Mulheres afegãs voltam para o passado

Pessoa vestindo burca passa em frente a cartazes com rostos pichados de mulheres afegãs na fachada de um salão de beleza fechado em Cabul (Foto: Haroon Sabawoon / Anadolu Agency / AFP – 20/08/2021)

Artigo: pesquisadora de finanças comportamentais e questões de gênero reflete sobre o futuro sombrio de mulheres e meninas nos centros urbanos do Afeganistão

Por Renata Almeida | ODS 5 • Publicada em 25 de agosto de 2021 - 08:58 • Atualizada em 1 de setembro de 2021 - 14:55

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Pessoa vestindo burca passa em frente a cartazes com rostos pichados de mulheres afegãs na fachada de um salão de beleza fechado em Cabul (Foto: Haroon Sabawoon / Anadolu Agency / AFP – 20/08/2021)

Após 20 anos de ocupação norte-americana e de forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), a retomada do Afeganistão pelo Talibã marca o início de um novo inferno na vida de mulheres e meninas, especialmente nos centros urbanos do país. Parte das áreas rurais sempre esteve sob o domínio do grupo fundamentalista. Portanto, o inferno já estava lá, apagando a existência delas com a morte ou em vida.

Assista ao relato da jornalista Florência Costa, que passou uma semana no Afeganistão, em 2009:

Foram 20 anos de progressos para milhões de mulheres. Esse não era um projeto norte-americano, mas foi um efeito colateral. O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, deixou bem claro em seu pronunciamento após a queda de Cabul que o objetivo dos americanos nunca foi construir uma nação melhor no Afeganistão. Pura e simplesmente, queria-se conter o avanço de células terroristas que pudessem ameaçar a segurança… em solo americano. Não dito, mas que sabemos bem, também era importante manter tropas no país afegão por influência geopolítica no Oriente Médio e sul da Ásia.

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A China se adiantou em negociações com o Talibã e sinalizou que reconhecerá o novo governo, já de olho em parcerias para explorar matéria-prima valiosa para a indústria chinesa. Recentemente foi revelada pelo Pentágono a existência de reservas minerais no país, estimadas em pelo menos US$ 1 trilhão, e ainda pouco exploradas por causa da instabilidade e dos constantes conflitos. Uma das maiores reservas de lítio do mundo agora pertence a um grupo extremista. Rússia, Irã e Paquistão fazem fila para reconhecer o novo “governo”. Nenhum desses países é grande exemplo de respeito aos direitos humanos.

Não que as forças ocidentais ocupando o território tenham respeitado a dignidade humana durante essas duas décadas. Não são poucos os relatos de abuso de poder e de uso de violência contra civis, além de associação com milícias contra o Talibã também violentas e opressoras. Para populações rurais em áreas ocupadas pelo Talibã, houve também aumento da pobreza e da miséria, uma vez que essas regiões estavam sempre sob conflito. Uma panela de pressão que favorecia o recrutamento de meninos pelo grupo extremista, inclusive pela facção Haqqani, conhecida por ser a mais brutal.

O avanço do Talibã após a saída dos americanos foi rápido. O exército afegão pouco resistiu nas últimas semanas. O presidente deixou o país no dia 15 de agosto, o domingo em que Cabul caiu. O pânico se instalou e com razão. As mulheres praticamente desapareceram das ruas da capital. A maioria aguarda seu destino em casa, outras buscam esconderijos, poucas se aventuram a escapar pelo aeroporto. O Talibã cerca o acesso ao Aeroporto Internacional Hamid Karzai revistando e identificando quem deseja fugir. Um risco muito grande para quem é alvo por ter trabalhado com as forças ocidentais, por ser ativista dos direitos humanos, para jornalistas ou, no caso das mulheres, por existirem na vida pública.

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As práticas medievais do Talibã, já vistas com horror pelo mundo 20 anos atrás, não parecem ter mudado. Por mais que o grupo faça declarações apontando moderação, esta não existe no regime. Os vídeos e relatos vindos do Afeganistão mostram que a brutalidade não diminuiu. Meninas e mulheres solteiras são sequestradas de suas casas para virarem escravas sexuais. Várias são obrigadas a se casar com membros do Talibã. Provavelmente nunca mais verão suas famílias. Buscando informações sobre os últimos meses no Afeganistão, deparei-me com um vídeo recente que circula na internet, cuja localização e data não posso verificar. Nele, homens arrancam uma jovem de uma casa na zona rural. Numa cena desesperada do que parece ser mãe e filha, elas conseguem se abraçar pela última vez antes da menina ser arrastada para longe.

