Ayvu: curso usa tecnologia como ponte para a cultura e a língua Mbya Guarani

Iniciativa conta videoaulas com professores guaranis. Objetivo é promover o patrimônio cultural e a língua Mbya Guarani

Por Micael Olegário | ODS 16
Publicada em 5 de fevereiro de 2026 - 09:38  -  Atualizada em 13 de fevereiro de 2026 - 09:45
Tempo de leitura: 10 min

Curso parte dos saberes cultivados por lideranças de comunidades guaranis do RS e do Paraná (Foto: Mishta/Divulgação)

“Nhembojerovia ma jareko ra’ã Nhanderu rembiapo’re”. A língua de um povo é uma ponte para compreender sua forma de ver e atuar no mundo. Assim é com o Mbya Guarani e com a frase do início deste texto que representa um dos valores dessa etnia: “É preciso ser ensinado o respeito com a natureza”.

Idealizado com a proposta de promover a cultura imaterial Mbya Guarani, o curso “Ayvu é fala e é amor também” utiliza a tecnologia como um canal para as tradições dessa população. Para isso, a iniciativa conta com videoaulas gravadas nas próprias tekoás (aldeias) e com o protagonismo de dois professores guaranis: Juliana Kerexu e Verá Tupã.

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“Não é apenas ensinar a pronúncia e a gramática, mas aprender sobre a história e a raiz da língua guarani. Essa estrutura também influencia essa vasta mistura que é o povo brasileiro”, explica Juliana, cacica da Tekoá Takuaty, localizada na Terra indígena Ilha da Cotinga, sobreposta ao município de Paranaguá (PR). Para ela, o projeto é um meio para combater o racismo e o preconceito contra os povos originários.

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Estimativas indicam que antes da invasão e colonização, mais de mil línguas eram faladas no território brasileiro “Não é uma língua estrangeira, como inglês, francês ou japonês, mas uma língua daqui”, recorda Verá Tupã, agente cultural e professor nas comunidades Yvy Poty e Guapo’y, no município de Barra do Ribeiro (RS). 

Dados do Censo 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) identificaram 295 línguas faladas por 391 etnias no Brasil. As três línguas com maior número de falantes são Tikúna (51.978), Guarani Kaiowá (38.658) e Guajajara (29.212). Contribuir com a preservação dessa diversidade linguística indígena é um dos objetivos do “ayvu”, expressão que pode ser traduzida como alma-palavra ou como o sopro de vida.

Como funciona o curso ayvu?

O primeiro episódio do “Ayvu é fala e é amor também” foi publicado no dia 30 de janeiro, apresentado por Juliana Kerexu e gravado na Tekoá Takuaty. Inicialmente, o objetivo é apresentar aspectos sobre o cotidiano e cultura dessa etnia. Ao todo, estão previstos dez episódios, sendo três dedicados aos cantos Mbya Guarani. Além disso, é possível acompanhar os conteúdos por um e-book bilíngue.

Do ponto de vista pedagógico, a proposta é partir das conexões entre as palavras, letras e a cosmovisão Mbya Guarani. O curso foi idealizado pelas produtoras Sem Início Sem Fim e Outro Acontecimento, com financiamento via Pró Cultura RS e recursos do Plano Nacional Aldir Blanc (PNAB). 

Dentro de uma cosmovisão guarani, a gente acredita que tudo é um ciclo constante e também o nosso espírito. Por isso, é tão importante construir essa Terra Sem Males… Nós também somos o meio ambiente, então precisamos cuidar desse lugar que nós somos

Juliana Kerexu
Cacica, ativista e professora

Uma das produtoras responsáveis, Elisa Gottfried – mais conhecida como Mishta – conta que o curso é uma iniciativa paralela ao podcast Nhexyrõ, que também abordava a temática indígena. A inspiração para trabalhar com os povos originários, no entanto, nasceu a partir do contato com Jaider Esbell, indígena Makuxi, escritor e arte-educador. 

A primeira temporada do curso foi exclusiva para professores e educadores, em 2023. Ao todo, foram 50 docentes que participaram das formações on-line de forma síncrona. O foco inicial era elaborar uma ferramenta de aplicabilidade da lei 11.645/2008, norma que estabeleceu a obrigatoriedade do ensino sobre as culturas afro-brasileiras e indígenas no Brasil. 

Segundo Mishta, a ideia de alterar o formato está ligada com a intenção de levar os saberes compartilhados nas aulas para mais pessoas, principalmente, em uma região do país em que a colonização atuou de forma violenta para apagar as heranças dos povos originários. “Ampliar o entendimento das pessoas não indígenas sobre a resistência dos povos indígenas no sul”, complementa.

