Uma torre de babel na França

Liceu próximo de Paris mantém aulas em 13 idiomas, inclusive o português

Por Marlene Oliveira | ods4 • Publicada em 15 de fevereiro de 2016 - 08:35 • Atualizada em 24 de fevereiro de 2016 - 13:40

Criado em 1952 para atender às 1500 famílias dos oficiais da OTAN, o Liceu é público e tem mais de 2000 alunos matriculados em suas 14 seções internacionais
Criado em 1952 para atender às 1500 famílias dos oficiais da OTAN, o Liceu é público e tem mais de 2000 alunos matriculados em suas 14 seções internacionais

Portugueses, com certeza, e brasileiros, moçambicanos, angolanos e muito mais! “Já tivemos alunos de Goa, da Lituânia, do México e até da Argentina!” Conta o Professor José Carlos Janela, diretor da seção portuguesa do Liceu Internacional de Saint Germain-en-Laye, para quem a seção deve estar aberta a todos os povos lusófonos.

Com 421 alunos inscritos, a seção portuguesa está em forte expansão. “Ter a língua portuguesa no Liceu Internacional é um prestígio e coloca o idioma em pé de igualdade com as demais línguas”, assegura. Usada por mais de 250 milhões de pessoas, este universo de falantes representa mais de 7% da superfície continental da Terra e tudo indica que em 2050, mais 100 milhões de pessoas vão se juntar ao número de falantes atuais, o que vai manter a língua portuguesa no topo de idiomas mundiais: a terceira mais falada no mundo ocidental, depois do inglês e do espanhol. E o Brasil é o que mais contribui para isso!

Criado em 1952 para atender às 1500 famílias dos oficiais da OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte, de 13 nacionalidades diferentes, que permaneceram na França no final da Segunda Guerra, o liceu, que fica a pouco mais de 20 km de Paris, é público e tem mais de 2000 alunos matriculados em suas 14 seções internacionais: alemã, inglesa, americana, holandesa, polonesa, japonesa, italiana, espanhola, dinamarquesa, norueguesa, sueca, russa, chinesa e portuguesa, é claro.

“A seção portuguesa foi criada em 1973 graças ao interesse do Governo português e de um antigo diretor do Liceu que viram uma grande oportunidade de promover e reforçar a língua portuguesa na França”, explica o professor Janela.

A França é o país onde reside o maior número de portugueses que vivem no exterior. São ao todo mais de um milhão, alguns já na terceira geração. Muitos se integram tão bem que acabam se casando com franceses, decidindo viver e criar seus filhos definitivamente na França, o que faz com que a língua e a cultura portuguesa passem a dividir o espaço com a língua e a cultura local.  Para o professor, estar presente no Liceu Internacional demonstra que a língua portuguesa é prestigiada e dentro de um liceu prestigiado –  sempre listado entre um dos melhores da França.

Portugal não pode mais ser representado pelos 3 Fs: Fátima, fado e futebol

Como liceu internacional, a língua oficial nos corredores acaba sendo o inglês ou o francês, mas os brasileiros são reconhecidos como os que mais prestigiam a sua língua. “Ao contrário de muitos alunos que bastam pôr o pé fora da aula de português para trocar de idioma, os brasileiros continuam a prosa em bom português nos corredores” constata satisfeita a professora de Literatura Carla Lourenço. Ela faz parte do grupo de 12 professores pagos pelo Governo português para manter o ensino da língua, de literatura e de história. Para ela, há uma grande necessidade de promover as artes e a literatura para as novas gerações. “Portugal não pode mais ser representado pelos 3 “F”s: Fátima, fado e futebol.  A cada ano são apresentados diferentes autores, portugueses em sua maioria, mas há sempre um autor africano ou brasileiro.  “Dos autores brasileiros, os alunos gostam muito de Capitães de Areia, do Jorge Amado”. Perguntada sobre como os alunos brasileiros encaram os autores portugueses, ela identifica uma dificuldade: “Os Lusíadas e as obras de Fernando Pessoa expressam um teor de exaltação patriótica com o qual os brasileiros não se identificam”.

Como todos os alunos seguem o ensino obrigatório francês, eles integram a mesma turma, compondo uma verdadeira classe internacional, mas é na hora “da seção” que eles se reúnem nas suas respectivas seções para as aulas de língua, literatura e de história de seu país. Ali, mesmo sob o mesmo idioma, algumas diferenças aparecem. “Os brasileiros sempre demonstravam muito orgulho do país e tinham que aceitar que a tradução seguia as regras de Portugal”, conta Marylene Artur Pires, nascida na França de pais portugueses que emigraram com 15 anos. Recém-formada em Direito, após um ano de estudo na USP, em São Paulo, Marylene conta que seus pais sempre se orgulharam de ter uma filha que falasse português. “Muitos portugueses já não praticam o idioma em casa”. Falando com um sotaque quase completamente abrasileirado, ela conta que não havia assunto tabu, embora alguns alunos brasileiros, em tom de gozação, atribuíssem à Portugal a responsabilidade por ter “estragado” o Brasil….

A colonização e a descolonização fazem parte do conteúdo de história, e não era considerado entre os alunos da seção um assunto delicado. “Falamos da independência de Angola, mas pouco”, conta Maria Alice Manuel Miranda, uma ex-aluna, angolana, que chegou na França aos 9 anos e hoje faz Direito em Bordeaux. Para ela, os angolanos têm muito carinho e são muito próximos da cultura brasileira. Conhecedora da obra de Paulo Coelho, seu autor preferido, ela constata que os laços de amizade que tem na universidade hoje não são tão fortes quanto os que fez no Liceu. “Tinha colegas portugueses e brasileiros e ficou uma nostalgia”… Opa! Nostalgia? Como assim? “É saudade né? Para mim, é a palavra mais bonita da lingua portuguesa”. Quem não concordaria?

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Marlene Oliveira

Jornalista e profissional de comunicação, vive em Paris e conhece bem a ebulição do ambiente corporativo. Acredita que a queda do império romano "é pouco" perto das transformações que a sociedade está vivendo mas, otimista até a raiz dos cabelos, acredita que dias melhores virão. Inxalá!

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