Família de matriarca indígena luta para fazer seu ritual funerário em Roraima

Vovó Bernaldina com um neto antes da pandemia: enterro em Boa Vista à revelia da família e sem rituais indígenas (Foto: Yolanda Mene/Amazônia Real)

Parentes de Vovó Bernaldina, mestra da cultura Mucuxi, querem levar seu corpo, enterrado em Boa Vista, para reserva Raposa Serra do Sol

Por Amazônia Real | ODS 16ODS 3 • Publicada em 27 de novembro de 2020 - 10:11 • Atualizada em 30 de novembro de 2020 - 19:17

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Vovó Bernaldina com um neto antes da pandemia: enterro em Boa Vista à revelia da família e sem rituais indígenas (Foto: Yolanda Mene/Amazônia Real)

Emily Costa*

Boa Vista (RR) – Há quase seis meses, a família luta para levar os restos mortais da mestra da cultura Macuxi Bernaldina José Pedro, conhecida como Vovó Bernaldina, para a comunidade Maturuca, onde viveu desde os 20 anos de idade. A matriarca foi uma das líderes pela demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. Em 14 de junho, ela foi levada às pressas de seu território para a capital Boa Vista, onde recebeu tratamento para a covid-19 no Hospital Geral de Roraima. Nunca mais voltou.

À revelia da família, o corpo de Vovó Bernaldina foi enterrado em uma sepultura comum no Parque Cemitério Campo da Saudade, em Boa Vista. “A pessoa que morre tem que ser enterrada na comunidade em que começou a sua luta, os seus trabalhos, e também onde deixou suas lembranças e legados, para não ficar tão esquecido quanto se ficar enterrado na cidade”, desabafou Charles Gabriel, um dos seis filhos da vovó, que deixou 15 netos.

Ele teme que, enterrada tão longe de casa, ela seja esquecida pela comunidade. A anciã era uma liderança reconhecida internacionalmente pela luta da demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, homologada em 2005. Esteve com o Papa Francisco, em Roma, em 2018.

Era um buraco cavado de qualquer jeito, de um tamanho muito grande, muito mesmo, mais de dois metros de comprimento e mais de sete palmos

Charles Gabriel
Professor, filho de Bernaldina

Em 2018, Vovó Bernaldina esteve em Roma onde conheceu o papa Francisco e entregou a ele uma carta em nome do povo Macuxi. O documento mencionou as ameaças de garimpo ilegal, construção de hidrelétricas e ocupações dos territórios indígenas, especialmente as Terras Indígenas Yanomami e Raposa Serra do Sol. “Nós, povos indígenas, sabemos viver bem na natureza. Se nos matarem, a natureza morre e será o fim do mundo”, escreveu Bernaldina na carta entregue ao Pontífice.

A mestra da cultura Bernaldina José Pedro faleceu na noite de 24 de junho, aos 75 anos. Ficou dez dias internada, cinco deles sentada em uma poltrona, porque faltavam leitos no Hospital Geral de Roraima. A unidade é a única para pacientes graves de Covid-19 no estado que tem proporcionalmente a maior população indígena do país. “Ela foi ficando cada dia mais frágil, sem ar e muito cansada”, relembra o filho, Charles Gabriel, de 41 anos, professor de língua Macuxi. Ele próprio chegou a ser internado.

Vovó Bernaldina, como era conhecida, possuía um rico conhecimento sobre as canções, as danças, o artesanato, a medicina tradicional e as orações do povo Macuxi. Diagnosticada com a Covid-19, ela ficou hospitalizada por 10 dias, entre 14 e 24 de junho. Segundo o filho, a mãe ficou cinco dias numa cadeira plástica, recebendo oxigênio e só depois foi para um leito onde passou a ser medicada. Durante a internação, Charles Gabriel gravou vídeos documentando a luta da mãe, alguns deles compartilhados com a Amazônia Real.

Em um deles, a matriarca Macuxi está sentada e respira com dificuldade. Em outro, sofre com o calor e precisa ser abanada. “Depois de cinco dias no hospital, ela não conseguia mais andar. O banheiro era péssimo, ruim, fedorento, não tinha ventilação. E minha mãe ficou muito cansada, muito cansada mesmo. Não podia nem andar sem oxigênio.”

O enterro da anciã Bernaldina José Pedro foi registrado em um vídeo de 6 minutos pelo filho. Ele mostra o caixão da mãe sendo carregado para o sepultamento comum no cemitério privado de Boa Vista, mas conflitante ao costume indígena. “Era um buraco cavado de qualquer jeito, de um tamanho muito grande, muito mesmo, mais de dois metros de comprimento e mais de sete palmos”, descreveu.

