Diário da Covid-19: inverno e interiorização assustam Região Sul

Brasil tem 1374 mortes em 24h - segundo maior registro desde o começo da pandemia - e estados e cidades do Sul reveem flexibilização de restrições

Por Oscar Valporto | ODS 3 • Publicada em 24 de junho de 2020 - 07:51 • Atualizada em 1 de julho de 2020 - 09:51

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Temperatura em baixa e covid-19 em alta em Curitiba, capital mais fria do país (Foto: Agência Vrasil)

O inverno chegou no fim da tarde de sábado aqui no Hemisfério Sul, com alertas para o aumento de casos de doenças respiratórias – como a covid-19 – e para a possibilidade de aumento do contágio pelo coronavírus com as pessoas em lugares fechados por causa do frio. Na terça (23/06), logo no quarto dia do inverno, o Ministério da Saúde confirmou mais 1.374 mortes por conta do coronavírus no Brasil desde o boletim anterior, o segundo maior registro desde o começo da pandemia. O recorde macabro é de 1.473 no dia 4 de junho. O país já tem 52.645 óbitos.

Foram registrados 39.436 casos em 24 horas; são 1.145.906 no total desde o começo da pandemia. A tendência de interiorização prevalece, com cerca de 70% dos novos casos registrados fora das capitais. Há duas semanas, só seis estados tinham números maiores no interior do que na capital (Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul). Pelo boletim desta terça, apenas Rio de Janeiro, Acre, Rondônia e Roraima tinham mais casos na capital do que no interior.

O avanço da covid-19 em todo o país, a previsão de dias cadas vez mais frios e a interiorização acenderam o alerta nos estados da Região Sul que continua sendo a região com menos casos (quase 56 mil) e mortes (1.238 até terça). Os governos de Rio Grande do Sul, Santa Catrina e Paraná – bem como muitas cidades – estão revendo as regras de flexibilização das medidas restritivas que já estavam em marcha. Os três estados têm índices altos de casos no interior: 86% dos casos gaúchos foram registrados fora de Porto Alegre; 82,5% dos registros paranaenses são em cidades do interior. Santa Catarina é o estado com maior taxa de interiorização da covid-19: 94% dos casos registrados fora da capital.

Recorde gaúcho

Na primeira segunda-feira do inverno (22/06), a Secretaria Estadual de Saúde registrou 25 novos óbitos no Rio Grande do Sul – o maior índice desde o começo da pandemia – em 20 diferentes cidades gaúchas.  Na terça, com mais 19 mortes, o estado chegou 477 óbitos pela covid-19 e 20.864 pessoas infectadas pelo coronavírus. O inverno também chegou com o registro das primeiras mortes em Pelotas – a última cidade com mais de 200 mil habitantes do país a ter vítimas fatais de covid-19. O vírus está em 77% dos municípios gaúchos

Postos recolhem agasalhos para vulneráveis em Porto Alegre: inverno pode aumentar contágio pelo coronavírus (Foto: Defesa Civil/RS)
Postos recolhem agasalhos para vulneráveis em Porto Alegre: inverno pode aumentar contágio pelo coronavírus (Foto: Defesa Civil/RS)

Em Porto Alegre, com o avanço do número de casos e do aumento na ocupação de leitos nas UTIs, a prefeitura publicou decreto na madrugada desta terça-feira (23) e aumentou as restrições das atividades econômicas da capital para combater a pandemia, determinando fechamento de bares, restaurantes e indústrias.

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Em toda a Região Metropolitana da capital, as prefeituras estão aumentando as medidas restritivas. Em São Leopoldo, foi decretado o fechamento de espaços públicos para atividades de lazer. As realizações de festas e outras atividades, com reunião de pessoas mesmo em locais privados, poderão causar multa ao proprietário do local ou ao organizador: R$ 3,9 mil. Academias de ginásticas e templos religiosos também vão ficar fechados na cidade – mesmo com o governo estadual permitindo o funcionamento com restrições.

