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Amamentar, um ato político

Pôr em cena o peito é um antídoto ao pensamento opressor, que investe na censura e no controle das diferenças


Juliana Krapp amamenta sua filha Lia / Foto: Rovena Rosa (acervo pessoal)

Até os 35 anos, tudo o que eu já havia ouvido falar sobre amamentação poderia ser resumido em poucas palavras e imagens. Plenitude feminina, instinto, canjica, Malzbier. O ar plácido da atriz que sorri nas propagandas em prol do aleitamento materno, enquanto as bochechas do bebê cobrem pudicamente seu mamilo. A memória da minha própria mãe, que teve delírios de febre quando seu leite empedrou. A proibição peremptória de chocolate, álcool, casca de feijão.

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Mas eu não sabia, por exemplo, que o leite dos meus primeiros dias como mãe não seria em nada parecido ao que dita o senso comum. Em vez do líquido branco e espesso, o que me brotava nos peitos eram gotinhas de uma secreção rala e insossa. Até o curso para grávidas, ninguém nunca havia me dito que aquilo — chama-se “colostro” — é nada menos que uma das substâncias mais fundamentais à preservação da espécie humana. Vacina natural, rica em nutrientes e anticorpos, e à qual provavelmente devemos o fato de termos ultrapassado os últimos milhares de anos. Apesar disso, muitas pessoas tentaram me convencer de que, por ter essa aparência, meu leite seria “fraco”, e então eu deveria oferecer fórmulas em pó para minha bebê (o obscurantismo aliado aos interesses do mercado, como se sabe, não nasceu durante as eleições de 2018).

Também nunca haviam me contado que o gosto, o cheiro e a aparência do leite humano mudam o tempo todo. Que um bebê precisa abocanhar toda a aréola do mamilo para que sugue com eficácia. Que uma mulher pode sentir o leite sendo produzido dentro de suas mamas — sensação singular, diferente de todas as outras. Que amamentar dá uma sede excruciante. E que, a despeito disso, é provável que ninguém nunca te ofereça um copo d’água.

Tampouco haviam me dito que a amamentação seria uma das experiências mais difíceis da minha vida. E, também, uma das mais transformadoras.

Em parte, porque amamentar envolve dor, perda de liberdade, exaustão, um aprendizado árduo e traiçoeiro. Um tipo profundo de solidão e, ao mesmo tempo, um exercício radical de alteridade. Mas também porque mergulha cada uma de nós na constatação aterradora do silêncio que ainda envolve o corpo feminino.

Você, leitor, provavelmente sabe que há água na lua e que Shakespeare morreu de câncer em 1616, mas não o que é colostro. Conhecemos de cor mais informações sobre os dinossauros, que foram extintos há 65 milhões de anos, do que sobre o que acontece de fato com uma mulher que amamenta. A ciência já foi capaz de criar um organismo vivo com DNA totalmente sintético — mas ainda não de dizer com exatidão quantas tulipas de chope uma mãe pode tomar até que o álcool chegue ao leite em quantidades expressivas.

(A esse respeito, aliás, importante frisar: canjica não aumenta a produção de leite. Lactantes podem comer chocolate. E meu primeiro ano como mãe foi muito mais feliz porque, sim, eu bebi cerveja).

Em pleno século 21, a amamentação no Brasil ainda é um tema quase invisível. Assunto dominado por tabus, interditos, silêncios, estereótipos, preconceitos, superstições. Como é, afinal, quase tudo o que se refere ao corpo das mulheres. Como a menstruação e o clitóris, como a menopausa e a ejaculação vaginal. Como a violência doméstica.

Um corpo que amamenta em público é perturbador porque restitui à mulher seu papel de protagonista

Juliana Krapp
Mãe da Lia

No país em que meninos vestem azul e meninas vestem rosa, um corpo de mulher que amamenta é um corpo incômodo. Após a primeira ou segunda consulta da minha filha, a pediatra tentou me ensinar uma espécie de amarração, com uma fralda de pano, para que eu não expusesse o seio enquanto amamentava. Teria sido infinitamente mais útil que tivesse me ensinado a amarrar um carregador de pano do tipo wrap.

