Medo pode se espalhar mais rápido do que o coronavírus

Prateleiras vazias em supermercado de Paris: pânico pode se espalhar rápido do que coronavírus (Foto: Amaury Cornu / Hans Lucas / AFP)

Especialista em psiquiatria alerta que a transmissão do pânico pode ser acelerada em tempos de rede social mas há maneiras de reduzir sua velocidade

Por The Conversation | ODS 3 • Publicada em 18 de março de 2020 - 09:20 • Atualizada em 11 de fevereiro de 2021 - 20:32

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Prateleiras vazias em supermercado de Paris: pânico pode se espalhar rápido do que coronavírus (Foto: Amaury Cornu / Hans Lucas / AFP)

Jacek Debiek*

À medida que os casos de COVID-19 proliferam, há uma pandemia de medo se desenrolando ao lado da pandemia do coronavírus. A mídia anuncia o cancelamento em massa de eventos públicos “por causa do medo do coronavírus”. As estações de TV mostram imagens de “compras por pessoas em pânico pelo coronavírus”. Revistas discutem ataques contra asiáticos provocados por “medos racistas por coronavírus”.

Devido ao alcance global e à natureza instantânea da mídia moderna, o contágio do medo se espalha mais rapidamente que o vírus perigoso, porém invisível. Observar ou ouvir alguém que está assustado também faz você ficar assustado, sem necessariamente saber o que causou o medo da outra pessoa. Como psiquiatra e pesquisador que estuda os mecanismos cerebrais de regulação social das emoções, vejo frequentemente em ambientes clínicos e experimentais quão poderoso pode ser o contágio do medo.

O contágio do medo é um fenômeno evolutivamente antigo que os pesquisadores observam em muitas espécies animais. Pode servir uma função valiosa de sobrevivência. Imagine um rebanho de antílopes pastando na ensolarada savana africana. De repente, um deles percebe a presença de um leão. O antílope congela momentaneamente. Em seguida, dispara rapidamente uma chamada de alarme e foge do predador. Em um piscar de olhos, outros antílopes seguem.

Cérebros são conectados para responder a ameaças no ambiente. A visão, o cheiro ou os sinais sonoros que sinalizam a presença do predador acionaram automaticamente as respostas de sobrevivência do primeiro antílope: primeiro imobilidade e depois fuga.

Amígdala cerebral (em rosa) recebe informações sensoriais e detecta rapidamente estímulos associados ao perigo (Imagem: BSIP/AFP)

A amígdala cerebral, uma estrutura enterrada profundamente no lado da cabeça no lobo temporal do cérebro, é fundamental para responder a ameaças. Ele recebe informações sensoriais e detecta rapidamente estímulos associados ao perigo.

Em seguida, a amígdala encaminha o sinal para outras áreas do cérebro, incluindo as áreas do hipotálamo e do tronco cerebral, para coordenar ainda mais as respostas de defesa específicas. Esses resultados são comumente conhecidos como medo, congelamento, fuga ou luta. Nós, seres humanos, compartilhamos esses comportamentos inconscientes automáticos com outras espécies animais.

Isso explica o medo direto que o antílope sentiu ao farejar ou avistar um leão por perto. Mas o contágio do medo vai um passo além. Os antílopes em fuga, seguindo um membro assustado do grupo, também agiram automaticamente. Sua fuga, no entanto, não foi iniciada diretamente pelo ataque do leão, mas pelo comportamento aterrorizado do integrante grupo – que, após congelar momentaneamente, soou o alarme e fugiu. O grupo inteiro percebeu o terror do indivíduo e agiu de forma semelhante.

Prateleiras de carne vazias em supermercado perto de Boston (EUA): desabastecimento em consequência do medo da Covid-19 (Foto: Joseph Prezioso/AFP)

A reação ao medo nos humanos

Como outros animais, as pessoas também são sensíveis ao pânico ou ao medo expresso por nossos parentes ou amigos. Os seres humanos estão admiravelmente ligados em detectar as reações de sobrevivência de outras pessoas.

Estudos experimentais identificaram uma estrutura cerebral chamada córtex cingulado anterior (ACC) como vital para essa habilidade. Ele envolve o feixe de fibras que conectam os hemisférios esquerdo e direito do cérebro. Quando você vê outra pessoa expressar medo, seu ACC acende. Estudos em animais confirmaram que a mensagem sobre o medo de outra pessoa viaja do ACC para a amígdala, onde as respostas de defesa são desencadeadas.

