ODS 1
Nigeriana Akudo cria espaços seguros e inspira uma geração a lutar por direitos e dignidade


Akudo Oguaghamba, ativista, mulher queer e educadora: quando viver a própria verdade se transforma em movimento


O que você sabe sobre a Nigéria?
Uma potência cultural vibrante, berço de escritoras como Chimamanda Ngozi Adichie e de uma juventude que reinventa a música, o cinema e a tecnologia no continente africano.
Situada na África Ocidental, entre o Golfo da Guiné e fronteiras com Benin, Níger, Chade e Camarões, o país ocupa uma vasta área de mais de 923 mil km², uma extensão territorial maior do que a soma de países como Alemanha, Itália e Reino Unido. O país abriga a maior população do continente africano, com centenas de grupos étnicos e uma riqueza cultural impressionante. Com uma geografia diversa, do delta dos grandes rios às colinas do sudeste, convive com profundas desigualdades sociais, tensões políticas e uma economia marcada tanto pela abundância de recursos naturais quanto pela luta diária de milhões por direitos básicos.
Leu essa? A queniana Lydia: sua voz é o seu poder
Imo é um estado localizado no sudeste do país, criado em 1976, com capital em Owerri. Conhecido como o “Heartland”: o coração da região igbo tem como etnia predominante o povo Igbo, reconhecido por sua forte tradição comunitária, espírito empreendedor e profunda valorização da família.
Minha trajetória como mulher queer está profundamente ligada ao trabalho que faço hoje. Vem da experiência de saber o que é ser amada e de entender o que significa quando alguém é privada desse amor simplesmente por ser quem é. Sempre fui alguém que quer ajudar. Acredito profundamente que o mundo seria um lugar melhor se vivêssemos com mais amor e menos julgamento
Foi ali que Akudo Oguaghamba cresceu.
Em uma casa sempre cheia: seis irmãos, muitos primos, diferentes idades dividindo o mesmo espaço. A vida acontecia em volume alto. Havia afeto, gargalhadas espalhadas pelos cômodos, brincadeiras que atravessavam a noite. Onde há tanta gente, há, acima de tudo, calor humano.
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Veja o que já enviamosMas também existe competição. As comparações inevitáveis. As expectativas que pairam no ar. Quem vai se destacar? Quem vai orgulhar a família? Quem vai honrar o nome que carrega?
“A gente se abraçava muito”, ela conta. “Sempre que havia oportunidade, dançávamos juntos. Entre os igbos, voltar para casa é ritual. Reunir-se é celebração.”
Entendi que casa não é apenas um lugar, é pertencimento.
Entendi que a ideia de comunidade sempre foi central em sua vida. Ela repetiu mais de uma vez: “ninguém caminha só”. Na sua história, família é espinha dorsal.
E foi justamente nesse espaço de amor e proteção que Akudo também conheceu o outro lado do afeto: o peso das projeções, o medo da indiferença, o vazio que tenta enquadrar.
Ainda jovem, ela se descobriu uma mulher queer. Não queria perguntas, nem disputas, nem ter que provar nada para ninguém. Mas sentia que precisava “fazer tudo certo” o tempo todo: na escola, em casa, na sociedade. A pressão era constante.


