Conclusões dos cientistas após detectarem coronavírus nos gatos

Gato brinca com máscara protetora: pesquisa britânica indica que felinos podem contrair vírus mas não transmitem a humanos (Foto: Freepik)

Pesquisas indicam que humanos transmitem vírus para os felinos mas eles não são vetores de transmissão para os humanos

Por The Conversation | ODS 3 • Publicada em 7 de agosto de 2020 - 09:04 • Atualizada em 13 de agosto de 2020 - 10:39

Compartilhe

Gato brinca com máscara protetora: pesquisa britânica indica que felinos podem contrair vírus mas não transmitem a humanos (Foto: Freepik)

Willie Weir*

Desde o início da pandemia de coronavírus, o papel potencial dos animais em contrair e disseminar a doença foi examinado de perto pelos cientistas. Isso ocorre porque o vírus que causa a covid-19 pertence à família dos coronavírus que causam doenças em vários mamíferos. As evidências sugerem que esse vírus surgiu em morcegos; meus colegas da Universidade de Glasgow determinaram recentemente que o subtipo de coronavírus ao qual o vírus pertence circula na população de morcegos desde a década de 1940.

Portanto, faz sentido que os pesquisadores ponderem se o vírus pode ser transmitido aos animais de estimação, se esses animais podem apresentar sintomas de infecção e se podem desempenhar algum papel na epidemiologia da doença. Os gatos são o animal de estimação mais popular do Reino Unido. Uma pesquisa de 2019 revelou que existem quase 11 milhões de felinos em residências em todo o país (no Brasil, o número de gatos domésticos passa de 23 milhões – nota do tradutor).

A preocupação pública com os felinos foi inicialmente levantada quando se descobriu que tigres e leões no zoológico do Bronx, em Nova York, estavam infectados com o SARS-CoV-2, o vírus que causa a covid-19. Também houve relatos esporádicos de gatos, que apresentaram resultados positivos para o vírus e vivem em residências com pessoas com a doença na Bélgica, França, Espanha, Estados Unidos e Hong Kong.

Então, nossa população de gatos domésticos poderia estar de alguma forma envolvida nessa pandemia? Nós decidimos descobrir.

No início de maio, meus colegas e eu recebemos aprovação ética para testar retrospectivamente gatos para o novo coronavírus (SARS-CoV-2) e o trabalho logo começou a rastrear amostras respiratórias rotineiras de gatos em todo o Reino Unido. Também lançamos um apelo aos cirurgiões veterinários solicitando amostras de casos suspeitos.

Após a triagem de centenas de amostras, esse esforço colaborativo acabou resultando na detecção de um gato com SARS-CoV-2, no sul da Inglaterra, cujo exame havia sido coletado em meados de maio. Outras amostras enviadas aos nossos colegas veterinários na Agência de Saúde Animal e Vegetal revelaram que esse gato havia desenvolvido uma resposta de anticorpos ao vírus, demonstrando que havia realmente experimentado uma infecção genuína e confirmando que não era um caso simples de contaminação da amostra.

As circunstâncias indicam que o gato contraiu o vírus de seus donos, que haviam testado anteriormente positivo para a covid-19. Nesse momento, a Organização Mundial de Saúde Animal foi notificada pela Autoridade Veterinária do Reino Unido e a imprensa foi alertada. Atualmente, estamos preparando um artigo sobre nossas descobertas para publicação.

Você deve se preocupar com o seu gato?

Então, o que esse caso nos diz? Nossa pesquisa coincidiu com o surto de covid-19 do Reino Unido e teve como foco em gatos com sintomas de doenças respiratórias. Nossa descoberta de um único indivíduo infectado entre as centenas de amostras examinadas nos diz que a infecção em gatos é relativamente incomum. Isso é reforçado pelo fato de o outro gato da mesma casa nunca ter sido infectado – nem pelos proprietários nem pelo gato infectado.

Embora o gato tenha experimentado sintomas leves, incluindo olhos escorrendo e nariz ranhoso, esses sinais também eram consistentes com a infecção pelo herpesvírus felino, para a qual esse gato também testou positivo. Não há evidências de que era efetivamente o novo coronavírus que estava deixando esse gato doente. E, felizmente, o gato e seus donos tiveram uma recuperação completa.

É importante entender que, até o momento, cerca de 18 milhões de pessoas testaram positivo globalmente para covid-19. E apenas um punhado de gatos infectados foi detectado em todo o mundo. Todas as evidências disponíveis sugerem, portanto, que os gatos não estejam envolvidos na disseminação do coronavírus. No entanto, é clara a importância desse tipo de trabalho de vigilância animal, considerando que um milhão de visons foram abatidos recentemente na Holanda e na Espanha, sob a suspeita de serem responsáveis pela disseminação da covid-19 (apesar de estar confirmado que os visons estavam contaminados pelo coronavírus, cientistas ainda estudam se os animais, criados por seu precioso pelo para a produção de casacos de pele, transmitiram a doença aos humanos – nota do tradutor).

Nossa suspeita, no caso dos gatos, é que as infecções felinas simplesmente representam um “transbordamento” da epidemia humana, e atualmente estamos analisando a sequência do genoma do vírus do caso que encontramos para investigar essa hipótese. Nossos resultados e os de outros estudos, como trabalhos nos EUA que mostram gatos infectados experimentalmente, foram apenas transitoriamente infectados, podem fornecer garantias ao público que possui animais de estimação.

É muito improvável que seu gato tenha coronavírus e, se tiver, provavelmente não será responsável pela disseminação.

*Professor de Doenças Infecciosas Veterinárias da Universidade de Glasgow (Escócia)

(Tradução de Oscar Valporto)

The Conversation

The Conversation é uma fonte independente de notícias, opiniões e pesquisas da comunidade acadêmica internacional.

Newsletter do Colabora

Nossa newsletter é enviada de segunda a sexta pela manhã, com uma análise do que está acontecendo no Brasil e no mundo, com conteúdo publicado no #Colabora e em outros sites.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *