Diário da Covid-19: número de casos no Brasil dobra a cada 5 dias

Se tendência for confirmada nos próximos dias, haverá grande pressão sobre o sistema de saúde e ainda mais mortes

Por José Eustáquio Diniz Alves | ods3 • Publicada em 9 de abril de 2020 - 09:13 • Atualizada em 11 de abril de 2020 - 10:02

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Costureiras do ateliê Remexe Favelinha, que fica na favela Vila Novo São Lucas, em Belo Horizonte, trabalham para produzir 6.000 máscaras faciais por mês. Foto Douglas Magno/AFP

O surto da covid-19 continua fazendo estragos por onde passa. Ainda existem muitas incertezas, mas parece que o ritmo de crescimento já está desacelerando no mundo, enquanto, infelizmente, parece que está acelerando e entrando numa fase de efeito cascata no Brasil.

O panorama nacional

O boletim do Ministério da Saúde do dia 08/04 indicou 15.927 casos e 800 mortes pela covid-19, com uma taxa de letalidade de 5%.

Em apenas dois dias, o Brasil acrescentou quase 4 mil casos e 250 mortes pela covid-19. Os aumentos foram significativos. Os casos estão crescendo cerca de 15% ao dia (o que significa dobrar em menos de 5 dias) e as mortes estão crescendo cerca de 20% ao dia (o que significa dobrar em menos de 4 dias), conforme mostram os gráficos abaixo.

Mesmo existindo ainda muitas subnotificações, parece que o país entrou em uma fase de crescimento desregrado. Se esta tendência for confirmada nos próximos dias, então haverá grande pressão sobre o sistema de saúde. Só medidas sérias de contenção podem evitar o pior.

O panorama global

O dia 08 de abril encerrou com 1,52 milhão de casos e 88,5 mil mortes registradas no mundo, com uma taxa de letalidade de 5,8%.

A maior variação diária absoluta global do número de casos ocorreu no dia 03 de abril, com 101,6 mil casos. E a maior variação diária absoluta do número de mortes ocorreu dia 07 de abril, com 7,4 mil mortes. No dia 08 de abril as variações diárias foram de 87 mil casos e de 6,4 mil mortes. Pequenas variações diárias são normais. Assim, não dá para falar ainda se já houve ou se está perto um pico da pandemia global.

A despeito destes números absolutos elevados, a variação relativa tem diminuído. A maior variação relativa diária do número de casos no mundo ocorreu no dia 26 de março (com 12,9%) e a maior variação diária do número de mortes foi no dia 24 de março (14,4%). No dia 08 de abril o avanço dos casos foi de 5,5% e o aumento das mortes foi de 8%, conforme os gráficos abaixo. Nota-se que as variações relativas globais são bem menores do que as variações relativas do Brasil neste início de abril.

Portanto, o crescimento do surto global de covid-19 está longe do fim, embora o ritmo de aumento esteja desacelerando. O Japão, mesmo sem ter realizado um isolamento radical, teve sucesso em evitar uma explosão de casos e mortes. Contudo, o número de casos e óbitos continuou subindo, mesmo que em menor ritmo do que em outros países. Assim, neste momento, o governo resolveu decretar Estado de Emergência no país e adotar medidas preventivas mais fortes para interromper a difusão do surto.

Turquia e Brasil

O Brasil (210 milhões de habitantes) e a Turquia (84 milhões de habitantes) tinham aproximadamente o mesmo número de casos e de mortes da covid-19 no dia 20 de março. Nesta data o Brasil tinha 904 casos e 11 mortes e a Turquia tinha 670 casos e 9 mortes. Mas a Turquia disparou na frente do Brasil nos dias seguintes. Entre os dias 20/03 e 08/04, na Turquia, o número de pessoas infectadas subiu para 38,2 mil (aumento de 57 vezes ou 22,4% ao dia) e o número de mortes subiu para 812 óbitos (aumento de 90,2 vezes ou 25,2% ao dia). No mesmo período, no Brasil, o número de casos subiu para 15,9 mil (aumento de 17,6 vezes ou 15,4% ao dia) e o número de mortes subiu para 800 (aumento de 72,7 vezes ou 23,9% ao dia).

Historicamente, as tragédias às vezes levaram a mudanças importantes. Os mercados em que os animais vivos são vendidos e abatidos devem ser proibidos não apenas na China, mas em todo o mundo

Peter Singer e Paola Cavalieri
Artigo para o Project Syndicate

A Turquia é um dos países do mundo com as taxas de crescimento mais elevadas do surto, nos últimos 20 dias. Mas, o Brasil que tinha apresentado um crescimento mais lento (talvez devido ao alto número de subnotificações), acelerou o ritmo em abril (especialmente nos últimos dois dias) e pode voltar a se emparelhar com a Turquia.

