O coronavirus e o “callfinamento”

Os cuidados que precisamos tomar quando o universo corporativo entra na nossa casa

Por Marlene Oliveira | ods3ods4 • Publicada em 7 de abril de 2020 - 08:05 • Atualizada em 10 de abril de 2020 - 14:04

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Em dias de Covid-19, jovem francesa tenta conciliar o trabalho feito de casa com a rotina doméstica. Foto Riccardo Milani / Hans Lucas / AFP

Como todos, estou assistindo a como a vida de metade do planeta mudou drasticamente com o confinamento e as restrições impostas pela pandemia do coronavirus. Resumindo, em menos de um mês, tivemos que mudar nossa forma de viver.  Desde como falamos, compramos, interagimos e nos divertimos até a forma como demonstramos carinho, amor e saudade. Saiu o contato físico, cara a cara, olho no olho e entrou o contato virtual, digital, cibernético, online. De uma hora para outra, tivemos que transportar “todo o nosso universo” para dentro de casa. Incluindo o trabalho, o chamado “home office”.

Além de contribuir com os afazeres domésticos, temos que atender nossos clientes, nossos colegas, nossos chefes, mas também nossos pais, avós, parentes e amigos. É um período que traz incertezas e angústias para todo mundo

Isabel Brandão
Profissional da área de inovação

Apesar do privilégio (não disponível para todos), instalar o escritório em casa, compartilhando a vida pessoal com a vida profissional, pode não ser tão simples como parece, sobretudo quando você não mora sozinho e quando isso pode durar períodos longos, como parece ser o caso agora.

“Transformei meu quarto em escritório e, por isso, fico com a portas fechadas”, explica Isabel Brandão, profissional da área de inovação, que mora com o pai, aposentado. “Participo de inúmeros calls durante o dia e, muitas vezes, saio rapidamente para beber uma água e ele tenta puxar conversa. Desconverso e saio de fininho.” É que a cozinha da casa, virou a copa ou a cantina do trabalho. Aquele espaço ideal para uma pausa. Só que quem frequenta não é o colega, mas são muitas vezes seus pais ou avós que querem “aproveitar” de você, “que quase nunca para em casa”.

No contexto atual, o home office exige esforço físico e emocional. “Além de contribuir com os afazeres domésticos, temos que atender nossos clientes, nossos colegas, nossos chefes, mas também nossos pais, avós, parentes e amigos. É um período que traz incertezas e angústias para todo mundo”, explica Isabel.

Hildegard Bentele, uma das representantes da Alemanha no Parlamento Europeu, transformou a sua cozinha em local de trabalho. Foto Bernd von Jutrczenka/DPA
Hildegard Bentele, uma das representantes da Alemanha no Parlamento Europeu, transformou a sua cozinha em local de trabalho. Foto Bernd von Jutrczenka/DPA

O callfinamento e os babyzoomers

Se a mesa de jantar virou sala de reunião, o cardápio familiar inclui cada vez mais as ferramentas e a linguagem corporativa. “Mãe, vamos estipular os objetivos da semana, não vai dar para fazer tudo”, “Vou te passar uma ferramenta para acompanhar o fluxo de caixa, estamos gastando muito com entrega”, “Vó, amanhã cedo, antes do meu primeiro call, te mando pelo slack uma receita de torta”. “Pede pro meu pai baixar o aplicativo do supermercado”, “Vamos marcar um almoço de Páscoa pelo Zoom? Manda o link pelo zap?” “É só copiar e colar.”

A pandemia criou o que o mundo corporativo chama de burning platform, algo como “está pegando fogo, o jeito é agir!” E aí, não tem escolha: o “tio do WhatsApp” vai ter que virar especialista em tecnologia, calls e em ferramentas como Zoom, Google Meet, Hangout e Slack! Ferramentas que, em menos de um mês, eram exclusivas do mundo corporativo, agora, viraram as queridinhas do círculo social e familiar, de todas as idades.

Para os nascidos entre 1940 e 1960, a geração baby boomer, e até mesmo a anterior a ela, essa nova realidade tecnológica e virtual, exige esforços maiores. Se antes, muitos eram tecnofóbicos, limitando-se ao básico, e sempre pedindo ajuda para as tarefas mais “complexas”, agora, o uso das novas ferramentas é a saída para aliviar a angústia e tensão decorrentes do confinamento e ganhar confiança e autonomia.

