Menos chuva leva Amazônia a registrar mais doenças respiratórias

Pesquisadores da UFRJ constatam que diminuição das chuvas na Região Amazônica aumenta número de internações por doenças respiratórias

Por Faperj | ods13 ods3 • Publicada em 6 de março de 2020 - 08:00 • Atualizada em 14 de março de 2020 - 10:24

Destruição causada pela fogo na Amazônia: associação entre seca e queimadas causa impacto ainda maior no número de internações por doenças respiratórias (Foto Rodrigo Baleia/Greenpeace)

*Juliana Passos

A Região Amazônica está cada vez mais seca, e a diminuição da quantidade de chuvas tem influência direta na saúde da população, com reflexo no aumento de 27% nas internações provocadas por doenças respiratórias. Essa foi a conclusão de um estudo realizado pelo Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (Lasa) do Departamento de Meteorologia do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A equipe trabalhou com dados de satélite e da estação em terra coletadas pelo Instituto de Controle do Espaço Aéreo (Icea), ligado ao Ministério da Defesa, cruzados com o número de internações fornecidas pelo Sistema Único da Saúde (SUS) na cidade de Porto Velho.

As alterações dos padrões de seca que geram mais internações pode estar associado ao desmatamento, às queimadas e outros impactos antropogênicos relacionados às mudanças climáticas e globais. As queimadas são prejudiciais ao ecossistema, mas nosso estudo mostrou que elas têm menor impacto no número de internações que as secas, porque houve uma rara dissociação entre as queimadas e as secas no período estudado. Quando ambas são associadas, o efeito pode ser ainda mais intenso

Fausto Machado da Silva
Pesquisador da Departamento de Meteorologia do Instituto de Geociências

A pesquisa resultou em artigo na revista Ecological Indicators, publicado na edição de fevereiro. “Os dados reunidos para a pesquisa são de Porto Velho, por ser a cidade de maior densidade populacional da Amazônia legal e a terceira maior em população da Região Norte”, explica Fausto Machado da Silva, um dos coordenadores do estudo. Ele contou com bolsa de pós-doutorado da FAPERJ para o desenvolvimento do trabalho, que também foi financiado pelo Instituto Serrapilheira, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

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O biólogo acrescenta que a capital do estado de Rondônia também é a cidade com os dados meteorológicos mais completos da região, lembrando que a mesma sofreu grandes desmatamentos desde a década de 1970.  “Percebemos que o período de seca está cada vez mais severo e prolongado. E as internações relacionadas a doenças respiratórias ocorrem principalmente nos períodos de seca, enquanto as queimadas ocorrem ao longo do ano”, diz o pesquisador, fazendo ressalvas sobre o impacto das queimadas no aumento do número de internações. “As alterações dos padrões de seca que geram mais internações pode estar associado ao desmatamento, às queimadas e outros impactos antropogênicos relacionados às mudanças climáticas e globais. As queimadas são prejudiciais ao ecossistema, mas nosso estudo mostrou que elas têm menor impacto no número de internações que as secas, porque houve uma rara dissociação entre as queimadas e as secas no período estudado. Quando ambas são associadas, o efeito pode ser ainda mais intenso”, comenta.

A redução do desmatamento e a recuperação de áreas degradadas são importantes e poderiam diminuir os efeitos locais das oscilações climáticas e da intensidade de uma seca local.

Fausto Machado da Silva
Pesquisador do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da UFRJ

Outro dado que chama a atenção é a diminuição das internações por asma com o aumento da seca. “Nesse caso, a queda da natalidade na região, entendida como um fator de maior planejamento familiar e, consequentemente, do aumento do IDH [Índice de Desenvolvimento Humano], que aponta melhoria social, também influenciaram na diminuição do número das internações”, disse.

O trabalho também aponta para o impacto das mudanças climáticas para a população mais pobre e a necessidade da manutenção da vegetação para garantir a integridade do ciclo hidrológico para a conservação de corpos d’ água e umidade do ar, regulada pela evapotranspiração das plantas. “A redução do desmatamento e a recuperação de áreas degradadas são importantes e poderiam diminuir os efeitos locais das oscilações climáticas e da intensidade de uma seca local. Também entendemos que os investimentos em áreas sociais são importantes, uma vez que as cidades mais afetadas são cidades com menor IDH”, conclui o pesquisador.

*Da Faperj

A série #100diasdebalbúrdiafederal terminou, mas o #Colabora vai continuar publicando reportagens para deixar sempre bem claro que pesquisa não é balbúrdia.

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