Falta de verba interrompe sanitização de favela carioca em plena 2ª onda

Os irmãos Tandy e Thiago na entrada da favela: iniciativa voluntária para barrar coronavírus na comunidade suspensa por falta de recursos (Foto: Ellan Lustosa)

Sem conseguir repor equipamentos de proteção para covid-19, caça-coronas do Santa Marta, na Zona Sul do Rio, vão ter que aposentar vaporizadores

Por André Balocco | ODS 10ODS 3 • Publicada em 25 de novembro de 2020 - 14:30 • Atualizada em 30 de novembro de 2020 - 12:11

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Os irmãos Tandy e Thiago na entrada da favela: iniciativa voluntária para barrar coronavírus na comunidade suspensa por falta de recursos (Foto: Ellan Lustosa)

Em meio à segunda onda de covid-19 que se alastra pela cidade, uma péssima notícia para os moradores do Santa Marta: a sanitização que os irmãos Tandy e Thiago Firmino estavam fazendo de graça na favela será interrompida neste sábado (28/11). Tudo porque as doações que mantinham o projeto de pé secaram e a rotina de reutilizar os EPIs, como macacões e máscaras face shield, começou a expor os voluntários – chamados de caça-coronas pelos vizinhos da comunidade.

Encravada em Botafogo, na Zona Sul carioca, o Santa Marta tem 3.908 moradores, segundo o Censo 2010, ou 6 mil, de acordo com quem lá vive. Dados oficiais atualizados no dia 24 de novembro apontam um crescimento de 43% na média móvel de casos na cidade, e de 216% no número de mortes, em comparação a duas semanas atrás. No Estado os números não são menos alarmantes. “Não tem outro jeito. Antes que um de nós pegue a Covid, melhor pararmos. Não dá mais para ficar reutilizando equipamentos de proteção”, lamenta Thiago.

A decisão cortou seu coração e o das duas dezenas de voluntários, que desde o início da pandemia sobem e descem a favela de uma a duas vezes por semana. Enquanto o dinheiro entrava na conta das vaquinhas, eles seguiam. Mês a mês os recursos foram diminuindo até que foram obrigados a reutilizar os equipamentos. Foi a gota d’água para a decisão drástica. “Não recebemos um único telefonema de governo estadual ou prefeitura. Ninguém se interessou na prevenção, ninguém quis sequer pagar a gasolina das nossas máquinas. Até mapeamos potenciais patrocinadores da ação, mas não conseguimos nada”, conta o guia turístico que idealizou a iniciativa.

Nesta terça-feira (24/11), o estado do Rio registrou o oitavo dia seguido de crescimento da média móvel de mortes por covid-19, indicando uma segunda onda – ou o repique da primeira – da pandemia: foram contabilizadas 113 óbitos e 2.145 casos em 24 horas. A capital, desde o começo da pandemia, registrou mais de 131 mil casos e quase 13 mil mortes.

Caça Corona em ação de sanitização no alto do Santa Marta: convites para desinfetar condomínios e prédios pequenos (Foto: Ellan Lustosa)
Caça Corona em ação de sanitização no alto do Santa Marta em julho: sem equipamentos para prosseguir com sanitização na favela (Foto: Ellan Lustosa)

No Santa Marta, a credibilidade do trabalho de sanitização rendeu uma parceria com a ONG Dados do Bem, que fez uma grande testagem no morro em outubro. Foram 700 testes, e 15% de infectados, mesmo com o trabalho preventivo que, segundo Thiago, ajuda também a matar insetos transmissores de outras doenças e até mesmo a bactéria que causa cinomose nos animais domésticos “Só de macacão são R$ 500 reais por sanitização”, diz. “Mais 150,00 de quaternário de amônio (base do preparado borrifado), 50,00 de gasolina, 100,00 de alimentação. Da uns 800,00 por ação, sem contar a diária dos voluntários. Estamos fazendo no amor e já chegamos a 60 ações, porque antes era duas vezes por semana”.

A decisão pegou o presidente da Associação de Moradores da favela de surpresa. Avisado pela reportagem, José Mário Hilário se espantou. Ele prometeu buscar soluções imediatas para evitar que o serviço cesse, ciente da sua importância para a comunidade, ainda mais agora, em meio ao recrudescimento da doença. “O trabalho que eles fazem é muito importante para a favela”, disse, alarmado, Hilário.

Thiago explica que não se trata apenas da ação sanitizadora, e enumera todo um planejamento logístico que precisa ser seguido à risca para que a ação funcione a contento. Buscar material, reunir o grupo, pagar passagem de quem vem de fora, comprar gasolina, estocar material, dar café da manhã e, depois, almoço. “Toda sexta a gente se reúne, prepara os equipamentos, deixa as botas arrumadas, os requisitos para, no dia seguinte, saírmos às 8h em ponto. É muito trabalho”, explica.

A empreitada formou sanitizadores no Chapéu Mangueira, Babilônia, Pavão/Pavãozinho, Providência, Vidigal, Jesuítas, em Santa Cruz, e até mesmo em comunidades no Espírito Santo e Pernambuco. Os recursos das vaquinhas acabaram e a iniciativa, pioneira, secou. “É o que falei. A gente sonhou em alugar uma van para nos levar a outras favelas – e tem muitas pequeninas sem nenhuma orientação, completamente abandonadas. Mas não conseguimos um patrocínio. Não dá mais para continuar. A cidade está toda aberta, baile, aglomeração, e ninguém mais se sensibiliza. Precisamos nos preservar”, argumenta Thiago.

André Balocco

André Balocco é jornalista e já passou pelas redações de O Globo, Jornal do Brasil e O Dia, onde foi de repórter a editor executivo. Passou também pela Presidência da República e Secretaria Municipal de Cultura do Rio. Vencedor em equipe do Prêmio Embratel de jornalismo de 2014, com a série '50 anos de Golpe', atualmente comanda o projeto 'Papo com Favela', no Instagram, em que entrevista lideranças de favelas

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Um comentário em “Falta de verba interrompe sanitização de favela carioca em plena 2ª onda

  1. Magal disse:

    Só uma correção: não existe segunda onda de Covid. Não zeramos os números de contaminações tampouco de mortes, a taxa de contaminação cedeu um pouco e novamente está acima do coeficiente 1. Para ter 2a onda, tinhamos que ter atingido zero ou praticamente zero nestes indicadores.
    Estamos mais para um tsunami, uma primeira onda que não termina por razões diversas.

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