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Açoitamentos são frequentes, apedrejamentos são punições comuns a supostos crimes contra a honra. Amputações de supostos ladrões fazem parte do cotidiano. Mulheres podem ter as unhas arrancadas se forem vistas com esmaltes, podem apanhar na rua se suas risadas forem ouvidas.

A liberdade da mulher é tolhida de todas as formas possíveis. Elas perdem o direito aos estudos, ao trabalho (com exceção de algumas profissionais de saúde, já que mulheres só podem ser vistas por mulheres), de saírem de casa sem a companhia de um parente homem. São obrigadas a cobrirem todo o corpo com a burca, que já existia antes do Talibã se formar nos anos 90.

Vai se consolidando novamente o apagamento das mulheres. Viram um borrado azul na paisagem. Sem rosto, sem voz, sem vida

A burca é muito menos frequente nas cidades, o que resultou num aumento explosivo dos preços da vestimenta nos últimos dias. Com medo de punições, mulheres e familiares homens correm para comprar a peça para se protegerem e protegerem suas famílias. Assim, vai se consolidando novamente o apagamento das mulheres. Viram um borrado azul na paisagem. Sem rosto, sem voz, sem vida.

Cartaz com rosto de mulher é vandalizado na fachada de um salão de beleza em Cabul
Cartaz com rosto de mulher é vandalizado na fachada de um salão de beleza em Cabul (Foto: Haroon Sabawoon / Anadolu Agency /AFP – 20/08-2021)

Nos últimos anos, o Afeganistão viu mulheres prefeitas, membros do parlamento, jornalistas, atletas, artistas, empreendedoras. Muitas agora correm contra o tempo para destruir qualquer evidência da vida passada, seja documentos, fotos, perfis em redes sociais ou objetos como chuteira de futebol e instrumentos musicais.

O porta-voz do Talibã, em coletiva de imprensa, afirmou que os direitos da mulher serão respeitados dentro da lei islâmica (Sharia). Uma fala altamente preocupante, uma vez que as mulheres nas cidades acreditam já seguir esses preceitos. Elas temem restrições e proibições a atividades absolutamente normais em muitos outros países islâmicos.

A Sharia tem várias versões, sendo que o Talibã adota a mais rígida e punitiva, além de impor regras completamente dissonantes do islã. Não há nenhuma pista ou evidência de que será um regime mais brando desta vez só porque as lideranças do grupo viajam para outros países, falam inglês, dão entrevista e estão todos conectados aos seus smartphones. Os Haqqani, cotados para terem assento no conselho do regime Talibã, atuam de forma semi-independente.

De acordo com o canal de notícias afegão, Tolo, mais de 50% dos alunos na Universidade de Herat são mulheres. Um cenário inimaginável daqui para a frente. As alunas já estão sendo barradas de acordo com reportagens de jornais internacionais. A Universidade de Cabul tem um mestrado em estudos de gênero que dificilmente continuará existindo. Âncoras mulheres de telejornais afegãos contam que estão sendo proibidas de retornar ao trabalho.

Até para escapar do regime, os homens desfrutam de privilégios

A fuga desesperada de Cabul que superlotou um avião norte-americano com afegãos mostra, em sua maioria, homens. São poucas as crianças e mulheres a bordo. Numa sociedade que nunca deixou de ser conservadora e patriarcal, eram eles que trabalhavam como tradutores e afins para os países da Otan. Até para escapar do regime, os homens desfrutam de privilégios.

Os direitos das mulheres não são prioridade no jogo geopolítico, definido historicamente por homens. São usados por conveniência, seja quando os Estados Unidos queriam justificar a permanência quase colonizadora em solo estrangeiro ou quando um grupo extremista quer aparentar moderação. Mulheres viram peça secundária num tabuleiro de interesses políticos e econômicos. Com a possiblidade de enriquecimento do Afeganistão pela exploração de minérios, resta saber se em pouco tempo o mundo reconhecerá tranquilamente um grupo fundamentalista anticivilizatório.

Renata Almeida

Jornalista e economista. Mora em Oslo, Noruega, onde é doutoranda em Finanças pela BI Norwegian Business School. Pesquisa sobre desigualdade, gênero, finanças comportamentais e investimentos. É mãe e adora viajar.

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