Artista e poetisa, Juliana luta pelo empoderamento das mulheres indígenas (Foto: Oruê Brasileiro/Cantarim Cultural)

Professora, cacica e ativista

“Oky nhaneramõi kuery ayvu / Ombojau gueamirirõ kuery mborai’i py / Mbaraete py ijayu

omembe’u nhande mãje / Ko yvy py gua mbovy yakã mbovy ka’aguy / Rei hẽ’y pa”

O trecho acima pertence ao poema “Rio de Palavras”, escrito por Daiara Tukano em português e traduzido por Juliana Kerexu para o Mbya Guarani. A tradução para o português mostra a relação dos guaranis com a terra e com sua ancestralidade: “Choveu memória / choveu a palavra dos avós / para banhar os netos de sonhos com cantos de força, paciência dizendo que somos desta terra / de muitos rios e florestas”.

Além de professora, Juliana atua desde jovem como ativista em defesa de sua comunidade, em especial, pelo direito das mulheres indígenas. “Com 15 para 16 anos entendi o meu papel como uma jovem que compreende e fala bem português, [compreendi] que isso serviria para a defesa do meu povo e das mulheres que eu via passar por tantas violências, quando iam para a cidade vender artesanato”, relata a cacica.

Poetisa e artista visual, ela participa do Movimento Xondaria Kuery Jera Rete, iniciativa de mulheres indígenas do Paraná que luta pelo empoderamento feminino nas aldeias. Juliana também é co-autora do caderno “Emergência climática: povos indígenas chamam para a cura da Terra!”, escrito junto com Cristiane Julião Pankararu e ilustrado por Wanessa Ribeiro, ambas indígenas.

Antes, a proximidade com o português era uma forma de Juliana mediar o contato de outras mulheres com os juruá (não indígenas). Agora, ela atua em outra via para promover o empoderamento e ocupar espaços com a língua Mbya Guarani, ajudando a enfrentar as raízes da violência de gênero que também afeta as aldeias.

A cacica desmonta a ideia de que a violência contra as mulheres indígenas seja um elemento cultural. Pelo contrário, trata-se de uma herança colonial. “Infelizmente a humanidade sofre com uma doença que é o patriarcado, que coloca a mulher como subserviente e como objeto”, pontua Juliana.

Nos últimos anos, a cacica também tem se tornado uma liderança espiritual da comunidade, uma outra maneira de resistir às pressões e aos desafios enfrentados nas tekoás, inclusive, do ponto de vista socioambiental. “Dentro de uma cosmovisão guarani, a gente acredita que tudo é um ciclo constante e também o nosso espírito. Por isso, é tão importante construir essa Terra Sem Males… Nós também somos o meio ambiente, então precisamos cuidar desse lugar que nós somos”.

Bastidores da gravação na Tekoá Takuaty; projeto prioriza contratação de profissionais indígenas (Foto: Mishta e Manatit/Divulgação)

“Guaranizar” os juruá

“Kaay ma ogueru akã porã / Kaay ma ogueru iporã vae tete pe / opambaepe guarã”.

“A erva mate traz muita experiência / A erva mate deixa as pessoas com mais vontade / para se concentrar e pensar”. Essa é a tradução de um trecho do e-book utilizado como complemento para o curso on-line. Parte deste texto e de muitos outros deste repórter foram escritos sob a influência da erva mate.

Para Verá Tupã, nome indígena de Geronimo Morinico Franco, existe um elo indissociável entre a agricultura e a espiritualidade dos Mbya Guarani. São em cerimônias com o uso de plantas tradicionais que as crianças da comunidade obtêm seus nomes indígenas, por exemplo.

Nascido na província de Misiones, na Argentina, Verá veio para o Rio Grande do Sul ainda criança e desde 2003 atua como professor. Nas comunidades em que atua, ele foi responsável pela criação da “Trilha Intercultural”, uma espécie de museu imersivo na floresta, para compartilhar saberes e fazeres da cultura guarani.

“Se você se esforçar bastante, você aprende logo”, afirma Verá, sobre o processo de aprendizagem do Mbya Guarani. Para o professor indígena, o ensino da língua Mbya é uma forma de “guaranizar os juruá”, ou seja, de fazer com que os não indígenas possam se reconectar com a natureza. 

Verá lembra, porém, que existem variações entre a língua falada no Brasil para outros países, como Argentina, Bolívia e Paraguai. Este último concentra a maior parte dos falantes e tem o guarani como um dos seus idiomas oficiais, ao lado do espanhol.

A variação mais comum no sul do país é o Mbya, uma das três vertentes principais do Guarani, da família linguística Tupi-Guarani, parte do chamado tronco Tupi. As outras são o Nhandeva ou Chiripá/Txiripa/Xiripá ou Ava Guarani e o Kaiowá.

 

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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