O medo de usar a internet e, em muitos casos, até mesmo a falta de acesso a um computador e provedor talvez expliquem a legião de idosos que ainda vemos na rua, indo ao supermercado ou ao banco pagar uma conta, expondo-se ao risco de contágio e infringindo as recomendações de prudência. Ou seja: estão indo contra tudo o que eles sempre nos disseram para ter: cuidado!

Para quem está confinado com idosos

Muitos idosos que moram sós, em outros bairros ou cidades, foram convidados a deixar suas casas e voltar a morar com filhos ou netos. Se esse convívio pode ser proveitoso, no contexto atual, ele exige ainda mais cuidados, paciência, dedicação e empatia. Isso evita o chamado “conflito geracional”.

Para os que seguem trabalhando de casa, a presença de idosos acrescenta um cuidado e atenção a mais, especialmente se eles não têm plena autonomia. Essa situação nem sempre é entendida pelo empregador, que tende a aceitar as limitações de quem tem que cuidar dos filhos pequenos que estão em casa, sem escola, mas minimiza a atenção que os idosos em casa requerem nesse contexto de pandemia. A solução é falar sobre o assunto e tentar sensibilizar gestores e colegas para uma atitude mais inclusiva.

Mas, nem tudo é sofrimento! Fim do expediente, sem a possibilidade do chopinho no bar, entra em cena o aperitivo virtual com os amigos no Houseparty

O Houseparty foi criado há quatro anos e, até um mês atrás, ocupava a 450° posição no ranking dos aplicativos instalados. Ocupava. Hoje, graças a realidade do distanciamento social, ele está na lista dos top 10, com mais de 2 milhões de utilizadores. Antes usado por adolescentes, o Houseparty ganhou adeptos de todas as idades pela facilidade de uso, custo zero e a possibilidade de diversão.

O princípio é o mesmo de organizar uma “festa em casa”. Você faz sua lista de convidados, envia os convites e pronto. Negativo. Mais que isso. A “festa” é aberta a qualquer um de seus contatos que tenham o aplicativo e a “amigos de amigos”. Liberou geral! Bebida cada um leva a sua!

Enquanto alguns choram, outros vendem Kleenex

Se o mundo virou virtual, são as empresas da chamada indústria “stay-at-home”, que atendem pessoas que estão em casa, que estão bombando na crise. Enquanto empresas do mundo real, como a Disney, com um modelo de negócios baseado nos seus parques, cruzeiros e cinemas, perdeu 40% do seu valor em um mês, empresas como a Houseparty e a Zoom estão fazendo seus investidores brindarem “saúde” ao Coronavirus. Enquanto as Bolsas despencavam no mundo, as ações da Zoom tiveram uma valorização de mais de 100% desde o início do ano.

Não é para menos. Estamos todos sofrendo do callfinamento. Agendas lotadas, todos muito ansiosos para saber navegar nas novas ferramentas e não parecer mais o “tio do WhatsApp”.

Por isso, mesmo que você esteja aprendendo a se valer das ferramentas e gostando desse pseudo ambiente corporativo, preste atenção a pelo menos uma regra básica que é o check-in e o check-out. Ao “entrar” na call ou no call, não sei como flexionar em gênero uma palavra em inglês, comece simplesmente perguntando como as pessoas estão. Tenha interesse real pelo estado das pessoas. Tente serenar a angústia que esses momentos de incerteza trazem. Afinal, o momento não está fácil para ninguém.

A gente tem que sair dessa crise valorizando coisas mais simples e pessoais. Que ela sirva para nos aproximar ao invés de nos afastar! Esse é, para mim, o maior risco.

Cuidem-se bem e fiquem em casa! Qualquer coisa, me chamem para um call!

Marlene Oliveira

Jornalista e profissional de comunicação, vive em Paris e conhece bem a ebulição do ambiente corporativo. Acredita que a queda do império romano "é pouco" perto das transformações que a sociedade está vivendo mas, otimista até a raiz dos cabelos, acredita que dias melhores virão. Inxalá!

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