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UFSC desenvolve prótese de voz

Pesquisadores trabalham em válvula para capacitar pacientes que tiveram laringe retirada possam falar de maneira quase normal em volume e intensidade


Coral em Santa Catarina feito por pessoas que usam aparelho conhecido como “laringe eletrônica” : pesquisa desenvolve válvula que poderá fazer voz sair mais natural (Foto: Divultação/UFSC)
Coral em Santa Catarina feito por pessoas que usam aparelho conhecido como “laringe eletrônica” : pesquisa desenvolve válvula que poderá fazer voz sair mais natural (Foto: Divultação/UFSC)

O Laboratório de Vibrações e Acústica, do Departamento de Engenharia Mecânica (EMC) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), desenvolve a pesquisa “Desenvolvimento de Prótese de Voz Tráqueo-Esofágica para Pacientes Laringectomizados”. Disponibilizar um modelo nacional por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) é uma das metas que movem os pesquisadores do LVA. “Nossa pesquisa tem grande apelo social porque viabilizaria uma prótese de voz para uma parcela enorme da população”, diz o professor Andrey Ricardo da Silva, cuja equipe trabalha em cooperação com o Centro de Pesquisas Oncológicas de Santa Catarina (Cepon).

Alguns pacientes compram ou recebem do SUS um aparelho conhecido como “laringe eletrônica” ou conseguem articular palavras com o auxílio do esôfago (voz esofágica). Contudo, em ambos os casos, a voz sai bastante alterada em relação à natural, inclusive meio robótica.  Já a prótese de voz é um tipo de válvula que permite a produção de som semelhante à voz de um falante saudável com rouquidão moderada, porém quase normal em termos de volume e intensidade. O benefício é tamanho que já há um coral de laringectomizados em Florianópolis.

Leia todas as reportagens da série #100diasdebalbúrdiafederal

O legal da pesquisa é poder ajudar pessoas laringectomizadas que precisam de ajuda. A maioria fala com dificuldades, porque, mesmo com a laringe eletrônica, a pessoa precisa aprender certos macetes.

André Miazaki da Costa Tourinho
Pesquisador do Laboratório de Vibrações e Acústica, da UFSC

O Instituto Nacional de Câncer estima que quase 8 mil pessoas descubram ter câncer de laringe no Brasil, a cada ano. Se diagnosticado tardiamente – algo comum no país -, 80% dos casos exigem a retirada total da laringe (laringectomia total). Ainda que necessário, o procedimento implica na perda da capacidade de falar dos pacientes.

O interesse pelos únicos modelos de prótese disponíveis no Brasil, importados dos Estados Unidos ou da Suécia por aproximadamente R$ 2.400, tem crescido. O custo se torna ainda mais elevado diante da necessidade de trocar as válvulas a cada seis meses.

Além de dominar a tecnologia de fabricação – com auxílio de impressora 3D – os pesquisadores estão adaptando os modelos das válvulas importadas para melhor adequação aos laringectomizados brasileiros. Esse não é o único desafio: as características fisiológicas divergem muito de paciente para paciente, e até mudam de um dia para o outro quando a pessoa está fazendo radioterapia, procedimento de praxe no tipo de câncer em questão. Por isso, mais de 10 protótipos foram testados e o modelo ideal será patenteado para oficializar a detenção da tecnologia EM SC em termos de próteses de voz.

Só existem três formas de reabilitar a fonação dos pacientes que perderam a laringe: laringe eletrônica, prótese tráqueo-esofágica e voz esofágica, com treino fonoaudiológico. A prótese é a mais eficiente em qualidade vocal, mas ainda não é padronizada pelo SUS. A possibilidade de termos uma prótese nacional, ampliaria a possibilidade de padronização dessa alternativa. E a absoluta maioria dos pacientes laringectomizados poderá recebê-la


Luiz Medina Santos
Secretário da Comissão Estadual de Residência Médica de Santa Catarina.

Coral de sobreviventes do câncer

Médicos creem que a forma mais efetiva para restabelecer a voz em pacientes cuja laringe foi totalmente retirada seja a prótese tráqueo-esofágica, como a que está em desenvolvimento no LVA. Enquanto aguardam a conclusão da pesquisa, eles e outros profissionais da saúde estimulam os laringectomizados a buscar alternativas e até participar de um coral. Mas… é possível cantar sem laringe? Sim, inclusive com a laringe eletrônica, amplificador movido a bateria ou pilha que emite uma vibração sonora e a transmite ao ressonador buconasofaríngeo para formar uma “pseudovoz”, por sua vez transformada em palavra falada pelos órgãos articuladores, lábios, língua e dentes. Mesmo produzindo vozes metálicas, o aparelho é o que tem permitido aos pacientes com sequelas do câncer de laringe em Santa Catarina driblar a incomunicabilidade e cantarolar.

