Indígenas abandonados à própria sorte contra coronavírus

Sem assistência do governo e vulneráveis à doença 'dos homens brancos', povos da floresta terão de enfrentar pandemia por conta própria

Por Amazônia Real | ods3 • Publicada em 17 de março de 2020 - 08:00 • Atualizada em 18 de março de 2020 - 18:15

Indígenas do Vale do Javari esperam para ser atendidos na Central de Saúde. Foto da Univaja

Izabel Santos

Manaus (AM) – Diante da pandemia do coronavírus, os indígenas brasileiros estão abandonados à própria sorte. A Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), subordinada ao Ministério da Saúde, não anunciou medidas e nem investimentos para prevenir a disseminação da doença nas terras onde vivem povos reconhecidos pela saúde pública como vulneráveis e de imunidade baixa.

A Sesai é a responsável por planejar, coordenar, supervisionar, monitorar e avaliar a implementação da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas, observados os princípios e as diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS). A secretaria atende uma população de 760.350 indígenas através de 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dsei).

Na Amazônia Legal, 25 distritos abrigam uma população de 433.363 pessoas. Até a segunda-feira (16), não havia registro de casos suspeitos de coronavírus na população indígena.

Para o coordenador do Centro de Medicina Indígena Bahserikowi’i, antropólogo João Paulo Barreto, da etnia Tukano, a região do Alto Rio Negro não está preparada para enfrentar o coronavírus. “Primeiro pelas distâncias, depois pelo próprio sistema imunológico dos indígenas. Além disso, o preparo para enfrentar a doença exigiria recursos e profissionais treinados”, listou. “Essa doença (coronavírus) não está entre as concepções de saúde e doença tratadas pelos kumuã. É de não indígena e, para curá-la, teríamos que usar a medicina dos brancos mesmo”, explicou.

Essa doença não está entre as concepções de saúde e doença tratadas pelos kumuã. É de não indígena e, para curá-la, teríamos que usar a medicina dos brancos mesmo

João Paulo Barreto
Coordenador do Centro de Medicina Indígena Bahserikowi’i

É no centro de medicina que muitas pessoas, inclusive a maioria não indígena, procuram atendimento de saúde através do conhecimento tradicional dos Kumuã (pajés), em Manaus. Cientes sobre a precariedade das ações, principalmente em regiões remotas e de difícil acesso da Amazônia, onde estão povos isolados, as organizações mais importantes do Movimento Indígena Nacional tomaram medidas para impedir o avanço do coronavírus nas aldeias. Doenças como malária, tuberculose, gripe, hepatite, sarampo, entre outras, têm alta incidência devido, por exemplo, à invasão de garimpeiros nas terras indígenas. Agora, muitas lideranças temem que a nova infecção respiratória chegue às comunidades pelo trânsito de não-indígenas.

Integrante da coordenação executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), o advogado Dinamam Tuxá expôs preocupação com a falta de orientação da Sesai sobre o Covid- 19. “Não recebemos nenhum comunicado oficial, por qualquer meio, do Ministério da Saúde nem da Sesai sobre o tema. Mas, de forma extraoficial, fomos orientados a evitar aglomerações como aeroportos, e permanecer nos territórios evitando contato com gente de fora”.

Como medida de prevenção à doença, a Apib anunciou na última quinta-feira (12) o adiamento do 16º Acampamento Terra Livre (ATL), evento que reúne todos os anos, em abril, milhares de indígenas de várias etnias, em Brasília. O ATL também costuma receber vários participantes de outros países, entre indígenas e integrantes de organizações aliadas, além da mídia internacional. “O objetivo do ATL é buscar a promoção e implementação de direitos, não causar problemas, principalmente na saúde. Precisamos proteger as nossas comunidades”, explicou Dinaman Tuxá.

Na última sexta-feira (13), a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) anunciou a suspensão do ingresso de pessoas não-indígenas à terras indígenas do Alto Rio Negro, entre os municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Izabel do Rio Negro e Barcelos, no noroeste do Amazonas, na fronteira com Colômbia e Venezuela. A região possui a maior diversidade indígena do país, com 23 etnias diferentes, vivendo em 12 territórios.

Outra medida da Foirn foi suspender as viagens interestaduais e internacionais por tempo indeterminado dos integrantes da organização. O presidente da entidade, Marivelton Baré, disse que a medida visa a proteger os mais vulneráveis, como os idosos. “A precaução é a melhor medida que podemos tomar. Não podemos esperar os casos para fazer alguma coisa. Também achamos que é descaso do governo federal não tomar medidas urgentes para resguardar a saúde dos indígenas”, avisou o dirigente, sublinhando que a medida vale para todos. “Profissionais da saúde que estão fora do Alto Rio Negro, outros indígenas e até para Funai, que não pode autorizar a entrada de ninguém sem antes nos comunicar. Vamos analisar caso a caso”, explicou.

Há muita apreensão entre as lideranças indígenas sobre a situação da Terra Indígena Vale do Javari, no sudoeste do Amazonas, na fronteira com Peru e Colômbia, onde vivem indígenas isolados e de recente contato. Segundo dados da Funai, há 16 registros em estudo de índios isolados, 11 deles confirmados. O Vale do Javari tem seis povos contatados (Marubo, Matís, Kanamari e Kulina-Pano) e dois de recente contato (Korubo e Tshohom Djapá).

