Minas registra aumento de 648% nas mortes por síndrome respiratória

Estudo de pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia alerta para sub-notificação de casos de covid-19 no estado

Por Comunica UFU | ODS 3ODS 4 • Publicada em 29 de maio de 2020 - 09:25 • Atualizada em 4 de junho de 2020 - 19:38

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Laboratório de testes para covid-19 em Minas Gerais: pesquisa da UFU indica que testagem insuficiente favorece sub-notificação de casos e mortes (Foto: Pedro Gontijo/Imprensa MG)

Diélen Borges*

Em Minas Gerais, de janeiro a abril de 2020, morreram 201 pessoas cujo atestado de óbito registra como causa a covid-19. No mesmo período, 539 pessoas faleceram no estado por síndrome respiratória aguda grave (SRAG), ou seja, com sintomas semelhantes à doença provocada pelo novo coronavírus. Em comparação com os últimos anos, foi registrado um aumento de 648,61% do número de mortes por SRAG neste ano, o que pode indicar que há sub-notificação de casos de covid-19 no estado.

Esses dados foram estudados por um grupo de cientistas da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), coordenados pelo professor Stefan Vilges de Oliveira, da Faculdade de Medicina (Famed/UFU). “Nós analisamos os óbitos que tenham causas com alguma compatibilidade clínica com covid-19 e, eventualmente, estariam sendo registrados de forma errônea; por exemplo, por indisponibilidade de diagnóstico laboratorial”, explica Oliveira.

Gráfico feito pelos pesquisadores mostra retrospectiva dos registros de óbitos, observando dados de 2017 a 2019 e comparando com os de 2020 (Reprodução)
Gráfico feito pelos pesquisadores mostra retrospectiva dos registros de óbitos, observando dados de 2017 a 2019 e comparando com os de 2020 (Reprodução)

Os pesquisadores fizeram avaliação retrospectiva dos registros de óbitos, observando dados de 2017 a 2019 e comparando com os de 2020. Foi constatado aumento na frequência de mortes por causas clinicamente semelhantes à Covid-19. O crescimento foi de 648,61% das mortes por síndrome respiratória aguda grave (SRAG), 5,36% por pneumonia e 5,72% por insuficiência respiratória (IR).

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O estudo mostrou, ainda, que o aumento desses casos antecedeu os registros oficiais da doença. Segundo a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, a primeira morte por coronavírus aconteceu em 30 de março, mas o crescimento do número de mortes por outras doenças respiratórias foi observado pelos pesquisadores da UFU já na primeira semana do mês. “Fomos atrás das séries históricas de meses anteriores e, de fato, o que observamos foi excesso no número de mortes, afirmou o pesquisador.” Segundo o professor Oliveira, é fundamental a realização dos diagnósticos precisos. “Números subestimados podem causar falsa sensação de segurança, e acarretar afrouxamento dos cuidados por parte da população”, acrescentou.

Os dados analisados pelos cientistas da UFU estão disponíveis em bases do Ministério da Saúde, como o Sistema de Informação de Mortalidade (SIM), o Sistema de Informação de Agravo de Notificação (Sinan) e a plataforma Infogripe, gerenciada pela Fiocruz. Eles também colheram informações sobre óbitos no Portal de Transparência do Registro Civil.  “Nossos resultados demonstram que as diferentes fontes oficiais apresentaram uma discrepância de 209,23% entre os dados referentes ao mesmo período”, alertam os pesquisadores no estudo.

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O relato do estudo foi divulgado neste domingo (24/05), no MedRxiv, que é um servidor de pré-impressões de artigos na área de ciências da saúde, fundado pelo Cold Spring Harbor Laboratory (CSHL), uma instituição educacional e de pesquisa sem fins lucrativos, pela Universidade de Yale e pelo BMJ, um fornecedor global de conhecimento em saúde. “A sub-notificação das mortes por COVID-19 no estado de Minas Gerais (MG), onde está concentrada a segunda maior população do país, revela despreparo do governo, uma vez que existe uma baixa capacidade de testes na população, o que impede o entendimento real dos o panorama geral da disseminação de Sars-Cov-2”, afirmam os pesquisadores

Além do professor Oliveira, assinam o artigo os orientandos Thiago Henrique Evangelista Alves, Tafarel Andrade de Souza, Samyla de Almeida Silva e Nayani Alves Ramos, todos vinculados à UFU.  Os pesquisadores ressaltam ainda que os diferentes sistemas de registro de óbitos do governo, como municípios e estados, não estão totalmente conectados. “Vários deles dependem do trabalho manual para serem registrados. Isso é capaz de causar discrepâncias e atrasos no tráfego de dados e, conseqüentemente, na produção de informações oportunas e confiáveis”, alertam.

Para os pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia, o país está muito abaixo do número ideal de testes para covid-19. Não há testes suficientes para ter um panorama confiável do número real de casos e mortes. Esse cenário leva o Brasil a adiar a contabilização dos registros da covid-19″, destacam, no artigo. “Em conclusão, nossos resultados revelam que as mortes por COVID-19 no estado de Minas Gerais são superiores às estatísticas oficiais apresentadas. Em vista desses aspectos, é necessário ampliar a capacidade diagnóstica do Brasil, o que nos permitirá reconhecer o número real de óbitos e casos de COVID-19 em Minas Gerais”.

*Comunica UFU

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