Desde 2016, Cantarolar é o nome de um projeto de musicoterapia como forma de inclusão social e reabilitação voltado a treinar a capacidade respiratória e pulmonar de laringectomizados totais. Esse projeto surgiu no Grupo de Acolhimento a Pacientes de Câncer de Boca e Garganta (GAL) do Cepon, em parceria com a Fundação Catarinense de Cultura e Associação Câncer de Boca e Garganta.

Uma vez ao mês, geralmente às quartas-feiras, o grupo se reúne para ensaiar no anfiteatro do Cepon para cantar e fazer exercícios de forma lúdica e terapêutica a fim de formar uma nova voz, segundo a fonoaudióloga Luanda Barbosa dos Santos, especialista em Saúde com ênfase em Alta Complexidade do Hospital Universitário da UFSC. O coral já fez exibições dentro e fora da instituição.

Também do Cepon é o médico Luiz Medina Santos, que faz a conexão entre a prática clínica e os estudos acústicos conduzidos pelo LVA. Desenvolver a patente de uma prótese tráqueo-esofágica nova que possibilite sua adequação de acordo com as características fisiológicas de cada paciente é “importante pelo trabalho de investigação científica no âmbito mecânico e pela possibilidade de melhora nos custos da prótese, pois a única disponível no Brasil, importada, custa caro”, diz o cirurgião de cabeça e pescoço.

Ele também considera a válvula o melhor modo de reabilitação. “Só existem três formas de reabilitar a fonação dos pacientes que perderam a laringe: laringe eletrônica, prótese tráqueo-esofágica e voz esofágica, com treino fonoaudiológico. A prótese é a mais eficiente em qualidade vocal, mas ainda não é padronizada pelo SUS. A possibilidade de termos uma prótese nacional, ampliaria a possibilidade de padronização dessa alternativa. E a absoluta maioria dos pacientes laringectomizados poderá recebê-la”, conclui Medina, primeiro supervisor do Programa de Residência Médica em Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Cepon, em 2011, e atualmente preceptor da Residência Médica e secretário da Comissão Estadual de Residência Médica de Santa Catarina.

O pesquisador e professor Andrey Ricardo da Silva, no laboratório da UFSC: “Nossa pesquisa tem grande apelo social porque viabilizaria uma prótese de voz para uma parcela enorme da população” (Foto: Divulgação/UFSC)
O pesquisador e professor Andrey Ricardo da Silva, no laboratório da UFSC: “Nossa pesquisa tem grande apelo social porque viabilizaria uma prótese de voz para uma parcela enorme da população” (Foto: Divulgação/UFSC)

Cortes ameaçam pesquisa

A prótese de voz 100% brasileira já poderia estar pronta se os aportes prometidos pelo governo federal tivessem sido feitos. E com os recentes cortes, sua fabricação pode atrasar ainda mais. O laboratório conta com trabalho voluntário.

Tudo começou em 2015, quando o projeto Desenvolvimento de uma Prótese de Voz foi selecionado para receber R$ 2 milhões da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Nunca veio a parte desse total que garantiria bolsas para contratação de 2 pesquisadores e 2 doutorandos por 2 anos, aproximadamente R$400 mil. O jeito foi redimensionar a equipe e submeter novo projeto ao CNPq. Assim foram obtidos R$60 mil para 3 bolsas – nenhuma de doutorado –, porém elas não são suficientes para a conclusão do projeto. A do engenheiro Fernando Tanaka Santos terminou em março. “Resolvi ficar um tempo a mais como voluntário porque agrega experiência”, disse Fernando, que veio do Paraná atraído pelo mestrado em Engenharia Mecânica da UFSC.

A possibilidade de perder a bolsa de Iniciação Científica obtida em fevereiro preocupa a aluna Bárbara Rech, da graduação em Engenharia Mecânica. A despeito da instabilidade orçamentária do CNPq, ela segue dedicando 20 horas semanais à pesquisa sobre a Prótese de Voz e já produziu 12 protótipos a partir de vários moldes feitos em polímeros.

A impressão de uma única peça leva até 15h. Como se fosse pouco, são necessários dois dias que a secagem completa do silicone injetado no molde. Parte do processo está a cargo do engenheiro André Miazaki da Costa Tourinho, que veio de Brasília e conseguiu bolsa de doutorado em 2018 para trabalhar com modelagem numérica e bancadas experimentais no LVA. “O legal da pesquisa é poder ajudar pessoas laringectomizadas que precisam de ajuda”, ressalta. Algumas não falam nada e recorrem à escrita para ser entendidas. “A maioria fala com dificuldades, porque mesmo com a laringe eletrônica a pessoa precisa aprender certos macetes. Às vezes as pessoas entram na Justiça para que o SUS pague uma parte da prótese importada, e mesmo conseguindo, acabam tentando usar a prótese por mais tempo que o recomendado. É difícil para todo mundo,” salienta.


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