 jovens de 0 a 14 anos no mundo, 26 no Brasil e 80 em Santos. Para 2050, as projeções indicam 107 idosos para cada 100 jovens no mundo, 200 no Brasil e 245 idosos para cada 100 jovens em Santos.
O gráfico abaixo mostra o Índice de Envelhecimento para o Brasil, o estado de São Paulo, a cidade de São Paulo e a cidade de Santos entre 1970 e 2022, segundo os censos demográficos do IBGE. Nota-se que Santos já tinha uma estrutura etária mais envelhecida do que que as demais áreas geográficas do gráfico. Em 2022, havia 80 idosos de 60 anos e mais para cada 100 jovens de 0 a 14 anos no Brasil, 96 idosos para cada 100 jovens no estado de São Paulo, 104 na cidade de São Paulo e 176 idosos para cada 100 jovens em Santos. Em breve, a cidade de Santos terá 2 idosos (60+) para cada 1 jovem (0-14 anos).
A mudança da estrutura etária acontece de forma mais rápida em Santos no que no Brasil. O gráfico abaixo mostra a pirâmide etária brasileira (colunas cinzas no fundo) e a pirâmide etária de Santos (parte colorida e sobreposta), em 2022. Nota-se que abaixo dos 40 anos existem muito mais pessoas nestes grupos etários mais jovens no Brasil, enquanto acima de 40 anos há muito mais pessoas em Santos do que em nível nacional. Portanto, a pirâmide etária de Santos é bem mais envelhecida, em especial, no lado feminino. Na base da pirâmide santista há mais homens do que mulheres, mas no topo a proporção de mulheres aumenta com o avanço da idade. Portanto, o envelhecimento populacional em Santos é um fenômeno fortemente feminino.
O gráfico abaixo mostra que o percentual da população de Santos de 0-14 anos já vem diminuindo desde o século passado, caindo pela metade de 28,7% em 1970 para 14,4% em 2022. A população de 15-59 anos subiu de 62,7% em 1970 para 64,8% em 2000 e caiu para 60,2% em 2022. Portanto, a população considerada em idade ativa já vem diminuindo, enquanto a população idosa (60+) passou de 8,3% em 1970 para 25,3% em 2022. Em 2007, pela primeira vez em sua história, o percentual de idosos superou o percentual de crianças e adolescentes em Santos.
A mudança da estrutura etária é um fenômeno que atinge todo o território nacional, mas em diferentes ritmos de acordo com a escala geográfica. No topo da lista do envelhecimento, em 2022, estão alguns municípios pequenos e predominantemente rurais, especialmente do Rio Grande do Sul, como as cidades de Santa Tereza – 1.500 habitantes e IE de 361 idosos para cada 100 jovens – e Coqueiro Baixo – 1.290 habitantes e IE de 359 idosos para cada 100 jovens.
Mas considerando as cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes (geralmente com maior taxa de urbanização) a liderança é da cidade de Santos com um IE de 175,7 idosos para cada 100 jovens. A seguir aparecem Niterói (RJ) com 163,4 e São Caetano do Sul (SP) com 158,8 idosos para cada 100 jovens. A tabela abaixo mostra o Índice de Envelhecimento dos 10 municípios com mais de 100 mil habitantes do país, com maiores mudanças na estrutura etária.
Nos municípios maiores, mais urbanos e mais envelhecidos existe uma tendência de haver um predomínio da população feminina, pois a migração rural/urbana é predominantemente feminina. A tabela abaixo mostra os 10 municípios brasileiros com a menor razão de sexo (homens/mulheres*100) em 2022. Nota-se que Santos é a cidade mais feminina do Brasil com 82,9 homens para cada 100 mulheres. Em seguida aparece Salvador (BA) com 83,1 e São Caetano do Sul (SP) com 84 homens para cada 100 mulheres.
As cidades mais masculinas do Brasil são Balbinos (SP) com 444 homens para cada 100 mulheres e Lavínia (SP) com 287 homens para cada 100 mulheres.
Portanto, a cidade de Santos destaca-se como a mais feminina do Brasil, figura entre as mais envelhecidas do país e já ultrapassou o seu pico populacional. Essa configuração demográfica, evidentemente, repercute de forma profunda sobre as dinâmicas econômica e social, impondo ao Estado, à iniciativa privada e à sociedade civil o desafio de formular políticas públicas e ações coletivas capazes de promover uma adaptação sinérgica à nova realidade.
Santos: desafios e oportunidades do envelhecimento populacional
O envelhecimento populacional é uma conquista civilizacional. Viver mais é um privilégio que deve ser acompanhado por políticas públicas inovadoras, adaptações institucionais e uma mudança de mentalidade coletiva. A queda das taxas de fecundidade e a elevação da expectativa de vida não devem ser encaradas como problemas, mas como oportunidades para transformarmos a sociedade. Sem dúvida, o envelhecimento populacional traz desafios, mas também traz oportunidades.
O principal desafio é o fim do 1º bônus demográfico, pois o número e a proporção de pessoas de 15 a 59 anos já está diminuindo na capital paulista e este fato pode se desdobrar em uma crise fiscal se o país e as cidades continuarem a pensar a relação entre as gerações de maneira fixa. O antigo roteiro de vida com jovens estudando, adultos trabalhando e idosos aposentados perde força diante de uma população que vive mais e deseja continuar ativa, produtiva, colaborativa e integrada.
Mas há também pelos menos duas janelas de oportunidade para a prosperidade e o bem-estar social. O 2º bônus demográfico – ou bônus da produtividade – não é um fenômeno temporário, mas sim um evento que é capaz de gerar frutos indefinidamente se houver investimentos na educação, na saúde, na infraestrutura que possibilite aos trabalhadores produzirem mais bens e serviços com menos insumos humanos e ambientais.
A outra janela de oportunidade se abre com o 3º bônus demográfico – ou bônus da longevidade – que se refere ao potencial econômico, social e institucional que emerge quando uma sociedade passa a ter maior proporção de pessoas idosas, sobretudo em contextos de maior expectativa de vida saudável. Diferentemente do primeiro bônus (expansão da população em idade ativa) e do segundo bônus (acumulação de poupança, capital, educação e produtividade), o bônus da longevidade depende menos da estrutura etária em si e mais de como a sociedade se organiza para envelhecer bem.
O que caracteriza o bônus da longevidade é uma vida mais longa e saudável com aumento dos anos vividos sem incapacidades severas. O aumento do capital humano acumulado permite que os idosos compartilhem experiência, conhecimento e redes sociais. Juntamente com a mudança nos perfis de consumo em decorrência da expansão da “economia prateada” (saúde, cuidados, lazer, educação ao longo da vida, tecnologia assistiva) há toda uma oportunidade na reorganização do ciclo de vida, com trabalho, estudo e aposentadoria deixando de ser fases rígidas e imutáveis.
O bônus da longevidade requer aprendizado permanente, requalificação para novas tecnologias, alfabetização digital de adultos e idosos e universidades e cursos voltados à terceira idade. Requer também o combate ao etarismo, aposentadorias flexíveis e cumuláveis com trabalho e jornadas parciais, além de trabalho remoto e funções de mentoria. A intergeracionalidade é uma fonte de prosperidade mútua.
Uma sociedade envelhecida não está condenada ao declínio. O terceiro bônus demográfico mostra que, com políticas adequadas, a longevidade pode ampliar a produtividade (via experiência e capital humano), a inovação (novos mercados e tecnologias) e a coesão social (mais tempo de contribuição cívica e cultural).
A população de 50 anos e mais de idade, que representava menos cerca de 16% da população santista em 1970, concentrará mais da metade da população total da cidade na segunda metade do século XXI. Desta forma, a economia de Santos passará, progressivamente, a girar em torno da produção e do consumo da população de 50 anos e mais de idade. A Economia Prateada será a alternativa do futuro.
O conceito geral da economia prateada é complexo e ainda está em formação. Mas a literatura sobre o tema ganhou destaque, inicialmente, Japão e, posteriormente, em documentos da OCDE e da União Europeia. A Comissão Europeia (2009) definiu a economia prateada como as oportunidades econômicas existentes e emergentes que se desenvolvem como resultado do aumento dos gastos do governo e do consumidor, bem como das necessidades específicas de pessoas com 50 anos ou mais, resultantes do envelhecimento da população.
A Economia Prateada exige a superação de atitudes etaristas que historicamente promoveram a segregação e a discriminação das pessoas com 50 anos ou mais — grupo que tende a se tornar majoritário na população na maioria dos países do mundo. O diagnóstico sobre o que precisa ser feito já é conhecido; o que falta é agir com a velocidade e a eficácia necessárias para construir um futuro distinto, mais inclusivo e mais próspero.
O desafio central é transformar anos adicionais de vida em anos produtivos, saudáveis e socialmente integrados. As empresas e o Estado devem reter seus funcionários mais velhos, em vez de demiti-los precocemente. Onde isso ocorre, o envelhecimento deixa de ser problema e se torna vantagem estratégica. Os idosos deixam de ser vistos como problema e passam a ser vistos como solução.
O município de Santos completa 480 anos em 26 de janeiro de 2026. A cidade pode avançar e se afirmar como um polo da Economia Prateada, integrando todas as idades em um mesmo território de convivência, com plena cidadania e constante inovação.
Feliz aniversário, Santos! Que venham outros 500 anos. Com a força de todos os habitantes, especialmente das mulheres e dos idosos, a cidade pode se tornar mais próspera, mais democrática, mais justa e ambientalmente mais sustentável.
