Mais reinfecções e mais transmissível: variante brasileira do vírus assusta britânicos

Paciente de Manaus chega a Teresina em avião da FAB: variante brasileira, surgida no Amazonas, agravou segunda onda no estado e agora assusta o Reino Unido (Fotos Thiago Amaral/Amazônia Real)

Além de reinfectar aqueles já com anticorpos de versões anteriores do vírus, variante também pode ter alguma resistência a vacinas

Por The Conversation | ODS 3 • Publicada em 3 de março de 2021 - 08:17 • Atualizada em 23 de março de 2021 - 09:21

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Paciente de Manaus chega a Teresina em avião da FAB: variante brasileira, surgida no Amazonas, agravou segunda onda no estado e agora assusta o Reino Unido (Fotos Thiago Amaral/Amazônia Real)

Simon Clarke*

As autoridades de saúde britânicas estão fazendo uma verdadeira caçada por uma pessoa desconhecida cujo teste foi positivo para uma variante do coronavírus conhecido como P1. Às vezes chamado de variante do Brasil, teme-se que o P1 seja mais transmissível do que as formas anteriores do coronavírus. Também pode ser parcialmente resistente à imunidade gerada por infecções anteriores ou vacinação.

Seis pessoas tiveram teste positivo com P1 no Reino Unido, mas uma delas não deixou detalhes de contato ao concluir o teste. Isso desencadeou um esforço urgente para encontrar essa pessoa e rastrear seus contatos para limitar a propagação da variante.

Acredita-se que a variante tenha se originado em Manaus, a capital do Amazonas, e por isso também é conhecida como a “variante de Manaus”. É uma preocupação por causa das mutações que carrega. Uma delas, chamada N501Y – que a variante originária do Reino Unido também possui – pode permitir que o vírus se espalhe mais facilmente. O P1 também carrega outra mutação chamada E484K, que pode permitir que ele resista a anticorpos gerados contra formas anteriores do vírus.

No entanto, neste estágio, os cientistas ainda estão pesquisando as capacidades do P1. Uma pesquisa inicial – ainda a ser revisada por outros cientistas – estima que P1 é entre 1,4 e 2,2 vezes mais transmissível do que a variante com a qual o Reino Unido estava lidando no verão passado. A mesma pesquisa também sugere que entre as pessoas que têm imunidade natural após serem infectadas com uma cepa anterior de coronavírus, P1 pode ser capaz de reinfectá-los entre 25% e 61% das vezes.

É importante ressaltar que é altamente improvável que a variante brasileira seja completamente resistente à imunidade gerada por uma vacina. No entanto, o vírus P1 compartilha mutações (como E484K) e comportamentos com a variante sul-africana – e as evidências sugerem que essa variante tem uma chance maior de infectar pessoas que receberam a vacina Oxford / AstraZeneca do que as versões mais antigas do vírus. Ambas as variantes provavelmente terão, portanto, maior resistência a outras vacinas também.

Isso ocorre porque as mutações transportadas por essas variantes alteram a proteína spike, uma estrutura-chave na superfície do vírus que ele usa para entrar nas células e que também é direcionada pelo sistema imunológico. As mutações remodelaram a proteína spike o suficiente para que os anticorpos sejam incapazes de se ligar a ela – que é o que permite ao vírus contornar a imunidade gerada por infecções anteriores ou vacinas – mas não tanto que o vírus não consiga usar a proteína para entrar em nossas células.

Embora não saibamos com certeza o quão bem a variante brasileira pode escapar da imunidade, há evidências observacionais que sugerem que sim. No ano passado, muitos cientistas acreditavam que as infecções por coronavírus estavam tão disseminadas em Manaus que a imunidade coletiva havia sido alcançada e que o vírus não mais se espalharia por lá. Mas, desde então, os casos aumentaram novamente na cidade, potencialmente por causa da resistência de P1 à imunidade gerada anteriormente.

Por que o P1 apareceu?

Você já deve saber que os vírus sofrem mutação, que isso é normal e essas pequenas alterações no código genético do vírus são esperadas. Bem, isso é verdade, mas isso não significa que eles sejam sempre inofensivos. Muitas mutações serão irrelevantes e algumas tornarão o vírus mais fraco e morrerão. Mas outros irão torná-lo mais apto, dando-lhe uma vantagem sobre outras variantes e permitindo que ele as supere.

À medida que as pessoas se distanciam socialmente, seguem uma higiene pessoal mais rígida e usam máscaras, torna-se uma vantagem o vírus ser mais transmissível. Da mesma forma, à medida que mais pessoas em todo o mundo ganham imunidade ao serem infectadas ou vacinadas, outra vantagem seria que o vírus mudasse de forma que os anticorpos não pudessem mais se ligar a ele e impedir que infectasse as células.

Portanto, não é surpreendente ver variantes com mutações que fornecem essas vantagens agora superando outras formas do coronavírus. Medidas de controle e aumento da imunidade estão pressionando o coronavírus a evoluir.

*Simon Clarke é professor de microbiologia celular na Universidade de Reading (Reino Unido)

The Conversation

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