Covid-19: submissão a Trump desmoraliza principal órgão de saúde dos EUA

O presidente Donald Trump na Casa Branca com o diretor do CDC, Robert Redfield: pressão política sobre principal órgão de saúde dos EUA (Foto: Mandel Ngan/AFP)

Dirigentes do CDC ignoram a ciência e se curvam à pressão política enquanto pandemia avança no país e número de mortos se aproxima de 200 mil

Por The Conversation | ODS 3 • Publicada em 4 de setembro de 2020 - 08:19 • Atualizada em 4 de setembro de 2020 - 11:24

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O presidente Donald Trump na Casa Branca com o diretor do CDC, Robert Redfield: pressão política sobre principal órgão de saúde dos EUA (Foto: Mandel Ngan/AFP)

Catherine Lynne Troisi*

Os Centros para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) são a principal agência de saúde pública dos EUA desde sua fundação em 1º de julho de 1946. O CDC é responsável por garantir a saúde de todos os americanos e promover práticas de saúde pública baseadas em evidências. Também é responsável por pesquisar as causas de morte e doenças, bem como por trabalhar em formas de evitá-las. Ao longo de décadas, os americanos passaram a confiar nele para obter informações precisas.

No entanto, ações recentes do órgão levaram muitos na saúde pública a questionar a integridade e a ética dos dirigentes do CDC, já que essas medidas ignoram a ciência e se curvam à pressão política. As ações do CDC prejudicaram os esforços de saúde pública e geraram confusão e desconfiança por parte do público em geral. Os Estados Unidos seguem como o país com o maior número de casos e de mortos, que ultrapassaram a casa de 190 mil na quinta (03/09).

Como epidemiologista, especializada em doenças infecciosas, passei minha carreira na academia e na prática de saúde pública estudando como os vírus infectam as pessoas e testando populações para determinar a infecção e imunidade atuais. Acho a politização das orientações vindas do CDC perturbadora, para dizer o mínimo. O conselho mais recente – e não baseado na ciência – é uma mudança na recomendação de quem deve fazer o teste de covid-19. Veja o que aconteceu e por que é tão importante – não apenas para especialistas em saúde pública, mas para o público.

Testar é a chave para conter o vírus

Especialistas em saúde pública aprenderam muito sobre o novo coronavírus e a covid-19 desde que o vírus apareceu pela primeira vez. Eles aprenderam, por exemplo, que cerca de 4 em cada 10 pessoas infectadas nunca apresentarão sintomas – mas podem infectar outras pessoas sem saber. Além disso, pessoas infectadas que desenvolverão sintomas podem espalhar a doença um a dois dias antes de esses sintomas ocorrerem. Essas são duas das razões pelas quais o vírus é tão difícil de conter.

As evidências sugerem que testes generalizados de pessoas sem sintomas reduziriam muito a propagação do vírus, permitindo que as pessoas saibam que estão infectadas e façam uma auto-quarentena. Os contatos desses casos assintomáticos podem ser identificados e testados pelos mesmos motivos. Esta tem sido a recomendação do CDC desde que os primeiros estudos começaram a mostrar a transmissão assintomática.

Fila para realização de testes para a covid-19 em Los Angeles: orientações desencontradas do CDC sobre testagem são alvo de críticas dos especialistas em saúde pública (Foto: Robyn Beck)
Fila para realização de testes para a covid-19 em Los Angeles: orientações desencontradas do CDC sobre testagem são alvo de críticas dos especialistas em saúde pública (Foto: Robyn Beck)

Mas o CDC, em 24 de agosto de 2020, mudou de rumo e recomendou testar apenas as pessoas com sintomas de covid-19. Muitos especialistas em saúde pública ficaram chocados. Testar apenas aqueles que apresentam sintomas deixará de perceber quase metade dos infectados. Dois dias depois que as diretrizes revisadas foram discretamente alteradas no site do CDC, o diretor Robert Redfield esclareceu que aqueles que entram em contato com pacientes de covid-19, confirmados ou prováveis, ​​podem ser testados mesmo na ausência de sintomas.

As novas diretrizes no site do CDC promovem confusão e permanecem inalteradas. Os estados de Arizona, Califórnia, Connecticut, Flórida, Illinois, Texas, Nova Jersey e Nova York já anunciaram que não seguirão as novas diretrizes do CDC, mostrando melhor compreensão dos benefícios do teste do que nossa instituição nacional de saúde pública.

Orientação da Casa Branca

Essa nova recomendação veio da Força-Tarefa para Coronavírus da Casa Branca, e o CDC aderiu. O imunologista Anthony Fauci, membro da força-tarefa e chefe do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, estava sendo submetido a uma cirurgia nas cordas vocais quando a força-tarefa se reuniu em 20 de agosto e decidiu sobre a mudança.

A Associação Americana de Saúde Pública denunciou que a mudança foi feita sem consulta efetiva aos profissionais de saúde pública trabalhando no local para controlar a pandemia. A Organização Mundial da Saúde continua apoiando o teste de pessoas assintomáticas. Quase todas as organizações de saúde pública pediram uma reversão da diretriz.

É uma decisão particularmente incoerente, dado que a falta de acesso a testes adequados tem sido um problema constante nos Estados Unidos e criou sérias barreiras para o controle da pandemia. Sem dados de teste, os epidemiologistas estão voando às cegas. Sem saber quem está infectado, não temos uma imagem de quantas pessoas infectadas existem na comunidade e como o vírus está sendo transmitido.

Identificar aqueles que podem ter sido expostos ao vírus é o fundamento lógico para o rastreamento de contatos – encontre casos, identifique contatos que possam ter sido infectados, peça-lhes que fiquem em quarentena e teste-os para o vírus. Os testes são essenciais para controlar a disseminação de doenças infecciosas.

O pensamento parece ser que, se você não testar, o número de casos diminuirá.

Claramente, isso é verdade apenas no sentido político. Sim, o número de casos notificados diminuirá, mas o número de pessoas infectadas não. Ao não identificar aqueles que estão infectados, mas não apresentam sintomas, a disseminação do vírus aumentará, pois aqueles, que não sabem que estão infectados, infectam outros.

O presidente  Donald Trump disse que “gosta dos números onde eles estão”. E acrescentou, em um comício de campanha em Tulsa, que diria a seu pessoal para “desacelerar os testes”.

Uma série de brigas

O CDC esteve no meio de uma luta política muitas vezes durante esta pandemia. Em maio, foi revelado que o CDC vinha acrescentando testes de anticorpos, marcador de infecção anterior, ao número de testes de PCR, marcador de infecção atual, realizados. Isso fez parecer que mais testes para detectar a infecção pelo coronavírus haviam sido realizados do que o número real.

Em julho, os dados de hospitalização, historicamente relatados ao CDC e usados por departamentos de saúde e pesquisadores em todo o país para entender a pandemia, desapareceram do site do órgão quando os relatórios foram transferidos para um contratante privado. Os dados reapareceram alguns dias depois, mas o sumiço momentâneo levantou preocupações de que isso prejudicaria a capacidade do CDC de coletar e analisar esses dados.

Em outro momento, o governo pressionou o CDC a reescrever suas diretrizes para a reabertura de escolas com segurança. Isso foi feito, embora, mais uma vez, as diretrizes não refletissem o conhecimento científico atual.

O mundo está agora no meio da pior pandemia em mais de um século. Os Estados Unidos têm 4,4% da população mundial, mas 24% dos casos covid-19. Obviamente, não estamos indo bem, e a falta de confiança na orientação do CDC, bem como a mudança constante de mensagens, está prejudicando nossos esforços para controlar o vírus. Não é de se admirar que o público esteja confuso sobre o que deveria estar fazendo.

Não é um bom presságio se nós, americanos, não podemos mais confiar nos conselhos e diretrizes emanados de nossa entidade nacional de saúde pública, não apenas para os esforços de controle desta pandemia, mas também para futuras questões de saúde.

Eu respondo a perguntas sobre covid-19 semanalmente no rádio. Algumas semanas atrás, uma pessoa que ligou me perguntou se poderíamos confiar nas informações que saíam do CDC. Nunca pensei que estaria em uma posição em que não pudesse dar um “sim” inequívoco. Quando a política vencer a ciência, a saúde pública não poderá cumprir sua missão e todos sofrerão.

*Catherine Lynne Troisi é prrofessora de Epidemiologia do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Texas e integração da direção executiva da Associação Americana de Saúde Pública

(Tradução de Oscar Valporto)

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