Isolamento eficaz explica controle da epidemia na China

Artigo de Benjamin Maier e Dirk Brockmann, “Effective containment explains subexponential growth in recent confirmed COVID-19 cases in China”, publicado na prestigiosa revista Science, mostra que o efetivo isolamento social foi o fator essencial para frear o crescimento exponencial das contaminações na China. Eles construíram um modelo parcimonioso para análise do confinamento em várias cidades da China, o que pode ajudar na implementação de estratégias de contenção em outras cidades do mundo.

O Brasil precisa levar em conta os estudos científicos e as experiências exitosas. Ao invés de flexibilizar a quarentena – que já ameaça provocar uma explosão de novos casos – as autoridades de saúde e o Poder Público deveriam tomar medidas urgentes para evitar a propagação do contágio. O relaxamento pode acelerar o “efeito cascata”.

A pandemia e o pandemônio econômico

Existe uma certeza e muitas dúvidas. A certeza é que vai haver uma recessão econômica global no primeiro semestre de 2020. As dúvidas são sobre a profundidade, a extensão geográfica e a duração da contração. Indubitavelmente, o mundo vai ficar mais pobre, com mais desemprego, com mais dívidas e com mais insegurança. A questão é saber quanto vai cair e quando e como a economia vai recuperar.

A Organização Mundial do Comércio (OMC) prevê que, no melhor dos cenários, o comércio internacional deve cair 13% em 2020, mais do que no auge da crise financeira de 2008. Todavia, se a pandemia se prolongar, a queda pode chegar a 32%, equivalente à registrada na Grande Depressão dos anos de 1930. É a pior situação vivida na história da OMC.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) deve divulgar suas projeções econômicas para todos os países e regiões do mundo na próxima semana. O “World Economic Outlook” é um relatório aguardado para balizar as discussões sobre o tamanho da queda do Produto Interno Bruto, com previsões sobre o tempo e o ritmo de recuperação.

 A pandemia de covid-19 e a Ecologia Profunda

A Ecologia Profunda (Deep Ecology) é um conceito filosófico que respeita e valoriza todos os elementos vivos da natureza em função de suas qualidades intrínsecas e não pelo seu valor instrumental. É também um movimento que busca construir uma harmonia entre indivíduos, comunidades e meio ambiente. O termo surgiu, pela primeira vez, em 1973, em um artigo do filósofo e ambientalista norueguês Arne Naess (1912-2009), que distinguia as correntes ambientais entre movimentos superficiais ou rasos (com tendência antropocêntrica) e movimentos profundos (não antropocêntricos).

A Ecologia Profunda sempre denunciou o rumo insustentável da rota de colisão entre o enriquecimento humano e o empobrecimento do meio ambiente. A civilização está sustentada em bases frágeis e bastou um minúsculo ser de 1 bilionésimo de milímetro para prender os humanos dentro de casa e desequilibrar os mercados internacionais, provocando prejuízos da ordem de dezenas de trilhões de dólares.

Se os ensinamentos da Ecologia Profunda tivessem sido aprendidos e colocados em prática não teríamos pandemias. Se o mundo fosse vegetariano ou vegano não haveria a covid-19. O surgimento do novo coronavírus está ligado às práticas alimentares existentes nos chamados “mercados úmidos”, onde se consome animais selvagens e de uma maneira muito prejudicial ao bem-estar animal, como é o caso do Mercado Huanan, na cidade de Wuhan, capital da província de Hubei, na China central.

Peter Singer e Paola Cavalieri, defensores da libertação animal, escreveram no Project Syndicate  (02/03/2020) um artigo onde mostram que tanto a epidemia de SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave) de 2003 quanto a atual podem ser atribuídas aos “mercados úmidos” – mercados ao ar livre onde os animais são comprados vivos e depois abatidos no local para os clientes. Nas áreas tropicais e subtropicais do planeta, os mercados úmidos vendem mamíferos, aves, peixes e répteis vivos, amontoados e compartilhando a respiração, o sangue e os excrementos. Os cientistas nos dizem que manter diferentes animais em estreita proximidade prolongada entre si e com as pessoas cria um ambiente prejudicial, que é a provável fonte da mutação que permitiu à covid-19 infectar humanos.

Singer e Cavalieri concluem: “Historicamente, as tragédias às vezes levaram a mudanças importantes. Os mercados em que os animais vivos são vendidos e abatidos devem ser proibidos não apenas na China, mas em todo o mundo”.

José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves, sociólogo, mestre em economia e doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pós-doutorado no Núcleo de Estudos de População – NEPO/UNICAMP. É professor e pesquisador independente. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

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