Diário da Covid-19: Semestre foi marcado pelos 4 Ds de Doença, Desemprego, Déficit e Dívida

Em meio à pandemia, indígenas Yanomami se reúnem no 5º Pelotão da Fronteira Especial em Auari, no estado de Roraima. Foto Nelson Almeida/AFP

A dramática evolução da pandemia no Brasil e no mundo nos primeiros seis meses do ano

Por José Eustáquio Diniz Alves | ODS 3 • Publicada em 2 de julho de 2020 - 08:33 • Atualizada em 2 de julho de 2020 - 10:28

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Em meio à pandemia, indígenas Yanomami se reúnem no 5º Pelotão da Fronteira Especial em Auari, no estado de Roraima. Foto Nelson Almeida/AFP

O réveillon de 2020 começou, como sempre, com muitas festas e fogos de artifícios. Por todos os cantos, foram inúmeros votos de feliz ano novo. Porém, ninguém poderia imaginar que o primeiro semestre de 2020 seria marcado por uma pandemia só equivalente à da Gripe Espanhola de 102 anos atrás. Os planos individuais e coletivos de trabalho, estudo e laser foram interrompidos e substituídos pela quarentena e o isolamento social.

No início do ano, o mundo tomou conhecimento de uma nova doença que surgiu na China, provocada por um novo tipo de coronavírus. Mas ninguém poderia imaginar a dimensão do problema e o que estava por vir. Em janeiro, uma equipe de médicos chineses foi encarregada de investigar o início de uma doença conhecida como “pneumonia de Wuhan”. Em 24 de janeiro publicaram um relatório na revista The Lancet, identificando um primeiro paciente que apresentou sintomas no último mês do ano anterior. A doença foi batizada de COVID, que significa COrona VIrus Disease (Doença do Coronavírus). Como os primeiros casos aconteceram em 2019, então ficou Covid-19.

No dia 29 de fevereiro de 2020 o mundo registrou 86,6 mil casos e 3 mil mortes, sendo que a China concentrava 80 mil casos (92% do total) e 2,9 mil mortes (96% do total). Do país asiático, o coronavírus se espalhou para o mundo. Entre março e abril a Europa e os Estados Unidos (EUA) passaram a concentrar a maior parte das mortes diárias provocadas pela covid-19, mas a partir do mês de maio o destaque coube à América Latina, conforme mostra a figura abaixo, do jornal Financial Times, que apresenta a média móvel de 7 dias do número diário de mortes no mundo.

A forma da figura reflete o fato de que o número médio de mortes diárias no mundo era de 393 óbitos entre 15 e 21 de março, passou para 7,5 mil morte diárias em meados de abril, caiu para 3,8 mil no final de maio e voltou a subir para 4,5 mil na semana de 23 a 29 de junho.

A Europa e os EUA respondiam por apenas 6% das mortes diárias em 29 de fevereiro, mas deram um salto para cerca de 80% em meados de março e para 90% na primeira quinzena de abril. Mas ambos passaram a ter uma menor participação nos meses seguintes. Na semana de 23 a 29 de junho a Europa respondia por 10% e os EUA por 12% das mortes diárias.

O grande destaque nos meses de maio e junho foi a América Latina que passou a concentrar mais da metade dos óbitos diários no mês de junho. Entre os dias 23 e 29 de junho, a média diária de mortes foi de 4.505 no mundo e de 2.337 mortes na América Latina (52% do total global). Brasil, México, Peru e Chile foram os países que tiveram o maior número de mortes diárias na América Latina. Outros países que estão apresentando números crescentes são a Índia, Paquistão e Bangladesh na Ásia, África do Sul, Egito e Nigéria na África e vários países do Oriente Médio.

O panorama nacional

O Ministério da Saúde informou, no último dia do primeiro semestre (30/06), que o país chegou a 1.402.041 casos e 59.594 vidas perdidas, com uma taxa de letalidade de 4,3%. Foram 33.846 novos casos e 1.280 mortes em 24 horas.

Para avaliar o ritmo da expansão da pandemia no território nacional, o gráfico abaixo mostra a evolução do número de casos da covid-19 no Brasil por quinzena nos últimos 4 meses. No dia 01 de março havia apenas 2 pessoas infectadas pela covid-19 no Brasil e passou para 200 pessoas em 15 de março, foram 198 novos casos, mas isto representou um crescimento relativo de 35,9% ao dia. Enquanto crescia os números absolutos ia diminuindo os números relativos. No dia 01 de junho havia 526,4 mil casos e passou para 888,3 mil no dia 15 de junho, um aumento absoluto de 373 mil casos (3,7% ao dia). No dia 30 de junho o número de casos chegou a 1,4 milhão, com um aumento na quinzena de 513,8 mil casos (3,1% ao dia). Portanto, o Brasil ainda não ultrapassou o pico da curva epidemiológica de casos.

