Brasil teve 62 mil mortes a mais do que a média dos últimos cinco anos

Vista aérea do cemitério de Nossa Senhora Aparecida, em Manaus. No Amazonas, o número de mortes em comparação com os anos anteriores superou a marca dos 80%. Foto Michael Dantas/AFP

Estudo da ONG Vital Strategies mostra que má gestão da pandemia de covid-19 levou ao excesso de óbitos no país

Por Rosane Marinho | ODS 3 • Publicada em 3 de agosto de 2020 - 19:52 • Atualizada em 5 de agosto de 2020 - 17:56

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Vista aérea do cemitério de Nossa Senhora Aparecida, em Manaus. No Amazonas, o número de mortes em comparação com os anos anteriores superou a marca dos 80%. Foto Michael Dantas/AFP

A baixa testagem para covid-19 no Brasil e em vários outros países é causa da subnotificação de casos e mortes pela doença. Saber o tamanho desta subnotificação exige estudos específicos de soro prevalência. Entretanto, é possível estimar o impacto da covid-19 na mortalidade analisando o excesso de mortes, que reflete o impacto da doença na população, direta ou indiretamente.

A organização Vital Strategies, ONG internacional de saúde pública, presente atualmente em 22 países, elaborou estudo sobre o excesso de mortalidade no Brasil, regiões, estados e capitais. Segundo o relatório da ONG, realizado a partir dos dados de mortalidade publicados no Portal de Transparência do Registro Civil, morreram no Brasil, no período de 12 semanas, entre 12 de março e 6 de junho deste ano, 62.490 mil pessoas a mais que a média dos últimos cincos anos para o mesmo período. Um excesso de mortalidade de 22%.

“Todos os anos no Brasil são esperadas cerca 1.200 mil mortes por causas naturais. Aqui entram as doenças do sistema circulatório e do sistema respiratório, por exemplo. O que vimos com este levantamento é um aumento desta mortalidade em mais de 62 mil pessoas. Cidadãos que não morreriam se não fosse pela má gestão da pandemia. Alguns estados chegaram a registrar mais de 80% de excesso de mortes, comparado com o mesmo período dos anos anteriores, como o Amazonas. Uma tragédia sem precedentes no país”, afirma Fátima Marinho, médica epidemiologista, especialista sênior da Vital Strategies e uma das autoras do relatório.

Para a doutora Marinho, este levantamento é fundamental para conhecer o estado da epidemia no Brasil. Onde ela está matando mais, direta ou indiretamente, e onde ainda não chegou com força e assim criar uma estratégia de prevenção em saúde pública, que não olhe somente para a covid-19 porque as pessoas estão morrendo por falta de assistência e por outras causas de morte. O estudo inclui todas as faixas de idade, de 0 a 59 anos e acima de 60, e todos os estados do país.

O presidente Jair Bolsonaro mostra uma caixa de hidroxicloroquina para os apoiadores na frente do Palácio da Alvorada. Foto AFP
O presidente Jair Bolsonaro mostra uma caixa de hidroxicloroquina para os apoiadores na frente do Palácio da Alvorada. Foto AFP

Segundo o relatório, nas primeiras semanas da pandemia, as regiões mais afetadas foram as Norte, Nordeste e Sudeste. Entre as semanas 12 e 23, ocorreram na região Sudeste 25.883 mortes a mais do que o esperado, um 20% do total. No Nordeste do país, ocorreram 22.860 óbitos a mais do que o esperado, representando 31% de excesso de mortes, proporcionalmente maior que no Sudeste. E região Norte do país, ocorreram no mesmo período 10.779 óbitos a mais que o esperado, correspondendo a um excesso de mortes de 59% acima do que seria previsto para o período.

“Esta diferença de mortalidade se deve à enorme desigualdade na qualidade da assistência médica entre as regiões e os determinantes sociais, a extrema desigualdade que expõe mais a população pobre ao vírus. Se analisamos somente os dados do Amazonas, vemos que ali houve picos de até 325% de excesso de mortes na semana de 19 a 25 de abril” – contabiliza a doutora Fatima Marinho.  “Todas essas mortes em excesso eram evitáveis, não deveriam ter ocorrido, muita gente poderia estar viva hoje. Não é o destino, foi má gestão da epidemia. Essas mortes não são um simples número em uma estatística. São famílias que perderam um pai, uma mãe, um irmão… que sequer tiveram direito ao luto, corpos sepultados em covas coletivas” – lamenta.

Se comparamos Rio de Janeiro e São Paulo, os cariocas vivem uma tragédia maior que os paulistas. No Rio, o excesso de mortes chegou a 96% na semana de 3 a 9 de maio, em São Paulo houve 27% de óbitos a mais do que o esperado, nessa mesma semana. A subida rápida das mortes no Rio de Janeiro e uma subida mais suave em São Paulo, mostra que a estrutura do atendimento médico no estado do Rio de Janeiro apresentou muitos problemas, impactando no aumento rápido da mortalidade e no excesso de mortes, também. O subemprego afeta mais a população do Rio, levando a um aumento da exposição ao vírus pela necessidade da população pobre, que vive em áreas mais afastadas ter que se locomover em transporte público lotado por mais tempo, foi no Rio que uma grande quantidade de motoristas de ônibus adoeceram e morreram pela covid-19.

O excesso de mortalidade entre os menores de 60 anos foi igual ou superior aos maiores de 60 anos em muitas regiões, como no Sudeste, o excesso de mortes foi de 26% entre os menores de 60 anos e 17% entre os maiores de 60 anos. Outro dado importante do estudo é que mais uma vez se comprova uma mortalidade maior entre homens que entre as mulheres. Desde uma perspectiva de gênero, vemos que os homens assumem um comportamento de risco maior que as mulheres. Muitos se acham invencíveis e, quando tem algum sintoma, relutam em buscar ajuda médica. Quando buscam, muitas vezes é tarde. Por outro lado, o homem pobre vivendo em áreas distantes e nas favelas tem que sair mais de casa para trabalhar, garantir sua subsistência e de sua família, nesse sentido está mais exposto à infecção pelo novo coronavirus. Isso pode explicar por que homens com menos de 60 anos morreram mais que as mulheres no mesmo grupo etário. Por exemplo, no Brasil o excesso de óbitos entre homens com menos de 60 anos foi de 20% enquanto entre as mulheres foi de 11%.

O estudo feito pela Vital Strategies confirma o avanço da epidemia para estados que até o momento foram menos atingidos, como o Centro-Oeste e o Sul. Esperamos que as lições aprendidas possam ser aplicadas agora para criar estratégias de prevenção, de testagem e isolamento dos casos positivos, evitar mortes e sofrimento. Que a população pobre seja cuidada, que se trabalhe para evitar esta calamidade ou essa será mais uma crônica de muitas mortes anunciadas.

Rosane Marinho

É jornalista, carioca, e há dez anos vive em Zaragoza, na Espanha. No Rio, trabalhou como fotógrafa na sucursal da Folha de São Paulo, em seguida no Jornal do Brasil e foi correspondente do O Globo em Recife. Na Espanha, é professora de fotografia digital e continua trabalhando como jornalista freelancer. Casada, é mãe de dois pequenos hispano-brasileiros.

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