Diário da Covid-19: Brasil mantém média de mais de mil mortes por dia há um mês

Cemitério lotado de vítimas da covid-19 em Manaus: Brasil passa dos 70 mil mortes e mantém média diária acima de mil óbitos desde o início de junho (Foto: Michael Dantas/AFP)

País ultrapassa 70 mil óbitos e 1,8 milhão de casos com tendência de alta da pandemia nas regiões Sul e Centro-Oeste

Por Oscar Valporto | ODS 3 • Publicada em 11 de julho de 2020 - 10:10 • Atualizada em 11 de julho de 2020 - 11:41

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Cemitério lotado de vítimas da covid-19 em Manaus: Brasil passa dos 70 mil mortes e mantém média diária acima de mil óbitos desde o início de junho (Foto: Michael Dantas/AFP)

O Brasil ultrapassou, nesta sexta, 10 de julho a marca de 70 mil mortes provocadas pela covid-19 e 1 milhão 800 mil casos da doença. Nesses 10 dias, nosso país registrou 10.812 mortes, uma média de 1081,2 novas vítimas fatais por dia; são números ligeiramente superior aos dos 10 primeiros  de junho quando foram contabilizados 10.542 óbitos (média de 1.054 por dia). O aumento de 2,5% de um mês poderia parecer pouco se estivéssemos no começo da pandemia mas agora é uma péssima notícia. Neste ritmo ainda ascendente, chegaremos ao fim do mês de julho com mais de 90 mil casos, confirmando as projeções do Instituto de Métricas e Avaliação da Saúde (IHME) da Universidade de Washington, que previu, em março, que o Brasil chegaria a 88 mil mortes no dia 4 de agosto.

A comparação entre os 10 primeiros dias de julho com o mesmo período do mês anterior revela também um aumento do número de casos registrados no Brasil. O total de infectados no país chegou a 1.800.827, com os 45.048 registrados na sexta – desde o começo do mês, foi o sétimo dia que o Brasil acumulou mais de 40 mil casos em 24h. Nos 10 primeiros de julho, foram acrescentados nas estatísticas mais 369.817 pacientes de covid-19, crescimento de 42,2% em comparação ao mesmo período de junho. Certamente, parte desse resultado é reflexo do aumento do número de testes, mas ainda estamos muito longe de um patamar semelhante a – por exemplo – nosso parceiro de infortúnio, os Estados Unidos.

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Até no país com maior número de casos (quase 3,3 milhões) e de mortes (136 mil), a situação parece um pouco melhor que a do Brasil – nos primeiros 10 dias de junho, os Estados Unidos registravam uma média diária de mortos em torno de 900, já abaixo da brasileira. Nestes dias de julho, a média estadunidense de óbitos ficou abaixo de 700, indicando uma curva de declínio – apesar de ainda lenta se comparada aos países europeus após a chegada no pico da pandemia. Os Estados Unidos passaram pela primeira da marca de 60 mil casos em 24h – o sétimo recorde diário em 10 dias. A sexta-feira marcou o novo recorde mundial de casos, de acordo com a OMS. Além dos EUA, outros países com casos em alta são Índia, México, África do Sul e, naturalmente, o Brasil.  O problema brasileiro é que a curva segue ascendente ou, num olhar otimista, estabilizada em um patamar muito alto, que levaria o Brasil a chegar aos 100 mil mortos antes da metade de agosto.

Nosso país de dimensões continentais e de ainda mais variações climáticas que os Estados Unidos enfrenta a pandemia sem qualquer coordenação federal e sem ministro da saúde: cada estado se vira como pode. Levantamento feito pelo G1 e pela TV Globo, considerando uma média móvel de sete dias, mostra que, não apenas a pandemia ficou estabilizada num patamar alto, como ela afeta de maneira diferente os estados brasileiros: de acordo com essas estatísticas, nove estados e o Distrito Federal enfrentavam uma tendência de alta no número de mortes pela covid-19; em outros 12 estados, a tendência era de estabilidade e em apenas cinco tinham uma curva descendente.

O inverno chegou

Para surpresa de ninguém, os três estados da Região Sul, onde os especialistas já previam que a chegada do inverno sempre aumenta o número de doenças respiratórias, estão entre aqueles com maior tendência de alta pela média dos últimos sete dias comparada com a de duas semanas atrás. O maior crescimento foi no Rio Grande do Sul com um aumento de 85%  Na quarta-feira, o estado registrou um recorde de  37 óbitos por covid-19; na quinta, a marca gaúcha subiu para 45 mortes; e o Rio Grande do Sul fechou a semana com mais 49 óbitos em 24h, mais um recorde. A doença já chegou a 432 municípios gaúchos, 87% do total de cidades. Para agravar, os gaúchos vêm enfrentando temperaturas baixo de 10 graus e o Rio Grande do Sul tem o maior percentual de população acima dos 60 anos no Brasil, de acordo com os dados do IBGE, com 18,77%. O estado tem agora 919 mortes e 37.490 casos confirmados de covid-19.

