Diário da Covid-19: Média de mortes no Brasil fica abaixo da média mundial pela primeira vez

Paciente recebe tratamento médico no Centro de Saúde especializado em Gripe e COVID-19 na Vila Olímpica do Complexo do Alemão. Foto Mauro Pimentel/AFP. Dezembro/2021

No último dia 10 de dezembro, o Brasil apresentou 40 casos por milhão de habitantes, metade do mundo que registrou 80 casos por milhão

Por José Eustáquio Diniz Alves | ODS 3 • Publicada em 12 de dezembro de 2021 - 10:09 • Atualizada em 19 de dezembro de 2021 - 12:01

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Paciente recebe tratamento médico no Centro de Saúde especializado em Gripe e COVID-19 na Vila Olímpica do Complexo do Alemão. Foto Mauro Pimentel/AFP. Dezembro/2021

Pela primeira vez, desde abril de 2020, o Brasil apresentou média de infectados abaixo de 8 mil casos e média de mortes abaixo de 200 óbitos diários na semana que passou. Desta maneira, o Brasil apresentou média de casos abaixo da média global desde novembro e média de mortes abaixo da média internacional em dezembro de 2021, uma novidade em quase dois anos de pandemia.

Os coeficientes brasileiros de incidência (casos por milhão de habitantes) e de mortalidade (óbitos por milhão) ultrapassaram os coeficientes globais em abril de 2020 e permaneceram acima da média mundial, praticamente todo o período da pandemia. Mas esta realidade começou a mudar.

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O gráfico abaixo mostra que o mundo está passando pela 4ª onda pandêmica, mas o pico destas ondas ficou, no máximo, em torno de 100 óbitos por milhão de habitantes. Já a primeira onda brasileira atingiu mais de 200 casos por milhão em julho de 2020. Em novembro, a média brasileira ficou próxima da média global. Mas entre março e junho de 2021, as médias nacionais ultrapassaram 350 casos por milhão de habitantes, bem acima das medias mundiais. Em setembro de 2021, a média de casos ficou temporariamente abaixo da média mundial, mas voltou a ficar acima no mês de outubro. Felizmente, a partir de novembro de 2021 o coeficiente de incidência brasileiro ficou constantemente abaixo do coeficiente global. No dia 10 de dezembro, o Brasil apresentou 40 casos por milhão, a metade do mundo que registrou 80 casos por milhão de habitantes.

O gráfico abaixo mostra que o coeficiente de mortalidade do Brasil tem ficado acima do coeficiente mundial desde abril de 2020. Entre maio e agosto de 2020 o Brasil registrou mais de 4 óbitos por milhão, enquanto a média mundial ficou abaixo de 1 óbito por milhão de habitantes. Em novembro de 2020 os dois valores se aproximaram. Mas em março e abril de 2021 o coeficiente brasileiro chegou a mais de 14 óbitos por milhão de habitantes, enquanto a média mundial ficou em torno de 1,4 óbitos por milhão (o Brasil teve média de óbitos 10 vezes superior). Mas desde abril, os números brasileiros estão caindo e, finalmente, o coeficiente de mortalidade brasileiro ficou abaixo do coeficiente global na semana passada. No dia 10 de dezembro, o Brasil apresentou 0,7 óbito por milhão e o mundo cerca de 1 óbito por milhão de habitantes.

A variante Ômicron é um “presente de Natal”?

O ministro da saúde da Alemanha, o epidemiologista Karl Lauterbach, comentando o quadro brando provocado pela difusão da variante Ômicron na África do Sul, disse: “seria um verdadeiro presente de Natal antecipado se a Ômicron pegasse leve”. A ideia é que o surgimento da variante Ômicron do SARS-CoV-2, uma cepa, até aqui, mais infecciosa e menos virulenta, possa ser positiva para a saúde pública.

Embora seja cedo para tirar conclusões definitivas, alguns especialistas em doenças infecciosas expressam alguma esperança e há até aqueles que dizem que a variante Ômicron pode ser uma forma “benigna”, tendo o potencial de se transformar em uma luz no fim do túnel. Isto porque, o vírus poderia se tornar uma forma predominante mais branda que continuaria se espalhando, mas mataria menos pessoas e provocaria menos internações hospitalares.

O epidemiologista americano Anthony Fauci, mesmo com cautela, também disse algo neste mesmo sentido: “Parece que com os casos que temos visto, não há um perfil muito grave da doença. Na verdade, pode ser – e sublinho ‘pode ser’ – menos grave”.

O gráfico abaixo mostra que a África do Sul está na 4ª onda da covid-19, sendo que nos quatro surtos a média de casos sul-africanos ficou bem acima da média global. Contudo, atualmente, com o predomínio da variante Ômicron, a média de mortes sul-africanas está bem abaixo da média global, ao contrário do que aconteceu nas 3 ondas anteriores.

De fato, quando uma mutação é muito virulenta ela mata o hospedeiro rapidamente, mas, ao mesmo tempo, tem menor probabilidade de se propagar. Porém, quando a linhagem do vírus é menos agressiva, o patógeno passa a conviver com seu hospedeiro, o que favorece a sobrevivência de ambos. Nesse cenário, haveria uma espécie de “acordo tácito” gerando uma trégua entre o coronavírus e a humanidade.

Em vista disto, se a Ômicron for realmente menos letal e provocar menos hospitalizações pode significar o começo do fim da pandemia. Não o fim da doença, mas uma etapa para a transição da pandemia para a epidemicidade. Ou seja, numa visão otimista, a covid-19 não desapareceria, mas se tornaria endêmica e, de fato, poderia se tornar uma espécie de “gripezinha”.

Mas ainda há muitas incertezas no ar. O artigo “Beyond Omicron: what’s next for COVID’s viral Evolution”, publicado na revista Nature (Callaway, 07/12/2021), mostra que existe a possibilidade do SARS-CoV-2 evoluir eventualmente de forma mais previsível, tornando-se semelhante a outros vírus respiratórios. Mas alerta: “não está claro quando essa mudança ocorrerá e com qual infecção ela pode se parecer”.

“Passaporte vacinal” e o monitoramento da covid-19

Os manuais de epidemiologia recomendam que os países e regiões devem adotar uma barreira sanitária para se proteger de uma pandemia que tenha origem no exterior. Isto quer dizer que os controles de fronteira devem fiscalizar, testar e monitorar todas as pessoas que entram no território nacional. Isto vale para o vírus original ou para suas variantes.

Com o avanço do processo de vacinação e a retomada das viagens internacionais, a barreira sanitária se transforma em controle sanitário, especialmente em relação aos locais de maior risco. Efetivamente, as autoridades alfandegárias e sanitárias devem exigir o teste negativo para o coronavírus e o comprovante de vacinação. Estas medidas visam cuidar da saúde pública e preservar o bem-comum, evitando a difusão da doença e garantindo um ambiente saudável para todas as pessoas, independentemente da nacionalidade.

Por exemplo, é normal os países exigirem vacina de febre amarela para as pessoas com viagens para locais onde ainda há a possibilidade de contaminação pela doença. Por isso, o Certificado Internacional de Vacinação deve ser apresentado no aeroporto do destino. Esta é uma medida rotineira que está relacionada com a manutenção da saúde das pessoas. Isto faz parte da institucionalidade democrática.

Neste sentido, não dá para entender a fala do presidente da República e do ministro da Saúde contra o chamado “passaporte vacinal” (isto é, comprovante de vacinação para os viajantes e turistas). O presidente Bolsonaro, que sempre coloca em dúvida as recomendações da ciência, disse, no dia 07/12, que a Anvisa pretendia fechar o espaço aéreo brasileiro e minimizou os riscos das novas variantes do novo coronavírus. O ministro Queiroga, repetindo o seu Chefe, disse que: “às vezes, é melhor perder a vida do que perder a liberdade”. Uma postura muito estranha, pois não é usual que defensores de regimes autoritários e do conservadorismo moral se arvorem defensores da liberdade.

