Calmante pode ajudar a tratar dependentes de drogas

Testes preliminares feitos na UFPR mostram que uso de Diazepam seria eficaz no bloqueio de neurotransmissor que leva ao abuso no uso de cocaína

Por Vanessa Fajardo | ODS 3ODS 4 • Publicada em 24 de julho de 2019 - 08:00 • Atualizada em 25 de julho de 2019 - 15:02

Compartilhe

Claudio Cunha, professor do departamento de farmacologia de UFPR, lidera as pesquisas com calmantes e tratamento de drogas na universidade. Foto Maros Solivan/UFPR
Claudio Cunha, professor do departamento de farmacologia de UFPR, lidera as pesquisas com calmantes e tratamento de drogas na universidade. Foto Maros Solivan/UFPR

Um tipo específico de calmante pode ajudar no tratamento contra a dependência no uso de drogas, como crack e cocaína. Este é um dos resultados preliminares identificados em pesquisa realizada com cobaias nos laboratórios de neurociência da Universidade Federal do Paraná (UFPR), iniciada há mais de dois anos e publicada em dois artigos pela revista científica ACS Chemical Neuroscience.

Leia mais reportagens da série #100diasdebalbúrdiafederal

Os benzodiazepínicos, entre os quais o mais famoso é o Diazepam, mostraram ser capazes de bloquear a dopamina, um neurotransmissor que ajuda a gerar um ciclo de abuso contínuo das drogas. Segundo a pesquisa, o medicamento promoveu no cérebro dos ratos o efeito de baixar a liberação da dopamina que age como um propulsor do vício e fortalece a opção pela droga com a recompensa da sensação.

LEIA MAIS: Universidade usa maconha para tratar Alzheimer e Parkinson

LEIA MAIS: Presidente da SBPC: Investimentos em Ciência retrocedem 15 anos

Responsável pela pesquisa, o professor do departamento de farmacologia de UFPR, Cláudio da Cunha, explica que a dopamina tem várias funções no cérebro. “Ela manda para o cérebro se o que a pessoa está fazendo era esperado ou teve consequências melhores ou piores. Quando é melhor, os níveis de dopamina aumentam. Quando é pior, eles caem.” As drogas de abuso, segundo ele, provocam a liberação de dopamina sem o cérebro ter necessariamente o que esperava. “É uma armadilha. Se a droga for fumada ou injetada, vai chegar mais rápido ao cérebro e causa aumento na liberação da dopamina.”

Os remédios fazem os pacientes perderem a vontade de tudo, por isso não é o tratamento ideal. Não à toa as drogas são um problema social, e o vilão é o descontrole na liberação de dopamina. O que se busca é o controle sobre isso, o meio termo

Claudio Cunha
Pesquisador

O pesquisador afirma que os tratamentos contra dependência existentes hoje, tanto de natureza psicológica quanto de farmacológica, têm eficácia baixa porque só 25% dos usuários de crack e cocaína deixam de usar a droga de novo no prazo de dois anos.

Outro problema é que os antipsicóticos usados no tratamento bloqueiam a dopamina e têm como efeito colateral uma apatia profunda. “Os remédios fazem os pacientes perderem a vontade de tudo, por isso não é o tratamento ideal. Não à toa as drogas são um problema social, e o vilão é o descontrole na liberação de dopamina. O que se busca é o controle sobre isso, o meio termo”, diz Cunha.

Teste em ratos

Para fazer os testes, os pesquisadores da UFPR utilizaram ratos do laboratório da instituição destinados para os experimentos. Foi inserido no cérebro dos animais sedados um sensor muito pequeno – mais fino do que um neurônio – para mensurar os efeitos do uso do diazepan. A expectativa era de que o medicamento fosse aumentar a liberação da dopamina, mas surpreendentemente ele causou uma diminuição.

O diazepan é uma droga usada em tratamentos contra a ansiedade e tem a vantagem de ser “segura” e “não tóxica.” O pesquisador esclarece que ela não tem o poder de comprometer as funções vitais dos pacientes, provocando paradas respiratória ou cardíaca. “Ela é usada como tranquilizante, ingerida em doses maiores provoca sono. Também é usada na anestesia geral para aumentar a segurança no processo de anestesia.”

O corte de verbas também é um fantasma que ronda a UFPR. Todos temem a demissão de funcionários e a interrupção de pesquisas. Foto divulgação
O corte de verbas também é um fantasma que ronda a UFPR. Todos temem a demissão de funcionários e a interrupção de pesquisas. Foto divulgação

As pesquisas mostraram que os efeitos colaterais do uso do calmante são pequenos, se comparados ao uso de drogas, como sonolência, alteração na coordenação motora, impossibilitando o paciente de dirigir, por exemplo. A principal consequência, entretanto, é que o medicamento pode causar uma dependência. Por isso, os pesquisadores testarão agora uma outra droga, a progesterona.

Nova droga em humanos

A próxima fase da pesquisa prevê testes em pacientes internados por dependência de uso de crack e cocaína. O objetivo é reunir 60 pessoas, que serão voluntárias, para testar como a progesterona responde à liberação da dopamina. Metade dos pacientes receberão doses da progesterona e outra metade, um placebo. Serão dois meses de tratamento e um monitoramento que vai durar dois anos para analisar as recaídas.

Cunha reforça que diferentemente do Diazepan, a progesterona não causa dependência. “O Diazepan exigiria o uso de forma contínua, a pessoa pararia com o crack e a cocaína, mas teria de usá-lo. Por isso, com a progesterona estamos buscando uma alternativa.”

O pesquisador reforça que o resultado da UFPR apresenta apenas um indício da eficácia do uso do Diazepan. “Não estamos sugerindo que ninguém use esse tratamento. Quem vai dizer se ele é ou não recomendado é a Anvisa , depois de olhar os resultados. Até lá ninguém é indicado a usar, até porque o Diazepan tem uso controlado. O máximo que a pessoa pode fazer é conversar com seu médico.”

Cortes no orçamento

Doutor em bioquímica, Cunha também coordena o biotério da universidade, local que tem entre outras funções criar e manter os animais destinados às pesquisas. Ele atende o setor de ciências biológicas da UFPR e, segundo o pesquisador, 25% de toda a produção científica da instituição dependem desses animais. O professor diz se preocupar muito com o corte no orçamento das universidades federais anunciado pelo Ministério da Educação e no impacto dele sobre as pesquisas.

“Se não houver um retorno da verba contingenciada podemos ficar sem funcionários. Sem animais no biotério, por exemplo, não tem como seguir adiante. Temos vários outros projetos sobre depressão, diabetes, Parkinson, Alzheimer que dependem do funcionamento do biotério. Estamos enfrentando uma situação terrível com os cortes, não teremos dinheiro para pagar funcionários terceirizados até o final do ano.”

68/100 A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse período, a importância  das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil

Vanessa Fajardo

Jornalista, trabalha com temas principalmente ligados à educação. Já passou pelas redações do G1, Portal de Notícias da TV Globo, e dos jornais Agora SP e Diário do Grande ABC. Atua como colaboradora da BBC Brasil, Folha de SP, Porvir, Universa e Revista da Gol.

Newsletter do Colabora

Nossa newsletter é enviada de segunda a sexta pela manhã, com uma análise do que está acontecendo no Brasil e no mundo, com conteúdo publicado no #Colabora e em outros sites.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *