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‘Mídia brasileira não fez o seu papel’, diz Glenn Greenwald

Jornalista americano participou do debate sobre vazamentos e prospecção de dados no Festival 3i


Glenn Greenwald: "Tem uma facção dentro desse país que é muito poderosa". Foto Lauro Neto
Glenn Greenwald: “Tem uma facção dentro desse país que é muito poderosa”. Foto: José Cícero da Silva/Festival 3i

O jornalista Glenn Greenwald afirmou, neste sábado, que o Ministro da Justiça, Sergio Moro, liderou uma facção que exerceu o poder por cinco anos. A declaração foi dada durante o debate “O trabalho do jornalista: vazamentos, prospecção de dados e tecnologia”, parte da programação do Festival 3i, na Fundição Progresso. Segundo Glenn, Moro era o líder da força-tarefa da Lava Jato, coordenando as ações dos procuradores. A forte fala do americano ocorreu no mesmo dia em que ele publicou a 22ª reportagem da série #VazaJato no The Intercept Brasil (TIB), questionando se Moro também era chefe da Polícia Federal enquanto era juiz, já que teria coordenado operações da PF, ordenando inclusive busca e apreensão na casa de suspeitos sem aprovação do Ministério Público.

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“Tem uma facção dentro desse país que é muito poderosa. Essa facção conseguiu exercer o poder durante 5 anos sem ser questionada, investigada, desafiada. Estou falando sobre a facção liderada pelo ex-juiz e agora ministro da Justiça, Sergio Moro, e a equipe dele, os procuradores da força-tarefa Lava Jato. Agora sabemos que ele era o chefe da força-tarefa. Sabemos que essa facção é muito poderosa. Eles conseguiram botar na prisão, por muitos anos, tirando a liberdade, de muitas pessoas, políticos, empresários, inclusive conspirando para ajudar a tirar a presidente eleita desse país, Dilma Rousseff, conspirando abertamente para ajudar isso. E também botou na prisão o ex-presidente que estava liderando todas as pesquisas nas eleições de 2018.  Isso é muito poder”, disse Glenn.

O jornalista norte-americano destacou a importância da imprensa livre para a democracia e questionou o papel da maioria dos veículos de mídia brasileiros, que, segundo ele, foram apoiadores da Lava Jato sem questionar seus procedimentos. Boa parte da imprensa que hoje questiona a publicação das mensagens vazadas do Telegram de autoridades pelo TIB também já lançou mão de expediente similar ao publicar delações e informações sob sigilo vazadas por procuradores, juízes, policiais federais e outras autoridades.

“Acho, como cidadão, que não tem nada mais perigoso para uma democracia do que deixar uma facção poderosa exercer poder sem ser questionada, investigada, desafiada. Esse é o papel mais nobre da imprensa livre. Ninguém é tão benevolente que possamos confiar para exercer poder sem transparência e investigação. Infelizmente, nos últimos 5 anos, a grande mídia brasileira – com poucas exceções – não fez esse papel, mas o oposto: se comportaram como parceiros, ajudando, aplaudindo tudo o que eles fizeram. Acreditando em tudo que falavam. Isso é muito perigoso”, ele avaliou.

Marcel Gomes, da ONG Repórter Brasil: "Várias marcas famosas tiveram envolvimento com trabalho escravo. Não basta apenas monitorar e mostrar o que está acontecendo". Foto Lauro Neto
Marcel Gomes, da ONG Repórter Brasil: “Várias marcas famosas tiveram envolvimento com trabalho escravo. Não basta apenas monitorar e mostrar o que está acontecendo”. Foto: José Cícero da Silva/Festival 3i

O caso Wahsington Post

Glenn conta que quando recebeu “o arquivo enorme com os segredos dessa fação poderosa” não havia outra alternativa que não fosse publicar o material. Para explicar a sua decisão, ele contou um caso em que o Washington Post recebeu documentos secretos roubados de um prédio do FBI na Pensilvânia, em 1971, por um grupo de oito ativistas. Segundo o jornalista norte-americano, o objetivo do grupo era comprovar a suspeita de que agentes estavam se infiltrando entre ativistas em defesa da igualdade racial para espioná-los. Eles enviaram o material ao Washington Post, informando que haviam descoberto um programa ilegal de espionagem contra cidadãos americanos, mas o jornal se recusou a publicar e entregou os documentos ao FBI.

“O jornal ligou para o FBI, disse que havia recebido documentos roubados e, como não era ético publicá-los,  ia devolvê-los. Nos EUA, isso é considerado um dos episódios mais vergonhosos da história do jornalismo, pois o jornal se comportou como policiais. Mas havia um repórter que sabia que aquela decisão era errada. Ele lutou um ano contra os editores e finalmente persuadiu o Washington Post a reportar esse programa de espionagem. Esse jornalista informou ao público o que o governo estava fazendo contra a lei, e conseguiram impedir e parar com esse tipo de espionagem ilegal. O Congresso fez muitas leis para proibir esses tipos de espionagem”, contou Glenn. “Quando recebemos o arquivo da Vaza Jato, sempre soubemos que era nossa obrigação como jornalistas publicar essas informações de interesse público. