Ódio e preconceito contra asiáticos crescem no Brasil e nos EUA

Casos vão da agressão física ao assédio verbal pela internet, mulheres são as mais atingidas

Por Luciana Werner | ODS 16ODS 3 • Publicada em 25 de maio de 2020 - 09:39 • Atualizada em 29 de maio de 2020 - 11:21

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O artista brasileiro Eduardo Kobra posa diante da sua obra Coexistencia, na cidade de Itu, em São Paulo. Foto Rebeca Reis/AGIF

Desde que o coronavírus começou a se espalhar pelos Estados Unidos, os asiáticos e seus descendentes – denominados asiático-americanos – têm sofrido por conta do ódio que surgiu com a ideia – propagada inclusive por Donald Trump – de que a China é a culpada pelo surgimento e disseminação da Covid-19. Em apenas um mês, mais de 1.500 casos de discriminação racial relacionados à doença foram registrados no país. Qualquer pessoa que tenha traços físicos semelhantes aos chineses corre o risco de ser xingada ou até mesmo agredida quando estiver na rua, num parque ou em algum dos estabelecimentos que, aos poucos, vão voltar a funcionar. No Brasil, esse preconceito também cresceu com a pandemia e o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente do país, tem uma parcela de culpa desde que fez um tuíte polêmico sobre os chineses numa tentativa de desviar a responsabilidade sobre as falhas no tratamento do surto.

Em nosso monitoramento, há indicativos de que este tipo de manifestação pode passar dos 300 mil casos desde janeiro de 2020. Qualquer pessoa que manifesta abertamente um pensamento racista ou xenofóbico estimula outras pessoas que pensam da mesma forma a se manifestarem. Quanto maior o grau de influência dessa pessoa, maior a repercussão de suas atitudes

Thomas Law
Instituto Sociocultural Brasil-China

Os dados norte-americanos são da Stop AAPI Hate, algo como Pare de ter Ódio dos Asiático-americanos e dos Habitantes das Ilhas do Pacífico (a sigla é usada com frequência nos EUA para descrever esses grupos), uma central de denúncias criada há dois meses na Califórnia. Russell Jeung, presidente do Departamento de Estudos Asiático-Americanos da Universidade Estadual de São Francisco e um dos criadores da página da Internet – que fica dentro do site do The Asian Pacific Policy and Planning Council (A3PCON) -, conta que cerca de 40% dos incidentes aconteceram na Califórnia, sendo que a metade se deu em San Francisco e cidades vizinhas, região chamada de Bay Area. Para ele, os resultados são apenas uma pequena amostra das atitudes discriminatórias que estão surgindo no país. “Estamos preocupados porque, quando todos sairmos realmente do isolamento, a tendência é de que esses incidentes aumentem”, avisou o professor.

Uma mulher e uma criança usando máscaras protetoras são vistas atravessando a rua em Chinatown, Nova York. As mulheres são as mais afetadas pelo preconceito. Foto Dia Dipasupil/Getty Images/AFP
Uma mulher e uma criança usando máscaras protetoras são vistas atravessando a rua em Chinatown, Nova York. As mulheres são as mais afetadas pelo preconceito. Foto Dia Dipasupil/Getty Images/AFP

Em São Paulo, o Instituto Sociocultural Brasil-China (Ibrachina) também criou uma central de denúncias para reunir relatos de assédio à comunidade asiático-brasileira em todo o Brasil – descendentes de chineses, japoneses, coreanos e outros povos da Ásia -, que serão entregues às autoridades. O nome do canal é #RacismoNão e as pessoas podem fazer suas denúncias através do e-mail [email protected], dando o nome da vítima, lugar e horário da agressão. Mandar vídeo ou foto documentando a história, caso haja, é importante. “Recebemos mais de 200 denúncias. Mesmo sendo brasileiros, também recebemos ataques de conteúdo preconceituoso diariamente em nossas redes sociais. Em nosso monitoramento, há indicativos de que este tipo de manifestação pode passar dos 300 mil casos desde janeiro de 2020. Qualquer pessoa que manifesta abertamente um pensamento racista ou xenofóbico estimula outras pessoas que pensam da mesma forma a se manifestarem. Quanto maior o grau de influência dessa pessoa, maior a repercussão de suas atitudes”, analisou Thomas Law, presidente do Instituto.