Um corpo que amamenta em público é perturbador porque restitui à mulher seu papel de protagonista no ato de trazer ao mundo uma criança. A autoridade médica vem se empenhando há tempos em roubar da mãe sua autonomia durante o parto. Amarrada à maca, obrigada a permanecer numa posição pré-determinada, repreendida por gritar de dor, com a vagina rasgada a bisturi, à sua revelia, a mulher brasileira foi perdendo a liberdade de parir. Não à toa, o Brasil vive uma epidemia de cesarianas. A forma como parimos e amamentamos — ou melhor, a maneira como as mulheres foram sendo tiradas de foco no parir e no amamentar — diz muito sobre a lógica patriarcal, autoritária e perversa que rege nosso país.

A quem interessa, porém, que estejamos criando pessoas autônomas e conscientes dos efeitos de seus atos?

Juliana Krapp
Mãe da Lia

Pois um corpo de mulher que pare e que amamenta é não apenas incômodo, como perigoso. A amamentação não tem o papel apenas de alimentar. Crianças que mamam no peito crescem com mais autonomia e independência. Por não receberem o alimento de forma passiva, tendem a ser mais criativas e atentas: buscar e sugar o peito exige que cresçam ativas. E, também, que se confrontem desde cedo com os desafios da alteridade. À medida que adquirem força e mordem a mama, ouvem o grito de dor e sentem o corpo da mãe se retrair. A quem interessa, porém, que estejamos criando pessoas autônomas e conscientes dos efeitos de seus atos? A quem interessa que mulheres e crianças tenham contato com sua própria potência?

Quem me chamou atenção para esse enlace entre alteridade e amamentação foi a psicóloga de um banco de leite. Profissional que me acolheu dentro de uma unidade pública de saúde quando, após uma semana de choro convulso e nenhuma hora de sono, admiti que não estava conseguindo amamentar minha recém-nascida. E aqui valem novos parênteses. O país onde a amamentação é tema quase invisível tem uma rede de bancos de leite humano considerada referência mundial. Um trabalho de excelência do Sistema Único de Saúde, o SUS.

Neste país de tantas contradições, os interditos do aleitamento materno se entretecem à trama de silêncios que acoberta a segregação social e racial de nosso cotidiano. Embora a Organização Mundial de Saúde recomende a amamentação exclusiva até os seis meses do bebê, milhares de brasileiras são obrigadas a retornar ao trabalho tão logo seus filhos venham ao mundo. Trabalhadoras informais, empregadas domésticas, biscateiras. Milhares delas, aliás, não terão um trabalho a retomar. A fome vai secar o seu leite. O trabalho de casa e o desalento, as condições precárias de vida vão assombrar suas mamadas.

Eu gostaria de afirmar que amamentar é, hoje mais do que nunca, um ato político. Pôr em cena o corpo, o peito, a busca natural por autonomia: antídoto ao pensamento opressor e tacanha, ao poder que investe na censura, na morte e no controle das diferenças. Quem pode, porém, se dar ao luxo de fazer da amamentação um ato político, e não de sobrevivência? No Brasil, a amamentação ainda é um direito de muito poucas.

Enquanto escrevo este relato, uma mulher amamenta seu bebê sentada no chão do banheiro de uma rodoviária. Outra veste os filhos do patrão enquanto sente sua blusa ficar molhada pelo leite que lhe escorre das mamas, inutilmente. Esta narrativa pessoal que vocês leem é a de uma mulher branca, repleta de privilégios. A única coisa que talvez nos irmane é o fato de que nossas experiências lembram muito pouco a placidez das mulheres que amamentam nos cartazes — e que, em nossas jornadas de amamentação, dificilmente alguém irá oferecer um copo d’água.


Escrito por Juliana Krapp

Jornalista que gosta de ziguezaguear entre as pautas de cultura e de saúde. Autora bissexta de textos literários e mãe da Lia, de 4 anos.

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