Diário da Covid-19: Rio de Janeiro já responde por 18% das mortes no país

Ritmo de crescimento da pandemia supera a média nacional e estado pode se transformar no novo epicentro da doença

Por José Eustáquio Diniz Alves | ODS 3 • Publicada em 30 de maio de 2020 - 08:57 • Atualizada em 30 de maio de 2020 - 09:06

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Um coveiro vestindo roupas de proteção trabalha no cemitério do Caju. Foto Carl de Souza/AFP

A pandemia do novo coronavírus avança no Brasil acima do ritmo global, mas, internamente, nos diversos espaços do território nacional a aceleração da propagação da doença ocorre em velocidades diferenciadas. Os dois maiores estados brasileiros – São Paulo e Minas Gerais – crescem abaixo da média nacional e o Rio de Janeiro (terceiro estado em termos demográficos) cresce acima da média nacional.

No mundo, neste final de maio, ocorre uma situação inusitada, pois o número de novos casos que vinha caindo depois de um pico ocorrido no dia 24 de abril (com 102 mil novos casos), voltou a subir e bateu um recorde ontem (dia 29/05) com 126 mil novos casos. Além dos EUA, Brasil e Rússia, os novos destaques internacionais são Índia, Peru, México, Paquistão e Bangladesh. O número de novos casos cresce continuamente, embora com oscilações, e ontem foi atingida a marca histórica de 6 milhões de pessoas infectadas pelo coronavírus.

Porém, o pico dos óbitos diários continua sendo aquele com 8,4 mil falecimentos ocorrido no dia 17 de abril, já que os números continuam caindo e estão, atualmente, abaixo de 5 mil vidas perdidas em 24 horas. Neste aspecto o Brasil se destacou nesta semana ultrapassando o número de falecimentos da Espanha e o estado do Rio de Janeiro ultrapassou o número acumulado de óbitos da China, no dia 28 de maio.

Depois de dois meses e meio de quarentena, as pessoas estão ansiosas para saber quando vamos chegar ao pico da curva normal e quando os números vão começar a cair no Brasil. Evidentemente, é difícil responder com precisão. Mas a análise dos dados e das séries históricas ajuda a revelar as tendências e, num país tão heterogêneo como o nosso, apontar onde há melhores perspectivas e onde os desafios são maiores é fundamental.

O jovem Alexandre Schleier conversa com sua avó Olívia Schleier, de 81 anos, através da janela do Premier Hospital, em São Paulo. Foto Nelson Almeida/AFP
O jovem Alexandre Schleier conversa com sua avó Olívia Schleier, de 81 anos, através da janela do Premier Hospital, em São Paulo. Foto Nelson Almeida/AFP

O panorama nacional

O Ministério da Saúde informou, no início da noite de sexta-feira (29/05), que o país atingiu 465.166 casos e 27.878 óbitos pela covid-19, com uma taxa de letalidade de 6%. O número diário de pessoas infectadas foi de 27.878, recorde absoluto, e o número diário de vítimas fatais foi de 1.124 pessoas. Com estes números elevados o Brasil está revezando o primeiro lugar nas variações diárias com os Estados Unidos. E embora tenha 2,7% da população global o Brasil respondeu por 23% dos casos e dos óbitos internacionais no dia 29/05.

Os gráficos abaixo mostram os valores diários dos registros oficiais de casos e óbitos no Brasil de 01 março até o dia 29 de maio. Como existem variações sazonais, utilizamos um modelo estatístico simples para verificar as tendências implícitas da série (que estão nas linhas cheias). As linhas pontilhadas são uma suavização com base em uma equação polinomial de terceiro grau, indicando uma correção das oscilações diárias, além de trazer uma extrapolação para os próximos 7 dias.

O gráfico da esquerda mostra a evolução do número de casos e a linha de tendência indica que já ultrapassamos as 20 mil pessoas infectadas em 24 horas e os novos números da média nacional podem chegar a 30 mil casos até o final da próxima semana. O gráfico da direita mostra a evolução do número de óbitos, sendo que a linha pontilhada indica que já ultrapassamos o patamar de 1 mil falecimentos diários e o país caminha para números médios próximos de 1.200 vidas perdidas diariamente na próxima semana.

Mas esta média nacional oculta diferenças significativas que ocorrem nos estados, nas capitais e nas cidades médias e pequenas do interior e do litoral. O fato é que ainda não dá para falar que chegamos no pico e vamos começar o mês de junho com valores elevados e em elevação.

