ODS 1
Cursos sobre saberes tradicionais transformam educação em institutos federais


Formações de extensão fazem parte da Escola Nacional Nego Bispo. Iniciativa pretende valorizar mestres e mestras de saberes


“A minha faculdade é a faculdade da vida. O que eu aprendi foi com a minha avó, com minha mãe de santo, com os meus mais velhos”. O depoimento de Maria Isabel Vitorino, 75 anos, sintetiza um modo particular de aprendizado, baseado na oralidade, na escuta e na experiência. Mãe Isabel de Oyá, como é mais conhecida, nasceu em Cataguases (MG), mas mora em Belford Roxo (RJ) há mais de 40 anos, onde dedica sua vida ao Ilê Õmim Lorê. Mesmo em uma conversa on-line, em poucos minutos é possível perceber a extensão de suas vivências e saberes.
Desde fevereiro, a mestra tradicional é professora do curso “Diálogos Afrodiaspóricos: memórias e oralidades dos terreiros da Baixada Fluminense”. A iniciativa é do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) – Campus Belford Roxo, e faz parte das propostas contempladas no Programa Nacional Escola Nego Bispo.
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Veja o que já enviamos“Nós que não fizemos academia, às vezes temos dificuldade no letrado, mas (a oralidade) é nosso notório saber, é a minha condição de passar o que aprendi. É nisso que a faculdade também está nos ajudando, quando une a fala do mestre e do professor”, destaca Mãe Isabel de Oyá.
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O “Diálogos Afrodiaspóricos” nasceu a partir de um trabalho realizado pelo Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi) do IFRJ, coordenado pelo professor Frederico Mendes. Doutor em Comunicação, ele estuda a presença do corpo negro na Baixada Fluminense e questões como traumas raciais e intolerância religiosa.
Parte das aulas do curso acontece de forma on-line com a participação de diversos mestres e mestras de saberes. O restante dos encontros é dividido entre o campus do instituto, terreiros e centros culturais. Um dos lugares visitados foi a Pequena África, espaço de resistência ancestral da população negra no Rio de Janeiro.
“Ela (Mãe Isabel) concebeu a proposta e o meu papel foi o de ajudar a refinar e fazer as conexões que eram necessárias para viabilizar, mas o que queremos é ampliar a ideia de terreiro, de imersão e de aquilombamento”, explica Frederico, sobre os objetivos do curso.


Contexto e intolerância religiosa
Com cerca de 480 mil habitantes, Belford Roxo é um território com população majoritariamente negra e historicamente ocupado por muitos quilombos e terreiros. Contudo, nos últimos anos e na esteira do avanço das igrejas neopentecostais, o município também registra um aumento do preconceito contra as religiões de matriz afro-brasileira.
Frederico conta que esse contexto se tornou ainda mais adverso por conta da ligação entre as religiões evangélicas e o narcotráfico. “Nós já passamos da esfera da violência e estamos na esfera do terror. Por exemplo, tem casas em que as pessoas são proibidas de continuar, porque o crime organizado manda sair”.
Mesmo no Campus do IFRJ, o professor menciona perceber olhares de estranhamento com a proposta. Por outro lado, alguns dos participantes são de religiões cristãs e evangélicos.
O curso tem 25 alunos bolsistas, mas os encontros costumam reunir entre 40 a 50 pessoas, número que varia por conta das dificuldades no deslocamento urbano em Belford Roxo.
“Assim como as nossas religiões afrodiaspóricas, o curso também é muito sobre vivência. Nêgo Bispo mesmo vem dessa caminhada, então permite nos reconectar com essas histórias”, descreve Vinícius Paes, estudante de produção de moda no IFRJ e um dos participantes das formações.