Em Parobé, também na Região Metropolitana, foi decretado toque de recolher das 19h de sábado às 23h de domingo. Em Sapucaia do Sul, a prefeitura publicou decreto, permitindo que a Guarda Municipal faça autuações aos proprietários de residências em que estiverem ocorrendo festas privadas.

A prefeitura de Tupanciretã, no Noroeste do estado, decretou toque de recolher entre 23h e 5h, por tempo indeterminado, com multa de R$ 1 mil por descumprimento e que poderá chegar a R$ 5 mil em caso de reincidência. Em Parobé, na Região Metropolitana, a prefeitura decretou toque de recolher das 19h de sábado às 23h de domingo.

Técnico da Secretaria de Saúde com ação de larvicida contra a dengue em Joinville: município enfrenta, além da covid-19, surto da doença (Foto: Rogério da Silva/Prefeitura de Joinville)
Técnico da Secretaria de Saúde com ação de larvicida contra a dengue em Joinville: município enfrenta, além da covid-19, surto da doença (Foto: Rogério da Silva/Prefeitura de Joinville)

Temores catarinenses

Apesar de ter o menor número de mortes na região, Santa Catarina acompanha a covid-19 se espalhar pelas principais cidades em todas as regiões do estado. Segundo os dados divulgados pelo governo estadual na noite de terça (23/06), em 24h, foram registrados 1,3 mil novos casos de Covid-19 e sete mortes pela doença – o recorde diário de óbito no estado é de 13. Desde o começo da pandemia, já são 19.244 casos, com 263 pessoas mortes.

Com 220 mil habitantes, Chapecó, no Oeste Catarinense, é a cidade com maior número de casos do novo coronavírus no estado: 1.634. Itajaí, na região do Vale do mesmo nome, vem em seguida, com 1.389 diagnosticados; Concórdia, também no Oeste, registra 1.189. A capital catarinense, Florianópolis, com quase 500 mil habitantes, aparece no quarto lugar em número de casos com 1.181.

Maior cidade do estado, com cerca de 580 mil moradores, Joinville, no Norte Catarinense, registra 1.055 e o maior número de mortes: 30. A prefeitura decidiu deixar mais rígido o isolamento social para tentar conter o avanço do novo coronavírus. O município, que tem o maior número de mortes provocadas pela doença em Santa Catarina, decretou o isolamento compulsório de pessoas com 60 anos ou mais, tornou obrigatório o uso de máscaras para quem sair de casa, e restringiu a permanência de pessoas em parques, praças e demais espaços públicos de uso coletivo. Joinville ainda enfrenta um surto de dengue: tem 80% dos 9 mil casos registrados da doença em Santa Catarina desde o começo do ano. O número do estado é o dobro do registrado no ano passado.

Outras cidades – onde já havia afrouxamento das medidas restritivas – também estão mudando as regras. A prefeitura de Florianópolis voltou a endurecer as medidas de isolamento social após aumento nos números de casos e mortes pela covid-19. A partir desta quarta (24), o uso de máscaras, que era obrigatório apenas em alguns locais, passa a ser exigido em toda a cidade. A multa em caso de descumprimento, que era de R$ 125, agora vai a R$ 1.250. Em Itajaí, decreto municipal proibiu o acesso a praias, calçadões, praças, parques e pontos turísticos; o comércio permanece aberto, mas com restrições.

Atendimento a paciente com suspeita de covid-19 em unidade de saúde em Curitiba: número de casos triplicou em um mês (Foto: Pedro Ribas/SMCS)
Atendimento a paciente com suspeita de covid-19 em unidade de saúde em Curitiba: número de casos triplicou em um mês (Foto: Pedro Ribas/SMCS Curitiba)

Alarme paranaense

O Paraná registrou, nesta-terça, 27 mortes por covid-19, o segundo maior número de óbitos pela doença (o recorde é de 30, em 16 de junho), apontando para o avanço da pandemia no estado. Foram registrados 725 novos casos: de acordo com o boletim da Secretaria de Estado da Saúde, o Paraná registra agora 15.673 casos confirmados de covid-19 e um total de 487 mortes. Na sexta, último dia do outono, o estado registrou seu recorde de casos em 24h: 878. Dos 399 municípios do estado, 332 (mais de 80%) já confirmaram diagnósticos da doença.