O panorama regional

Considerando os 3 maiores estados do país e o restante do Brasil, o gráfico abaixo (em escala logarítmica) mostra que existe um crescimento do número de casos e óbitos em todos os lugares, mas que avança em níveis e em ritmos diferentes.  Nota-se que as curvas para São Paulo estavam acima das curvas do restante do Brasil no começo da série, mas terminaram abaixo no final de maio. Isto significa que os eventos de São Paulo ocorrem em uma velocidade menor do que o restante do Brasil (sem os 3 estados). O Rio de Janeiro, apesar de ter uma população menor do que Minas Gerais apresenta valores maiores tanto dos casos quanto dos óbitos. Minas Gerais é, entre os 3 maiores estados, o que apresenta menores números de falecimentos.

Todos os números do gráfico estão baseados em dados oficiais do Ministério da Saúde. Evidentemente, existem muitas subnotificações, o que dificulta a análise mais precisa. Porém, embora o número de testes em Minas Gerais seja bem menor do que em São Paulo, eles são maiores do que os do estado do Rio de Janeiro. Uma pena que hoje em dia o Ministério da Saúde está sendo dirigido por militares com alguma experiência em logística, mas que desconhecem a complexidade do sistema de saúde, contribuindo pouco para esclarecer estas questões.

Os 3 maiores estados do país respondiam por cerca de 58% dos casos da covid-19 no Brasil no dia 05 de abril, sendo 41% de São Paulo, 5% de Minas Gerais e 13% do Rio de Janeiro, conforme mostra o gráfico abaixo. Os dois maiores estados diminuíram a participação no total nacional e chegaram a 22% e 2%, respectivamente. O estado do Rio de Janeiro diminuiu a participação até meados de maio (com 9%), mas depois aumentou e chegou no dia 29/05 com cerca de 11%. O restante do Brasil que tinha 42% dos casos no início de abril chegou a 66% no dia 29/05.

Portanto, o contágio comunitário cresce mais rápido nas demais Unidades da Federação, em especial, nas regiões Norte e Nordeste. No Sudeste, o destaque atual é o Rio de Janeiro que cresce mais rápido do que Minas Gerais e São Paulo e, também, cresce mais rápido do que todos os demais. Assim, se não forem revertidas estas tendências, o Rio de Janeiro pode se transformar no principal epicentro da expansão do número de casos no Brasil.

O gráfico abaixo, mostra a mesma distribuição anterior, mas para o número de óbitos para os 3 maiores estados do país e o restante do Brasil. Nota-se que a concentração é ainda maior em relação ao gráfico anterior, sendo que, no início de abril, São Paulo respondia por cerca de 69% dos falecimentos, Minas Gerais respondia por 1%, o Rio de Janeiro respondia por 11% e o restante do país ficava com 19% do total nacional. Mas no dia 29 de maio, o percentual de São Paulo tinha caído para 26%, Minas Gerais manteve o 1% e o Rio de Janeiro e o restante do Brasil aumentaram a participação no total para 18% e 55%.

Portanto, o número de vidas perdidas cresce mais rápido no Rio de Janeiro e no restante do Brasil. Sabemos também que o número de mortes cresce em ritmo mais lento nas regiões Sul e Sudeste. Portanto, a maior mortalidade ocorre nas regiões Norte e Nordeste e no território fluminense. Assim, como no número de pessoas infectadas, se não forem revertidas as tendências atuais, o Rio de Janeiro pode se transformar no principal epicentro do aumento do número de óbitos do país.

Em síntese, a pandemia do novo coronavírus ainda está em uma fase de expansão no Brasil. Mas não cresce no mesmo ritmo em todos os lugares. Entre os 3 maiores estados, São Paulo e Minas Gerais crescem menos do que a média nacional e o Rio de Janeiro cresce em um ritmo mais veloz do que o restante do Brasil (sem os 3 estados). Atualmente, várias cidades já se preparam para sair da quarentena. Como o Brasil é muito grande seria impossível ter uma receita única para todos os municípios e todas as Unidades da Federação. Somente com base em análises estatísticas e epidemiológicas se pode tomar medidas de flexibilização com base na ciência.

A população brasileira espera que o Poder Público seja transparente na divulgação das informações e na orientação de quando, como e onde sair da quarentena, pois qualquer decisão precipitada pode agravar ainda mais a situação.

Frase do dia 30 de maio de 2020

“A liberdade é a escola da inteligência”

William Godwin (1756-1836)

Filósofo inglês

José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves, sociólogo, mestre em economia e doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pós-doutorado no Núcleo de Estudos de População – NEPO/UNICAMP. É professor e pesquisador independente. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

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