Vovó Bernaldina em encontro com o Papa Francisco: carta em nome do povo Macuxi relatando ameaças às Terras Indígenas Yanomâmi e Raposa Serra do Sol (Foto: Vatican News)
Vovó Bernaldina em encontro com o Papa Francisco: carta em nome do povo Macuxi relatando ameaças às Terras Indígenas Yanomâmi e Raposa Serra do Sol (Foto: Vatican News)

Violação de direitos indígenas

Além de Bernaldina José Pedro, o Conselho Indígena de Roraima (CIR) listou as lideranças Macuxi vítimas da Covid-19: Alvino Andrade da Silva, 59 anos, José Adalberto Silva, 61, Secundino Raposo, 74, Euzébio de Lima Marques, 59, Valmir Izidoro Mecias, José Mota Henriques, 71, e os professores Fausto Mandulão, 68, Luciano Peres, 68, Alvino de Andrade Silva, 58 anos, Maika Ferreira de Melo, 40, Bernita Miguel, 52 e Getúlio Tobias.

Outros familiares de indígenas vítimas da Covid-19 enfrentam a mesma luta, em Roraima. Em 9 de maio, Raquel Raposo, de 17 anos, foi a primeira Macuxi morta pelo novo coronavírus. Um mês antes, um jovem Yanomami de 15 anos, foi o primeiro indígena vítima da Covid-19 no estado. O enterro de Raquel, feito às pressas, só pode ser acompanhado pela mãe, Marlene Raposo.

“Ninguém mais conseguiu chegar a tempo. Era domingo de Dia das Mães”, disse Marlene, que desejava que a filha fosse enterrada na comunidade Bom Jesus, da Terra Indígena São Marcos. O território tem uma população de cerca de 6,5 mil índios das etnias Macuxi, Wapichana e Taurepang. Raquel Raposo morreu após dois dias de internação no Hospital Geral de Roraima. “Quando saiu de casa ela sofria com muitas dores na barriga, e perdia muito sangue. Piorou e foi retirada da comunidade. Em Boa Vista, disseram que era coronavírus e logo depois ela morreu.”

A família do Yanomami aguarda que o corpo seja cremado no território no ritual da etnia. Uma ação tramita no Ministério Público Federal. Os sepultamentos no cemitério de Boa Vista em desrespeito aos rituais indígenas foram determinados pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde. Os Yanomami aguardam também a liberação dos corpos de três bebês. As mães das crianças, que não sabiam dos sepultamentos, achavam que elas estavam desaparecidas.

Dois indígenas Wai Wai, todos vítimas da Covid-19, também foram enterrados em Boa Vista. As famílias pedem pelo direito ao sepultamento nas comunidades. Os indígenas Wai Wai chegaram a ingressar com uma ação na Justiça cobrando o direito do sepultamento das duas vítimas da etnia em Roraima. As três etnias afirmam que não autorizaram os enterros no cemitério da capital.

Vovó Bernaldina em encontro com o Papa Francisco: carta em nome do povo Macuxi relatando ameaças às Terras Indígenas Yanomâmi e Raposa Serra do Sol (Foto: Vatican News)
Vovó Bernaldina em ritual na tribo: indígenas de várias etnias protestam contra sepultamentos longe da sua terra e sem consentimento da família (Foto: Acervo pessoal)

Roraima tem mais de 90 indígenas mortos pela covid-19

O Distrito Sanitário Especial Indígena Leste (Dsei-Leste), que atende a uma população de 51.797 mil indígenas de sete etnias (Macuxi, Wapichana, Taurepang, Ingaricó, Patamona, Wai Wai e Sapará) tem o segundo maior número de mortes por Covid-19 entre os 34 Dseis do país. Até esta segunda-feira (23 de novembro), segundo a Sesai, eram 47 óbitos e 2.458 casos confirmados do novo coronavírus no Dsei-Leste.

Mas pode ter havido o dobro de indígenas mortos pela Covid-19 em Roraima. Segundo o levantamento da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), até 10 de novembro, foram 92 óbitos entre os indígenas do estado. A etnia mais afetada foi a Macuxi com 19 mortes, depois Yanomami (11), Wapichana (7), Taurepang (2), Wai Wai (2) e Warao da Venezuela (2). Outras 49 vítimas indígenas da pandemia ainda não haviam sido identificadas conforme sua etnia. A Coiab mantém um monitoramento próprio dos casos entre os povos da região (aldeados ou não).

Segundo o presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena do Dsei-Leste, Manduca Tavares, a pandemia começou a se espalhar pelas comunidades ainda em maio. Ele atribuiu a disseminação acelerada à necessidade dos indígenas de quebrarem o isolamento. “As pessoas saíam para os municípios e retornavam para a comunidade, então os casos evoluíram rapidamente”. Quando se iniciaram os saques do auxílio emergencial, do governo federal, houve aglomerações nas agências bancárias. Não há bancos, nem casas lotéricas nas comunidades.

Outro fator potencializador foi a forma de vida nas comunidades, onde o convívio é quase sempre coletivo, segundo Tavares. “Às vezes, as pessoas também não sentiam sintomas ou eram sintomas leves e saíam para visitar os parentes, porque esses são os nossos costumes. É claro que buscamos conscientizar as pessoas, mas não foram todas que obedeceram”, disse o presidente do Condisi-Leste.

*Esta reportagem da Amazônia Real foi financiada pelo Fundo Global de Auxílio Emergencial ao Jornalismo do Google News Initiative para notícias locais no âmbito da pandemia da covid-19.

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