Distribuição de agasalhos e produtos de higiene em Porto Alegre: com a chegada do inverno, número de mortes e casos de covid-19 acelera na Região Sul (Foto: Alex Rocha/PMPA)
Distribuição de agasalhos e produtos de higiene em Porto Alegre: com a chegada do inverno, número de mortes e casos de covid-19 acelera na Região Sul (Foto: Alex Rocha/PMPA)

O Paraná, com média móvel registrando um aumento de 84% no número de óbitos, registrou mais 47 mortes – recorde nesta pandemia – e 2.063 novos casos de covid-19 nesta sexta-feira (10), de acordo com o boletim da Secretaria de Estado da Saúde. Foi a terceira vez que o estado registrou acima de dois mil casos em 24h, todos nestes 10 primeiros dias de julho. Das 399 cidades do Paraná, 377 têm, ao menos, um caso da doença enquanto 182 municípios registram vítimas fatais da covid-19: Curitiba, com 210 mortes, Londrina (94) e Cascavel (71) são as cidades mais afetadas. O Paraná chegou, nesta sexta, a 39.064 casos confirmados e 961 mortes pela covid-19.

A situação em Santa Catarina é melhor – 24% de aumento na média móvel de óbitos – mas também preocupante. Nesta sexta, o estado alcançou novo recorde no número de casos: foram mais 1698 em 24h, com 12 mortes.O recorde diário de mortes – 16, estabelecido em junho – não chegou a ser alcançado mas Santa Catarina registrou, esta semana, 15 mortes na quinta e 12 mortes na quarta e uma média de 1500 casos diários. A prefeitura da capital e dos principais municípios da Grande Florianópolis – São José, Biguaçu e Palhoça – baixaram decreto em conjunto para tentar frear o avanço da covid-19. Estão proibidos a realização de festas residenciais e o uso de áreas comuns de condomínios, como piscinas e salões de festas. Já os supermercados só podem permitir a entrada somente de uma pessoa por família.   Santa Catarina chegou ao dia 10 de julho com  40.106 casos e 459 óbitos pela covid-19.

E a pandemia segue em direção ao Oeste

Os três estados da Região Centro-Oeste também registram curvas ascendentes pela média móvel de mortes pela pandemia: Goiás (+74%), Mato Grosso do Sul (+56%) e Mato Grosso (+31%). E o Distrito Federal também sobe 61%.  Na capital federal, a sexta-feira (10) foi de recorde de casos registrados, 1620 – três dias depois do Distrito Federal alcançar a maior marca de óbitos: 41 em 24 horas. A capital tinha até sexta, 67.297 casos e 856 mortes. Na vizinha Goiás, o recorde – 61 mortes – também foi na terça (7/7). O estado fechou a semana com 35.191 casos e 807 mortes provocadas pela covid-19. Dados divulgados pela Secretaria Estadual de Saúde mostram também que há uma longa fila de espera, com 83.371 pessoas com suspeita de cominação, que ainda aguardam os resultados dos exame para saber se estão com o vírus.

Em Mato Grosso, o mês também começou com alta de casos e mortes: 45 mortes no recorde do dia 4 de julho, dois a mais que os 43 da véspera. Nesta sexta, o estado chegou a 981 mortes e 26.396 casos. Entre as vítimas da covid-19 em Mato Grosso,  estão 209 indígenas da etnia Xavante contaminados pelo novo coronavírus e 23 mortos pela covid-19, conforme dados do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei). Mato Grosso, apesar de ainda ter os menores números de óbitos e casos do país, enfrenta uma disparada de casos, estabelecendo uma nova marca diária nesta sexta: 590 casos em 24h, com mais 10 mortes (o recorde estadual é 16, no dia 2 de julho). O estado chegou no dia 10 de julho com 12.261 casos e 146 mortes pela covid-19.

Em todos esses estados do Sul e do Centro-Oeste, a pandemia avança das capitais para o interior como também acontece em Minas Gerais, onde o recorde de mortes foi alcançado na quinta-feira, dia 9/7, com 90 registros. Há 16 dias consecutivos, a Secretaria Estadual de Saúde contabiliza mais de mil casos. Neste dia 10 de julho, o número chegou ao recorde de 3.200 casos. Em um mês, o número de casos mineiros quadruplicou: de 17.501 no dia 10 de junho para 70.086 um mês depois. A pandemia alcança 749 cidades mineiras: 87,8% dos municípios do estado. Durante semanas, o governo estadual ignorou alertas de pesquisadores sobre a subnotificação – Minas Gerais era um dos estados com menos testes – e, agora, tenta desenvolver estratégias para evitar que a doença se espalhe pelas centenas de pequenos municípios, com precárias infraestruturas de saúde.

Ignorar alertas científicos é parte da tragédia brasileira causada pela pandemia de covid-19. Mas ainda pode ficar pior: aqueles mesmos pesquisadores do Instituto de Métricas e Avaliação da Saúde (IHME) da Universidade de Washington que projetaram com correção até o fim deste mês também previram que, no fim de agosto, o Brasil vai ultrapassar os Estados Unidos em número de mortes, chegando a 137,5 mil óbitos contra 137 mil. Para isso, a média brasileira de mortes teria que subir 50%: de 1000 para 1500 – parece improvável. Mas convém não facilitar.

Frase do dia 11 de julho

“Esperteza, quando é muita, come o dono”

Tancredo Neves (1910 – 1985)

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica crônicas sobre suas andanças pela cidade.

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2 comentários “Diário da Covid-19: Brasil mantém média de mais de mil mortes por dia há um mês

  1. Gilson Trajano disse:

    Discordo quando o autor desse texto crítica a falta de ministra, enquanto isso os estados e municípios desviando os recursos além de mentir pra alterar dados

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