Potência e futuro
Como uma forma de resistência e de resgate da cultura afro-brasileira em Belford Roxo, Mãe Isabel de Oyá foi uma das responsáveis pela fundação da Associação Cultural e Recreativa Afoxé Raízes Africanas, nascida na quadra da escola de samba Império Serrano.
Desde 2002, o local serve como um ponto de cultura e também oferece oficinas de capacitação para jovens, adultos e pessoas idosas, além de rodas de conversas. Entre os temas trabalhados nas oficinas estão percussão, dança, costura, tingimento de tecido e gastronomia africana.
Para Mãe Isabel, a parceria com o IFRJ é uma forma de potencializar o trabalho comunitário do Afoxé. O desejo principal da mestra candomblecista é de que o projeto tenha continuidade, inclusive, como uma forma de quebrar estigmas associados com as religiões afro-brasileiras.
A Escola Nacional Nêgo Bispo é fundamental para a construção de uma educação voltada para as relações étnico-raciais no Brasil
“Não estamos por um acaso, estamos pelos nossos mais novos, temos que pensar no futuro. Eu acredito muito que, principalmente dentro do IF, os outros alunos vão passar a ter um outro olhar”, comenta Mãe Isabel. Ela também vê com otimismo os cursos por abrir a possibilidade para que professores conheçam as temáticas afro de forma mais aberta e aprofundada.
Também membro do Afoxé, Vinícius exalta a confluência entre diferentes matizes do candomblé durante os encontros. “É muito enriquecedor ter contato com a nossa cultura. O candomblé não é uma religião homogênea, então, o curso permite conhecer a verdade do outro sem alterar a nossa, isso diz muito sobre respeito ao próximo”.
O cronograma do curso de extensão segue até o dia 1° de abril, quando o encerramento será realizado no IFRJ. Segundo Frederico, o movimento de extensão é parte de um esforço de conscientização antirracista. No futuro, a ideia é expandir o projeto para as redes municipal e estadual.
“Entendemos que estamos lidando com um conjunto de saberes que está no limite desse novo tempo que vivemos. Para nós é sempre começo, meio começo, como diria Nego Bispo. Estamos aqui para dar à terra aquilo que a terra pede. Curar a terra e ouvir os mundos que nela habitam”, complementa o professor do IFRJ.
Educação quilombola na Chapada Diamantina
Além do “Diálogos Afrodiaspóricos”, a Escola Nego Bispo conta com diversas outras iniciativas espalhadas pela rede de institutos federais. No município de Seabra (BA), um dos projetos atua com saberes tradicionais quilombolas da Chapada Diamantina, vinculado ao Instituto Federal da Bahia (IFBA).
A iniciativa foi proposta pela professora Ana Paula Batista da Silva Cruz. Nascida na comunidade quilombola de Santiago do Iguape, no recôncavo baiano, ela têm sua trajetória como mulher negra e pesquisadora em estreita relação com o Rio Paraguaçu, que nasce na Chapada Diamantina.
A partir do interesse em se aproximar das comunidades quilombolas de Seabra, Ana Paula idealizou o curso “Contracolonizando o projeto político-pedagógico: caminhos para a efetivação da educação escolar quilombola na Chapada Diamantina”.
As formações estão previstas para iniciar neste mês de março, com a atuação de duas mestras – Isabela Conceição e Niraci Almeida, lideranças da comunidade quilombola Escôncio, sobreposta ao município de Iraquara (BA). A iniciativa visa formar professores da rede municipal capazes de incluir saberes dos territórios nos instrumentos curriculares e documentos institucionais das escolas.
Ana Paula ressalta a importância de valorizar as intelectualidades ancestrais das populações quilombolas e que foram historicamente invisibilizadas. “A Escola Nacional Nêgo Bispo é fundamental para a construção de uma educação voltada para as relações étnico-raciais no Brasil”, enfatiza.


Saberes indígenas potiguara
Professor do Instituto Federal da Paraíba (IFPB) em Cabedelo, Ynakam Luis de Vasconcelos Leal descreve a ligação da instituição com a extensão e as comunidades ribeirinhas e indígenas. Foi dessa intersecção que surgiu o curso de extensão “Adornos da terra: saberes potiguara entrelaçados à educação escolar indígena”.
A proposta inclui a participação de professores indígenas, também lideranças e mestres em seus territórios. A ideia é realizar rodadas de diálogo com ênfase no artesanato tradicional. Os primeiros encontros estão previstos para iniciar no final março e, ao final, o projeto pretende produzir uma cartilha indígena sobre o tema.
Segundo Ynakam, o objetivo é que a cartilha seja utilizada em salas de aula do ensino fundamental e traga elementos da realidade local do litoral norte da Paraíba. “Estamos trazendo efetivamente e significativamente a academia para o território, sem diminuir o conhecimento da população local”, pontua.
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Micael Olegário
Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestrando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.








