O gráfico abaixo mostra a evolução do número de vidas perdidas nas sucessivas quinzenas, a partir de 17 de março quando houve a primeira morte no Brasil. Na quinzena de 16 a 31 de março aconteceram 201 mortes com um crescimento diário de 46,1% ao dia. Na primeira quinzena de abril o aumento absoluto foi de 1.535 mortes (ou 15,5% ao dia). Nas quinzenas seguintes os números absolutos cresceram enquanto os números relativos diminuíram. Na primeira quinzena de junho houve um acréscimo absoluto de 14,6 mil mortes (ou 2,7% ao dia), número pouco acima da quinzena anterior. Mas na segunda quinzena de junho o acréscimo do número de mortes passou para 15,6 mil óbitos, recorde das 7 quinzenas, o que mostra que não se ultrapassou o pico da curva epidemiológica das mortes no país.

Como mostrou Oscar Valporto, ontem, aqui no #Colabora: “Junho foi o mês em que grande parte do Brasil começou a afrouxar as medidas de isolamento social e outras restrições estabelecidas por estados e municípios para tentar evitar a disseminação da covid-19 – já que o governo federal optou por evitar qualquer providência mais firme contra a doença. Mas junho também foi o mês que o maior registro de casos e de mortes pela covid-19”. Só acrescentando que a segunda quinzena de junho foi pior do que a primeira. Segundo o Ministério da Saúde, o primeiro dia do segundo semestre começou com números maiúsculos: 46.712 casos e 1.038 mortes em 24 horas.

O panorama global

O primeiro semestre de 2020 terminou com o registro oficial de mais de 10 milhões de pessoas infectadas pelo novo coronavírus e mais de 500 mil mortes (fora todas as subnotificações). E o crescimento do número de casos continua aumentando, como mostra o gráfico abaixo. No dia 29 de fevereiro havia 86,6 mil pessoas infectadas (como visto, a grande maioria na China), mas o Sars-CoV-2 se espalhou pelo mundo e passou para 170 mil casos em 15/03, um aumento absoluto de 83 mil pessoas infectadas em 15 dias (um aumento relativo de 4,6% ao dia). O número absoluto continuou aumentando, embora com uma velocidade menor (devido às medidas de isolamento social que reduzem o contágio e a transmissão comunitária).

O fato é que o mundo chegou a 6,3 milhões de pessoas infectadas em 31 de maio e passou para 8,1 milhões em 15 de junho e 10,6 milhões em 30 de junho. Ou seja, na primeira quinzena de junho houve um acréscimo absoluto de 1,9 milhões de casos (1,8% ao dia) e na segunda quinzena houve um aumento de 2,4 milhões de casos (1,8% ao dia). Portanto, a pandemia continua avançando no mundo e não se vê o pico da curva epidemiológica no curto prazo.

O número de vítimas fatais pela covid-19 no mundo chegou a 3 mil óbitos em 29 de fevereiro e passou para 6,5 mil óbitos em 15 de março. Houve um aumento absoluto de 3,5 mil óbitos na primeira quinzena de março, representando um aumento relativo de 5,3% ao dia, conforme mostra o gráfico abaixo. O número absoluto de mortes aumentou até a 1ª quinzena de abril, quando teve um aumento absoluto de 96,2 mil mortes (7,2% ao dia). Tudo indica que o período de 01/04 a 15/04 foi o pico da curva epidemiológica das mortes. Nas quinzenas seguintes o número absoluto caiu até 64,6 mil óbitos entre 01/06 a 15/06, mas o número absoluto voltou a subir na 2ª quinzena de junho, quando o mundo registrou 70,7 mil mortes. Portanto, o pico global das mortes ocorreu na 1ª quinzena de abril, mas o aumento recente preocupa.

O exemplo do Irã serve de alerta, pois depois de um pico no início de abril, o país Persa passou por uma segunda onda e teve um segundo pico dos casos ainda mais elevado do que o primeiro no início de junho. Agora, no final do primeiro semestre, teve também um segundo pico de mortes, assim como o outro, também mais elevado do que o primeiro.

Outro país que passa por um repique da pandemia são os EUA que tiveram um primeiro pico do número de casos no início de abril, apresentou um declínio significativo até o final de maio, mas está experimentando uma segunda onda em junho que já formou um pico mais elevado do que o primeiro. Já existem indícios de um leve aumento do número de mortes nos últimos dias. O aumento acontece exatamente naqueles estados que flexibilizaram a quarentena e reduziram as restrições à interação social (a pandemia cresce mais rápido nos estados governados pelo Partido Republicano).