Na sociedade em que cresceu, a voz das mulheres raramente ocupa o centro. Nas festividades, elas permanecem atrás, servindo comida, enquanto os homens assumem os espaços de decisão. Há o chief, há o chairman, e são eles que “implementam” o que foi definido, quase sempre sem a participação feminina. O corpo das mulheres é regulado: especialmente depois do casamento, há regras sobre como vestir, como se comportar, como existir em público.
“Por exemplo, mulheres casadas não devem usar calças”, ela explica. “Minha família sempre foi amorosa e aceitou minhas diferenças dentro de casa. Mas me apresentar como eu realmente sou na comunidade despertava medo, frustração e insegurança”.
Nesse contexto, até o afeto tinha fronteiras sociais bem delimitadas.
Os conflitos se intensificaram no ano em que ela se formou na universidade. Em sua região, mulheres que não se casam podem sofrer sanções sociais e até multas comunitárias. Se engravidam fora do casamento, também são punidas. Foi nesse contexto que sua sexualidade se tornou pública. Aquilo que ela havia mantido em silêncio foi exposto.
Akudo foi espancada por ser diferente.
Foi um momento em que sentiu a gravidade da violência e do isolamento. A comunidade tentou “resolver a situação” discretamente, como se o silêncio pudesse apagar sua identidade. Mas sua família, especialmente sua mãe, estava lá, firme, na retaguarda, oferecendo um apoio inabalável.
Em meio a essa turbulência e a esses silêncios ensurdecedores, seu pai faleceu alguns anos depois.
“Foi durante esse período de luto que compreendi verdadeiramente o valor radical do amor. Quando você perde alguém tão próximo, é forçada a encarar a realidade de que a vida é finita. Mais cedo ou mais tarde, todos nós morreremos. E, nessa compreensão, percebi que a única coisa que realmente devemos a nós mesmas, e umas às outras, é amor.”
O luto não trouxe apenas dor, trouxe questionamentos existenciais.
“Lembro-me de ter me feito perguntas difíceis, mas honestas. Se tudo na vida se resume, no fim, ao amor, por que viver uma vida que não seja verdadeira para mim? Por que existir para o conforto dos outros e abandonar minha própria verdade?”. conta. “Até mesmo a ideia de fingir, de moldar minha vida para atender às expectativas sociais, sabendo que a vida é tão frágil, não fazia sentido. Ficou claro que eu precisava viver plenamente, de forma autêntica”.
Nesse processo, Akudo também passou a reconhecer o privilégio do afeto que recebeu, especialmente da própria família, e a perceber que essa não é a realidade de todas as pessoas. Tornou-se consciente de que muitas pessoas queer atravessam a vida sem aceitação, sem segurança e sem qualquer forma de afirmação. Essa constatação permaneceu com ela, como uma responsabilidade silenciosa.
Mesmo mulheres heterossexuais sofrem. Todas as mulheres sofrem. Em qualquer espaço em que se encontram, o corpo e a vida das mulheres são regulados
A partir desse momento, sua identidade e sua atuação deixaram de existir em planos distintos. Quem ela era passou a moldar diretamente o que fazia e seu trabalho tornou-se uma extensão da própria verdade.
“Minha trajetória como mulher queer está profundamente ligada ao trabalho que faço hoje. Vem da experiência de saber o que é ser amada e de entender o que significa quando alguém é privada desse amor simplesmente por ser quem é. Sempre fui alguém que quer ajudar. Acredito profundamente que o mundo seria um lugar melhor se vivêssemos com mais amor e menos julgamento. Essa crença não é abstrata para mim. É pessoal. É o que me move.”
Nesse momento da nossa conversa, lembrei-me de um trecho do livro Meio Sol Amarelo, de Chimamanda: “Você não pode escrever um roteiro na sua mente e então forçar a si mesma a segui-lo. Você tem que deixar que você seja.”
Akudo se mudou para Abuja, capital da Nigéria, e compreendeu algo fundamental, que aprofundou ainda mais sua trajetória: “Não sou a única voz.” A partir dessa percepção, decidiu criar uma estrutura: identificar outras mulheres, ouvir suas histórias e construir rede. “Mesmo mulheres heterossexuais sofrem. Todas as mulheres sofrem. Em qualquer espaço em que se encontram, o corpo e a vida das mulheres são regulados”.


Foi nesse espírito que começou a mobilizar. Teve a ideia de convocar mulheres para um piquenique, e a resposta foi impressionante: mais de 100 mulheres participaram, viajando horas e atravessando estados para encontros, rodas de conversa e momentos de apoio mútuo. Akudo não falava a linguagem do “desenvolvimento”, dos editais ou projetos. Perguntava algo simples e direto: “Do que você precisa?”
Durante um período no Quênia, em 2024, me recomendaram a romancista nigeriana Lola Shoneyin, conhecida por abordar a sexualidade feminina e a vida doméstica em certos contextos africanos. Li, entre risos e lágrimas, o livro “As vidas secretas das esposas de Baba Segi”, que retrata ambientes íntimos e evidencia como o corpo e os desejos das mulheres são frequentemente controlados. A obra de Shoneyin, assim como o trabalho de Akudo, mostra que a emancipação feminina passa por ouvir, dar voz e construir redes de apoio.
Me arrepiei ao imaginar toda essa massa de mulheres se deslocando, respondendo a um chamado de apoio mútuo, movidas pela força do cuidado e da própria vontade de transformar suas vidas.
Foi assim que uma ideia casual se transformou em movimento.
É nesse contexto que a voz de Akudo ressoa não apenas como experiência individual, mas como expressão de uma realidade nacional que clama por dignidade, reconhecimento e justiça para todas as suas comunidades.
Nasceu, em 2011, a Women’s Health and Equal Rights Initiative (WHER) – criada para apoiar todas que se identificam como mulheres, .
Hoje, a organização possui um prédio e mantém uma casa sigilosa: um local seguro e confidencial para acolher mulheres em situação de risco, oferecendo proteção, apoio e privacidade. Cresceram de uma ou duas pessoas para uma equipe de 13 funcionárias e 18 voluntárias. Nada disso aconteceu em um ou dois anos. Essa é a trajetória de Akudo nos últimos dez anos.
Após a morte do pai, ela decidiu viver a própria vida com verdade. Akudo vive como mulher queer, tanto em sua vila natal quanto na cidade. Algumas pessoas na comunidade chegaram a pedir que sua mãe a deserdasse, mas a mãe se recusou. “Minha mãe é muito orgulhosa de mim”, diz.
Akudo trabalha arduamente, sustenta a família e paga a escola de crianças que nem são suas parentes. Tornou-se referência para muitas delas.
Até aqueles que a rejeitam aprenderam, aos poucos, a aceitá-la, mesmo que contrariadas.
Estamos construindo uma cultura em que pessoas queer apoiam umas às outras não apenas por meio da incidência política, mas também por meio do cuidado direto, da ajuda mútua e do compartilhamento de recursos
Desde 2014, a Nigéria possui uma lei ambígua que criminaliza o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A Cláusula 5 é usada como ferramenta de perseguição. Houve ocasiões em que ameaçaram prender sua mãe por dez anos “por ter uma filha gay”, apesar de isso contrariar a Constituição e tratados internacionais de direitos humanos.
Em 2024, a repressão se intensificou: houve ameaças, tentativas de prisão e exposição de fotos na mídia. Por segurança, Akudo e sua equipe permaneceram 29 dias escondidas, com a família levando comida e pronta para defendê-las. O tribunal interpretou a lei: ser gay ou intersexo não é crime. No entanto, o casamento ainda permanece um campo de disputa, com maior perseguição no norte do país.