O avanço da covid-19 voltou a alarmar as autoridades paranaenses – em todas as regiões, medidas restritivas estavam sendo afrouxadas.  Em Curitiba, o número de casos confirmados da doença em menos de um mês: o município, capital mais fria do Brasil, chegou a 3.298 casos da Covid-19 e 116 mortes na terça (23/06). A ocupação de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) específicos para a Covid-19 alcançou 86% na capital. O colapso é uma preocupação porque Curitiba já registra aumento dos casos por doenças respiratórias no inverno e tem um alto índice de moradores idosos. Mesmo assim, a capital paranaense ainda tem regras mais frouxas do que a maioria da capitais: comércio de rua aberto de 10h às 18h, shoppings de 12h às 20h.

Outras cidades da Região Metropolitana da capital – Fazenda Rio Grande, Pinhais, Araucária e Campo Largo – também baixaram decretos restringindo, um pouco, a circulação de pessoas. Em Araucária, onde o prefeito e a primeira-dama estão com a covid-19, decretou a abertura do comércio entre 10h e 16h e proibiu a entrada de crianças em supermercados e estabelecimentos do gênero. Pinhais proibiu a realização de festas e eventos, aglomerações de pessoas, mesmo que em ambientes residenciais, e determinou toque de recolher das 22h às 5h. Decreto da prefeitura de Fazenda Rio Grande proibiu atividades em bibliotecas públicas, ginásios, campos de futebol e quadras esportivas, praças, parques, academias ao ar livre e playgrounds. As quatro cidades proibiram missas e cultos nos fins de semana.

Com o avanço da covid-19 no interior (82,5% dos casos), municípios paranaenses estão tomando medidas mais drásticas. A Prefeitura de Medianeira, no oeste do Paraná, decretou toque de recolher a partir desta terça (23) – de 23h às 5h durante a semana e de 22h às 5h no fim de semana – e o fechamento total de todas as atividades comerciais, religiosas e de prestação de serviço no final de semana. Em Campo Mourão, no Centro-Oeste, a Prefeitura e a Câmara de Vereadores foram fechados após servidores testarem positivo para o novo coronavírus. A Prefeitura de Foz do Iguaçu isolou os bairros Jardins Ipê II e Jasmim – com cerca de 10 mil moradores – para tentar evitar a propagação da doença. Na aldeia do Ocoy, em São Miguel do Iguaçu, no oeste do Paraná, foram confirmados 36 casos de covid-19 após exames rápidos feitos na comunidade. Todos os indígenas infectados estão isolados para o cumprimento da quarentena.

O pandemônio na América do Norte

Não é só no Brasil que a covid-19 avança com rapidez. A doença está retomando seu ritmo nos Estados Unidos nesse começo de verão no Hemisfério Norte, quando muitos estados americanos afrouxaram as medidas restritivas por conta do calor. Desde 1º de maio, os EUA não registravam mais de 30 mil casos diários: este número vinha caindo e chegando a faixa dos 20 mil. Nos últimos dias, entretanto, voltou a subir: bateu 31.630 na sexta (19/06) e voltou a chegar a mais de 30 mil casos diários no sábado (20), segunda (22) e terça (23).  Estados populosos como Flórida, Arizona e Texas bateram seus recordes de contágio diário nesta semana.

Texas e Arizona fazem fronteira com o vizinho México, onde o número de mortes pela covid-19 vem crescendo assustadoramente. Autoridades mexicanas  registraram 6.288 novos casos pelo nesta terça-feira, um novo recorde diário no país desde o início da pandemia. O país tem agora 191.410 casos confirmados e 23.377 mortes.  De acordo com os dados da OMS, México ocupa a 13ª posição no mundo em número de casos e a sétima em registro de mortes.

Frase do dia 24 de junho de 2020

“Pobre México: tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”

Porfírio Diaz (1830-1915), três vezes presidente do México: na última, por 27 anos (1884-1911)

 

 

 

 

 

 

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica crônicas sobre suas andanças pela cidade.

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