De acordo com Law, apenas um ato de agressão física no Brasil chegou ao conhecimento do Ibrachina até agora: uma mulher atirou álcool nos olhos de uma colega de trabalho asiático-brasileira. Na maioria, são ataques direcionados mais ao povo do que ao indivíduo. Majoritariamente nas redes sociais. Fisicamente, o caso mais polêmico ocorreu em um condomínio em São Paulo. Os administradores tentaram segregar o acesso de trabalhadores de um escritório de uma empresa chinesa, mas voltaram atrás quando o fato foi exposto “, conta ele, acrescentando que existem aproximadamente 300 mil chineses e descendentes morando na cidade de São Paulo – a maior concentração do país -, onde também vive o maior número de migrantes japoneses e descendentes.

Já segundo as denúncias recolhidas pelo site norte-americano, o assédio verbal (bullying e insultos) foi responsável por cerca de 70% dos incidentes relatados, as agressões físicas foram estimadas em 10% e as violações de direitos civis – como discriminação no local de trabalho e impedimento de negócios ou transporte – contabilizaram 8%. Outros 6% dos participantes disseram que as pessoas cuspiram ou tossiram em cima deles. As mulheres foram duas vezes mais assediadas do que os homens. Os incidentes, por enquanto, têm acontecido nas ruas, em empresas privadas, supermercados e farmácias. Nova York é o segundo estado em número de casos, seguido por Illinois.

Como o vírus foi detectado pela primeira vez em Wuhan, na China, muitos americanos passaram a se referir ao novo coronavírus como “o vírus chinês” e culpam aquele país pela disseminação mundial. O próprio presidente Trump usou o termo em entrevistas e tuítes, mas depois parou. No início de maio, notando o crescimento do problema, a senadora democrata da Califórnia Kamala Harris colocou mais lenha na fogueira e se manifestou sobre o assunto através do Twitter.  “Estamos vendo um aumento acentuado nas ameaças, sem dúvida alimentadas pelas declarações xenofóbicas de Trump. É por isso que estamos pressionando a liderança do Senado por fundos de emergência para tratar de crimes de ódio durante a pandemia”, escreveu. No Brasil, ainda no começo da pandemia, Eduardo Bolsonaro, o deputado mais votado da história do Brasil e notório admirador de Trump, acusou o governo chinês de optar por esconder a doença em vez de se arriscar a ficar com a imagem abalada. “Mais uma vez uma ditadura preferiu esconder algo grave a expor tendo desgaste, mas que salvaria inúmeras vidas. A culpa é da China e liberdade seria a solução”, escreveu no Twitter.

Para o presidente do Ibrachina, sempre haverá discriminação. “O que pode reduzir o racismo e o preconceito é o conhecimento. Quando conhecemos o outro, o diferente, passamos a entender que somos iguais em muitas coisas. Todos querem ser felizes, compartilhar coisas boas, aprender e ensinar. Estas experiências nos enriquecem culturalmente. Nos tornamos seres melhores. Quando essa barreira da ignorância é vencida, o racismo acaba caindo. De outro lado, não podemos obrigar as pessoas a gostar de outras. Porém, há limites de respeito e dignidade garantidos por lei. Nestes casos, recorre-se às medidas judiciais cabíveis”, esclareceu.

Relatos de assédio desse tipo podem ser observadas na história recente da humanidade. Por causa da Segunda Guerra Mundial, os alemães de uma forma geral ficaram marcados como responsáveis pelo nazismo e sofreram agressões pelos quatro cantos do mundo durante um bom tempo. Os atentados de 11 de setembro, nos Estados Unidos, também detonaram o preconceito contra os muçulmanos. Agora, diante da pandemia, os asiáticos são o grande alvo da intolerância, que, se não for logo combatida, pode virar mais um grave problema somado a todos os que o mundo já enfrenta.

Luciana Werner

Jornalista graduada pela PUC-Rio, trabalhou 15 anos no Jornal O Globo, onde foi repórter especial. Ocupou o cargo de editora de Cultura do Jornal O Dia e participou de projetos para empresas como Globosat e PUC-Rio. Mora em San Francisco, na Califórnia, onde continua a escrever e pretende fazer mestrado na área de sustentabilidade.

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