O colapso de hospitais na Itália, na França e nos EUA

Médicos se desdobram para atender como podem, reclamam da falta de equipamentos e temem o pico da doença

Por Mônica Medeiros | ods3 • Publicada em 2 de abril de 2020 - 08:35 • Atualizada em 20 de maio de 2020 - 16:38

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Na entrada do hospital Elmhurst, em Nova York, o agradecimento da população ao esforço de médicos e enfermeiros para enfrentar o coronavírus. Foto Stephanie Keith/Getty Images/AFP

(Colorado, EUA) – A imagem de enfermeiras vestindo sacos de lixo como jaleco de proteção num dos mais prestigiados hospitais da cidade de Nova York, o Mount Sinai West em Manhattan, dá uma boa ideia do impacto que a epidemia de Covid-19 está provocando na cidade mais rica do mundo. Mas quem está acompanhando as notícias da pandemia, já viu o cenário de colapso das redes hospitalares na Itália, na Espanha e na França. A rápida multiplicação dos casos da doença na cidade de Nova York – que no dia 1º de março tinha um contaminado e, até ontem, já tinha 75 mil casos confirmados e mais de 1.000 mortos – rapidamente esgotou os recursos de atendimento médico. Os relatos de profissionais de saúde sobre as condições nos hospitais e o sofrimento de pacientes, que respiram com muita dificuldade sem respiradores, são inacreditáveis. Mas não para por aí, em uma sociedade em que os direitos humanos imperam e nenhuma vida vale mais do que a outra, já está se discutindo se pacientes com mais chances de recuperação devem ter prioridade na distribuição de recursos médicos, como aparelhos para ajudar a respirar, e até mesmo atenção médica.

Alguns problemas acontecem em dois dos países com os sistemas de saúde mais eficientes do mundo, segundo estudo da OMS. A França ocupa o primeiro lugar, seguida pela Itália. A Espanha, que apresenta o mesmo quadro de contaminação e falta de recursos por causa da demanda, é o sétimo mais eficiente, enquanto os EUA estão em 37º lugar no mesmo ranking. Já o Brasil é o 125º entre os 191 países membros da OMS estudados.

Esse filme já passou antes, mas parece que o governo americano não viu ou não entendeu, porque não se preparou. No dia 21 de março, 13 médicos da região de Lombardia, na Itália, assinaram um artigo publicado pela conceituada revista médica americana New England Medical Journal, sobre a situação da rede hospitalar italiana com o aumento dos casos de Covid-19 na área. Os médicos, a maioria do hospital Papa Giovanni XXIII, em Bergamo, descrevem o que aconteceu nesse hospital moderno, com tecnologia de ponta, numa das regiões mais ricas da Itália. Quando o artigo foi escrito há pelo menos duas semanas, um terço dos leitos do hospital estava ocupado por pacientes com Covid-19; 70% dos leitos da unidade de terapia intensiva estavam reservados e ocupados por pacientes com boas chances de recuperação; mesmo nessa situação de urgência a espera por um leito já era de horas. Segundo o artigo, “os pacientes mais velhos não estavam sendo ressuscitados e morriam sozinhos, sem cuidados paliativos, e a família era notificada pelo telefone por um médico, normalmente bem intencionado, mas exausto e esgotado emocionalmente, que nunca tivera contato com a família da vítima”. Outros hospitais da região também estão beirando o colapso, informa o artigo, sem medicamentos, respiradores, oxigênio e material de proteção para os atendentes, como jalecos, máscaras apropriadas e até luvas, e os pacientes esperam deitados em colchonetes no chão. Os cemitérios estão superlotados criando um outro problema de saúde pública.

O navio médico USNS Comfort sobe o rio Hudson e passa pela Estátua da Liberdade. Ele conta com mais de mil leitos. Foto Bryan R. Smith/AFP
O navio médico USNS Comfort sobe o rio Hudson e passa pela Estátua da Liberdade. Ele conta com mais de mil leitos. Foto Bryan R. Smith/AFP

Enquanto o foco está em cuidar desses doentes, a capacidade para serviços médicos de rotina como assistência pré-natal e partos é mínima e programas de saúde pública, como vacinação estão parados. Em resumo, os italianos estavam à própria sorte caso quebrassem uma perna ou tivessem qualquer outro problema que precisasse de cuidados hospitalares. A perspectiva era esperar horas e horas nos corredores do setor de emergência, no meio de dezenas de doentes com Covid-19, com sua dor e sofrimento; simplesmente assustador. Para piorar, os médicos acham que os hospitais e ambulâncias estão se tornando locais de transmissão da doença por causa do alto número de pacientes contaminados e mesmo os profissionais de saúde, possivelmente portadores assintomáticos, podem estar se tornando vetores da doença. Há vários casos de médicos e enfermeiros que ficaram doentes e até morreram, aumentando o estresse dos que estão na linha de frente de socorro e tratamento. Há poucos dias a enfermeira italiana Daniela Trezzi, de 34 anos, que incansavelmente vinha trabalhando num hospital da mesma região, se matou depois de saber que era portadora do coronavírus.

Mas se não bastasse esse relato de terror na Itália, a Espanha se seguiu e depois a França com cenários praticamente iguais; aumento exponencial de casos de Covid-19 que precisam de assistência médica hospitalar, falta de leitos, especialmente na unidade de terapia intensiva, falta de equipamento, como respiradores, falta de material de proteção para os profissionais de saúde, contaminação dos profissionais da linha de frente de atendimento que já adoeceram e até morreram. Isso além de muita, muita improvisação para tentar aliviar o sofrimento dos doentes com Covid-19 diante desse quadro de colapso. Os relatos sobre a agonia dos que adoecem com sintomas mais severos, qualquer que seja a idade, 30, 50 ou 70, são da mesma forma agonizantes. Forte tremores por causa da febre, um esforço que parece sobre-humano para respirar e, na maioria dos casos, lágrimas nos olhos que refletem o medo que não pode ser acalmado por parentes (proibido nos hospitais) ou por médicos e enfermeiros, por mais empáticos que sejam. Não há tempo para consolo porque muitos estão esperando por eles em longas filas nos setores de emergência, tossindo e respirando os vírus um do outro; eles estão entrando em colapso, como mostra a foto de uma enfermeira vencida pela exaustão que viralizou nas mídias sociais.

Um novo hospital de campanha com 125 leitos é instalado na Califórnia para atender as vítimas do Covid-19. Foto Apu Gomes/AFP
Um novo hospital de campanha com 125 leitos é instalado na Califórnia para atender as vítimas do Covid-19. Foto Apu Gomes/AFP

Esse é ainda o retrato dos serviços de atendimento médico nos dois países com os sistemas de saúde mais eficientes do mundo, segundo estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS). A França ocupa o primeiro lugar, seguida pela Itália. A Espanha, que apresenta o mesmo quadro de contaminação e falta de recursos por causa da demanda, é o sétimo mais eficiente, enquanto os Estados Unidos estão em 37º lugar no mesmo ranking. Já o Brasil é o 125º entre os 191 países membros da OMS estudados. Ainda assim, na região mais rica da Itália, os hospitais estão fazendo triagem e só tratando os mais jovens e aqueles com mais chances de sobreviver. Em entrevista à CNN, o médico italiano Massimo Galli, chefe da unidade de doenças infectocontagiosas do hospital Sacco, em Milão, disse que os hospitais têm feito milagres para aumentar o número de leitos, mas um dos maiores obstáculos atualmente é a falta de material de proteção para os profissionais que testam os pacientes. Testes e isolamento dos casos positivos, juntamente com aqueles que tiveram contato direto com eles, é a forma mais eficaz encontrada até agora para conter a doença.

Voltando para a cidade mais rica do mundo, no país com o maior PIB do mundo que representa um quarto do PIB total do mundo – mais de 10 vezes o PIB do Brasil – o quadro de esgotamento de recursos materiais e humano é o mesmo no hospital particular Mount Sinai West, localizado a poucos blocos do Central Park em Nova York. Já no hospital público Elmhurst, no bairro de Queens, a história é muito pior. Pacientes necessitando de internação e respiradores, entre eles muitos que precisam ser entubados, esperam horas sentados nos corredores da emergência por um leito, que só tem vagado quando alguém morre. Todas as áreas do hospital estão ocupadas com doentes de Covid-19. Casos que normalmente estariam em unidades de terapia intensiva estão em enfermarias, com a assistência que é possível dar, até que abra uma vaga em unidades com mais recursos. É uma esperança macabra a dos que sofrem à espera de alívio. No Elmhurst, os médicos têm que empurrar as macas de doentes para chegar na maca ou cadeira de um outro que precisa ser examinado; já há fila para ocupar uma maca e pacientes estão sendo tratados sentados em cadeiras. Os relatos, em confidência, de médicos e enfermeiros a jornalistas de vários veículos são semelhantes – incrédulos com o que está acontecendo, eles demonstram o terror que é imaginar o que está por vir com o pico da doença. A legislação sobre privacidade de pacientes não permite melhores reportagens sobre o que está acontecendo dentro dos hospitais nos Estados Unidos.

Mônica Medeiros

Mônica é carioca mas expatriada nos EUA, onde fez mestrado em Jornalismo e foi professora de teoria da comunicação. Cobriu política, cidade e meio ambiente para O Globo e Veja. É jornalista freelance com interesse especial por cidadania, feminismo, meio ambiente, e apaixonada pela ideia de lixo zero. É também tradutora e voluntária de Tradutores sem Fronteira.

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