Em nota, a Apib expressou novamente preocupação às consequências de medidas adotadas pelo governo Bolsonaro em relação à saúde indígena e contato com povos isolados por missões evangélicas. “Ressaltamos que pandemias como estas alertam para a gravidade de uma política de contato com os povos isolados, em razão dos riscos não só de etnocídio, mas também de um doloso genocídio”, diz a Apib.

Dinamam Tuxá confirmou que os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dsei’s) não estão estruturados para casos de Covid-19. “Se isso [o coronavírus] se instalar nas terras indígenas vai ser o caos. Os distritos estão completamente enfraquecidos, assim como os polos base [de saúde]. Apesar de ter equipes multidisciplinares locais com médicos e enfermeiros, sabemos que muitas estruturas estão precárias e sem insumos como álcool em gel e máscaras, para o atendimento adequado das comunidades e o devido acompanhamento dessa pandemia”.

Invadida novamente por milhares de garimpeiros, a Terra Indígena Yanomami, entre Amazonas e Roraima, está vulnerável a várias doenças, entre elas o novo coronavírus. No território vivem mais de 25 mil yanomamis e yekuanas. Há também presença de indígenas isolados. A Funai confirma a existência de um povo isolado e estuda a de outros seis cujos vestígios foram registrados. “Essas populações, além de sujeitas a conflitos com garimpeiros, também estão mais suscetíveis a doenças comuns entre os não-indígenas, podendo uma simples gripe dizimar vários integrantes de um grupo”, avisa texto da fundação, publicado em 2019.

“Eles (os garimpeiros) entram e saem da TI Yanomami quando querem, têm pista de pouso e trilha dentro da área e fazem a exploração ilegal de ouro bem perto dos locais onde os indígenas circulam”, acusou Junior Hekurari Yanomami, presidente do Conselho Distrital Indígena (Condisi) Yanomami e Ye’kuana. Segundo ele, o Distrito Especial Indígena (Dsei) Yanomami conta com equipes treinadas e intérpretes para esclarecer a população indígena sobre o novo coronavírus. “Estamos transmitindo informações e esclarecimentos sobre a doença e seguindo o protocolo determinado pelo Ministério da Saúde para o coronavírus”.

Primeiro contato dos indígenas Koburo com os homens brancos, em 2015. Foto CGIIRC/Funai
Primeiro contato dos indígenas Koburo com os homens brancos, em 2015. Foto CGIIRC/Funai

A Terra Indígena Vale do Javari fica no município de Atalaia do Norte, sudoeste do Amazonas, onde vivem seis etnias contatadas e um registro de pelo menos 16 grupos indígenas isolados. Yura Marubo, da organização União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Unijava), destacou a falta de controle nas fronteiras internacionais para uma possível expansão do Covid-19. “A presença do coronavírus no Vale do Javari seria devastadora. Temos uma fronteira aberta e com circulação livre entre o município de Atalaia do Norte e o Peru, com a Colômbia é mais controlado, mas a circulação existe do mesmo jeito”, explicou Yura, criticando a falta de uma política de saúde indígena. “Estão brincando de governar o país. Não temos medidas efetivas e de longo prazo, somente medidas paliativas. Não sabemos nem como vão abordar questões como o isolamento [quarentena], que entre os indígenas não é comum. É provável que as famílias fujam, aí vai ser pior, pois vão se esconder e ficar sem assistência”.

Com mais de 20 anos de experiência em educação e saúde indígena, Rosimeire Teles, da etnia Arapaso, de São Gabriel da Cachoeira, afirmou que os indígenas de toda a Amazônia estão ameaçados pelo coronavírus. “Ninguém está preparado para essa doença, nem os municípios e nem as comunidades indígenas. Não se trata de dinheiro, mas sim de solução, pois não existe remédio contra ela. É uma doença (coronavírus) desconhecida que está chegando a países ricos e pobres, a todos os lugares. Pessoas como nós, indígenas, são muito vulneráveis a ela, pois temos a imunidade baixa”, enfatizou.

Procurada pela Amazônia Real, a Sesai informou, por meio da assessoria de imprensa, que o Ministério da Saúde lançou, na quarta-feira (11), um edital para contratar 5.811 médicos brasileiros e assim reforçar o atendimento à população durante a pandemia. Em diversas cidades da região é em hospitais militares que as populações indígenas procuram assistência, como em Tabatinga, na fronteira do Amazonas com Colômbia e Peru, e São Gabriel da Cachoeira, fronteira com Colômbia e Venezuela. Também são os militares responsáveis pelos deslocamentos em embarcações e aeronaves em ações de emergências em regiões de difícil acesso. Mas o Comando Militar da Amazônia não divulgou se tem planos para socorro durante a crise.

A reportagem também procurou a Funai e, por e-mail, a assessoria de imprensa respondeu que a fundação atua “em apoio logístico às ações da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). (Colaboraram Elaíze Farias e Kátia Brasil)

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