Aos 42 anos, Akudo sabe que talvez nunca se case na Nigéria. Poderia recorrer à justiça, mas escolhe suas batalhas com cuidado. Ela também se recusa a fazer um “casamento de papel” entre sua parceira e um homem apenas para acessar direitos legais, uma estratégia que, em teoria, poderia ser usada, considerando interpretações do direito comunitário que permitem a representação de certos direitos civis por terceiros. Para Akudo, essa não é uma solução: implicaria comprometer princípios de autonomia e não refletiria a verdade de sua vida.
Ela não ultrapassa seus próprios limites. Vive abertamente, e pessoas mais velhas a procuram para conversar sobre suas dificuldades e dilemas.
Hoje, o trabalho da sua organização envolve empoderamento econômico, integração social e apoio digital e jurídico. Há também programas de bolsas, como o “IKE Fellowship”, ike, em igbo, significa “poder”, uma iniciativa voltada para mulheres queer com deficiência. Um poder que vai além do dinheiro: é o poder de se reconhecer e se aceitar plenamente, sem “ses” nem “mas”.
A organização tem como base a formação e o fortalecimento da própria comunidade. Promove capacitações paralegais para que pessoas compreendam seus direitos e saibam defendê-los. Realiza fóruns de direitos humanos e oficinas que ajudam a reconhecer as múltiplas formas de violência não apenas a física, mas também aquelas naturalizadas no cotidiano: o controle sobre o corpo e a roupa, ambientes de trabalho abusivos, experiências escolares que silenciam e diminuem.
“Nomear essas experiências é o primeiro passo para transformá-las.”
Também investe em liderança e autonomia econômica, apoiando especialmente jovens e pessoas queer em áreas rurais a desenvolver habilidades, encontrar sua voz e se reconhecer como protagonistas de suas próprias trajetórias. “Para muitas delas, é a primeira vez que escutam algo fundamental: você importa, sua voz importa, e você tem o poder de moldar o seu futuro.”


Por meio do Queer Giving anual, a organização vem reinventando o significado de solidariedade. “Estamos construindo uma cultura em que pessoas queer apoiam umas às outras não apenas por meio da incidência política, mas também por meio do cuidado direto, da ajuda mútua e do compartilhamento de recursos”. É uma mudança de lógica: sair da escassez e caminhar em direção ao poder coletivo. Lembrar-se de que ninguém está só e de que é possível sustentar-se umas às outras.
Na prática, isso significa reunir doações de quem pode contribuir um pouco mais e abrir as portas para que pessoas queer com menos recursos possam buscar o que precisam: roupas, sapatos, alimentos e outros itens essenciais.
E há celebração.
Como ela mesma diz, “celebrar é uma forma de sobrevivência”.
O APA (African Pride Accelerated, evento anual promovido pela WHER) Pride Celebration começou pequeno, quase íntimo, e se transformou em um grande festival vivo de identidade e pertencimento. Um orgulho que conecta diversidade e ancestralidade: roupas tradicionais, histórias contadas à luz da lua, comidas que carregam a memória de quem veio antes. “Não é apenas um evento é memória viva. Um lembrete de que sempre estiveram aqui.”
Cada centavo confiado à organização é utilizado com intenção: para criar segurança, oportunidades, cura, liderança e comunidade. Para deixar marcas reais no chão e tornar mais fácil para a próxima pessoa se erguer, respirar e viver com liberdade.
Como nas personagens de outra maravilhosa escritora nigeriana Buchi Emecheta, a força de Akudo não nasce da ausência de dor, mas da decisão de não ser definida por ela. Entre tradição e autonomia, ela escolhe escrever sua própria narrativa.
E assim, em cada vida que toca, em cada mulher que se reconhece em si mesma, Akudo prova que a coragem é mais poderosa que o medo, a verdade mais forte que o silêncio, e a liberdade de ser quem se é é o legado mais duradouro que alguém pode deixar.
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Camila Batista
Camila Batista Pinto, advogada e ativista pelos direitos das mulheres, é uma empreendedora social brasileira e COO da Migraflix, organização que promove a inclusão social e econômica de migrantes e refugiados na América Latina por meio do empreendedorismo; também preside o Conselho Consultivo da Migration Youth and Children Platform (MYCP), plataforma global oficial de participação juvenil em processos intergovernamentais e no sistema das Nações Unidas, e é conselheira da organização Palhaços Sem Fronteiras Brasil






