Comparação entre o Brasil e o mundo

Todos os dados acima mostram que o número de casos continua avançando no Brasil e no mundo. O gráfico abaixo mostra que o Brasil estava desacelerando em relação ao mundo até a 1ª quinzena de abril e, nas duas quinzenas seguintes, a queda relativa do Brasil foi menor do que a queda da média global. Em consequência, o Brasil avançou em uma velocidade maior. Mas a partir da 2ª quinzena de maio a diferença entre o ritmo do Brasil e do mundo diminuiu. Mesmo assim, o aumento do número de casos cresce a um ritmo 70% maior no Brasil do que no mundo.

Da mesma forma, o gráfico abaixo apresenta as taxas médias de crescimento diário relativo das vítimas fatais da covid-19 no Brasil e no mundo. Nota-se que a diferença no ritmo de crescimento das mortes diminuiu na 2ª quinzena de março, mas voltou a subir nas quinzenas seguintes e, novamente, caiu na 1ª quinzena de junho. Mesmo assim, o ritmo do aumento das mortes continua 2 vezes mais rápido no Brasil do que na média mundial.

O primeiro semestre de 2020 vai passar para a história como um período marcado pela emergência sanitária provocada pela pandemia do novo coronavírus, conhecido como Sars-CoV-2. No início do ano, ninguém imaginava que a covid-19 tivesse um impacto tão grande na vida das pessoas e na paralisação da economia. Em meados de abril parecia que – apesar de todos os danos da doença – o fim da pandemia já estava visível no horizonte de curto prazo. Nesta época, um modelo matemático de previsão da Universidade de Singapura estimou que 99% dos casos do novo coronavírus aconteceriam até o dia 16 de junho de 2020, sendo que somente 1% das novas infecções aconteceriam após esta data, pois a pandemia estaria erradicada em julho.

Como disse Millôr Fernandes: “o otimista é um pessimista mal informado”. Na realidade, a pandemia chegou no mês de julho sem apresentar sinais de arrefecimento. O número de novos casos aumentou na média diária de 80 mil casos em abril, passou para 95 mil casos em maio e chegou a 145 mil casos em junho.  O número médio de vidas perdidas diariamente estava em torno de 6.300 óbitos em abril, caiu para 4.500 óbitos em maio, mas subiu para 4.750 óbitos em junho. O dia 1º de julho começou com o recorde de 196 mil casos, sendo 50 mil nos EUA e 47 mil no Brasil. O número de mortes globais foi de cerca de 5 mil, sendo mais de 1.000 somente no Brasil (líder do triste ranking global de mortes diárias).

Portanto, o segundo semestre de 2020 começa com números alarmantes. Como o mundo nem chegou ainda no pico do número de casos, é bem provável que o número de pessoas infectadas pela covid-19 seja muito maior nos próximos seis meses. Um dos erros do modelo de previsão da Universidade de Singapura foi, exatamente, considerar que os dois lados da curva normal (antes e depois do pico) seriam simétricos. Na verdade, a experiência dos países que controlaram a pandemia mostra que existe uma assimetria na curva epidemiológica, sendo que o lado direito é, geralmente, 2 ou 3 vezes maior do que o lado esquerdo.

O infectologista Anthony Fauci, consultor médico da Casa Branca, alertou nesta semana que os Estados Unidos podem ter 100 mil novos casos de coronavírus diariamente, se não forem tomadas medidas para interromper a pandemia. A América Latina já é o atual epicentro da pandemia global. O sul da Ásia e a África podem se tornar novos epicentros da doença.

Números muito expressivos ainda podem acontecer no Brasil que vê a epidemia se espraiar para as pequenas cidades e se dirigir do leste para o oeste, enquanto aumenta o cansaço da população e as pressões para a retomada dos velhos padrões da economia, que, por sua vez, já vive a maior recessão da história brasileira. O primeiro semestre de 2020 foi marcado por 4 Ds: Doença, Desemprego, Déficit e Dívida. Para mudar esta sina, governo e sociedade civil precisam se unir. Só com muita ação e determinação será possível reverter esta situação no segundo semestre. Talvez ainda se possa comemorar o réveillon de 2021.

Frase do dia 02 de julho de 2020

“O ser humano não tem poder sobre nada enquanto tem medo da morte. E quem não tem medo da morte possui tudo”

Leon Tolstói (1828-1910)

Escritor Russo

Referências:

Financial Times. Coronavirus tracked: the latest figures as countries start to reopen. The FT analyses the scale of outbreaks and the number of deaths around the world

https://www.ft.com/content/a26fbf7e-48f8-11ea-aeb3-955839e06441

Oscar Valporto. Diário da Covid-19: Brasil encerra junho com recorde e pandemia acelera marcha para o oeste, #Colabora, 1 de julho de 2020

https://projetocolabora.com.br/ods3/diario-da-covid-19-junho-acaba-com-recorde-e-pandemia-marca-para-o-oeste/

José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves, sociólogo, mestre em economia e doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pós-doutorado no Núcleo de Estudos de População – NEPO/UNICAMP. É professor e pesquisador independente. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

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