Faz sentido que um contágio automático e inconsciente do medo tenha evoluído em animais sociais. Isso pode ajudar a impedir a morte de um grupo inteiro, ligado por parentesco, protegendo todos os seus genes compartilhados para que possam ser transmitidos às gerações futuras. De fato, estudos mostram que a transmissão social do medo é mais forte entre os animais, incluindo os humanos, que têm parentesco ou pertencem ao mesmo grupo. Em relação a estranhos, essa transmissão é menos robusta.

No entanto, o contágio do medo é uma maneira eficaz de transmitir respostas de defesa não apenas entre membros do mesmo grupo ou espécie, mas também entre espécies. Muitos animais, através da evolução, conseguiram adquirir a capacidade de reconhecer chamadas de alarme de outras espécies. Os gritos de pássaros, por exemplo, são sabidamente responsáveis por desencadear respostas de defesa em muitos mamíferos.O contágio do medo acontece automática e inconscientemente, dificultando o controle. Esse fenômeno explica ataques de pânico em massa que podem ocorrer durante concertos de música, eventos esportivos ou outras reuniões públicas. Uma vez que o medo é desencadeado na multidão – talvez alguém tenha pensado ter ouvido um tiro – não há tempo ou oportunidade para verificar as fontes de terror. As pessoas devem confiar umas nas outras, assim como os antílopes. O medo viaja de um para o outro, infectando cada indivíduo à medida que avança. Todo mundo começa a correr por suas vidas. Com muita frequência, esse pânico em massa acaba em tragédia.

Buscas por coronavírus no Google disparam após OMS constatar pandemia: contágio pelo medo facilitado por sociedade conectada 24h por dia (Foto: David Humbert/AFP)

A transmissão do pânico em 2020

O contágio por medo não requer contato físico direto com outras pessoas. A mídia que distribui imagens e informações aterrorizantes pode efetivamente espalhar o medo. Além disso, enquanto os antílopes na savana param de correr quando estão a uma distância segura de um predador, imagens assustadoras no noticiário podem mantê-lo com medo. A sensação de perigo imediato nunca desaparece. O contágio por medo pode se espalhar facilmente através das redes sociais e de noticiários 24h no ar.

Não há como impedir que o contágio do medo entre em ação – é automático e inconsciente, afinal – mas você pode fazer algo para mitigá-lo. Por ser um fenômeno social, muitas regras que governam os comportamentos sociais valem para situações como esta mundo.

Além de informações sobre medo, informações sobre segurança também podem ser transferidas socialmente. Estudos descobriram que estar na presença de uma pessoa calma e confiante pode ajudar a superar o medo adquirido através da observação de outras pessoas. Por exemplo, uma criança aterrorizada por um animal estranho se acalma se um adulto calmo estiver presente. Esse tipo de modelagem de segurança é especialmente eficaz quando você fica de olho em alguém próximo a você ou em quem você confia, como um responsável ou uma  autoridade.

Além disso, ações importam mais do que palavras – mas palavras e ações devem estar combinadas. Por exemplo, explicar às pessoas que não é necessário uma pessoa saudável usar máscara protetora e, ao mesmo tempo, mostrar imagens de um presumivelmente saudável pessoal de triagem da COVID-19 usando roupas de proteção é contraproducente. As pessoas vão comprar máscaras porque vêem figuras de autoridade usando-as quando enfrentam perigos invisíveis.

Mas as palavras ainda importam. Informações sobre perigo e segurança devem ser fornecidas claramente com instruções diretas sobre o que fazer. Quando você está sob estresse significativo, é mais difícil processar detalhes e nuances. Reter fatos importantes ou mentir aumenta a incerteza, e a incerteza aumenta os medos e a ansiedade.

A evolução da sociedade ligou os seres humanos, permitindo compartilhar ameaças e medos com os outros. Mas também nos equipou com a capacidade de lidar com essas ameaças juntos.

*Professor do Departamento de Psiquiatria, do Instituto de Neurociência Molecular e Comportamental da Universidade de Michigan (EUA)

Tradução de Oscar Valporto

The Conversation

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