Evidentemente, o presidente Bolsonaro deturpou as recomendações das autoridades sanitárias, pois a Anvisa não propôs o fechamento do espaço aéreo brasileiro e a solicitação de um comprovante de vacina é uma medida corriqueira e que visa a proteção das pessoas e da população. Quem não deseja tomar vacina tem a opção de ficar quieto no seu canto. Mas quem quer ter o direito de viajar tem o dever de se imunizar para não se transformar em um vetor de transmissão de doenças que vai colocar a vida de outras pessoas em risco. Acima de tudo, a liberdade de cada um é limitada pelo direito do outro. Não é justo que uma ou muitas pessoas morram por conta de alguém que se recusa a apresentar comprovante de imunização. Em todas as sociedades existem regras de convivência coletiva que restringem as ações particulares em nome do interesse geral. Acima de tudo, a vida tem um status prioritário, pois não existe liberdade para os mortos.

Não obstante, a despeito da polarização e de toda a retórica do confronto, o governo publicou no Diário Oficial da União, no dia 09/12, novas regras para a entrada de viajantes no Brasil, determinando que quem quiser entrar no Brasil precisará apresentar um comprovante de vacinação contra a covid-19 e um teste negativo da covid-19. As pessoas sem comprovante de imunização precisarão fazer quarentena de 5 dias ao chegar no território nacional. Ou seja, em grande medida as recomendações da Anvisa foram atendidas e as normas sanitárias foram totalmente ou parcialmente contempladas. As regras estavam previstas para entrar em vigor no sábado, dia 11 de dezembro.

Todavia, os sites do Ministério da Saúde e do Conect SUS ficaram fora do ar desde a madrugada da sexta-feira (10/12), em função de um estranho ataque hacker, conforme explicado pelas autoridades federais. Também ficaram indisponíveis as plataformas do Painel Coronavírus e DataSUS. Além dos prejuízos causados pela ausência de dados, o secretário-executivo do Ministério da Saúde, Rodrigo Cruz, afirmou que o governo adiou por 7 dias a portaria que exige o comprovante de vacinação para viajantes entrarem no Brasil. Um quadro muito triste. Mas no sábado (11/12), o ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, determinou a obrigatoriedade de comprovante de vacinação para viajantes estrangeiros que chegarem ao país. A ordem foi dada em uma ação da Rede Sustentabilidade que tenta obrigar o governo a adotar medidas sanitárias recomendadas pela Anvisa.

É claro que o SARS-CoV-2 não está nem aí para toda esta confusão e continua circulando com grande grau de liberdade.  A prefeitura do Rio de Janeiro que havia cancelado a festa pública na virada do ano, voltou atrás e anunciou no dia 09/12, que a capital fluminense não terá shows, mas 25 torres tocando músicas ao longo da Praia de Copacabana. A ansiedade é grande pela normalidade da vida produtiva e social. Assim, a despeito da epidemia de gripe, haverá queima de fogos em 10 pontos da cidade para espantar os fantasmas de 2021.

Quando chega a virada do ano é comum as pessoas irem até a beira do mar e pular sete ondas. Para cada uma das ondas costuma-se fazer um pedido com os desejos e sonhos do ano novo. Sendo o Brasil um dos países mais afetados pela pandemia e com maior dificuldade de implementar políticas públicas de saúde, uma boa medida para o réveillon 2022 é pedir aos céus para que as novas mutações do coronavírus sejam menos agressivas e menos letais.

O jeito é avançar com a vacinação completa e torcer para que haja mutações virais mais brandas, possibilitando um armistício entre o SARS-CoV-2 e os seres humanos. Assim, talvez, a pandemia seja rebaixada para o status de endemia ainda no primeiro semestre de 2022.

Frase do dia 12 de dezembro de 2021

“Não temos garantia de que sempre sairemos vencedores da competição evolucionária natural dos vírus com a espécie humana”

Joshua Lederberg (1925 – 2008), Prêmio Nobel de Medicina de 1958

Referência:

Ewen Callaway. Beyond Omicron: what’s next for COVID’s viral evolution, Nature, 07/12/2021

https://www.nature.com/articles/d41586-021-03619-8

José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves é sociólogo, mestre em economia e doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pós-doutorado no Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É professor e pesquisador independente. Currículo Lattes em http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

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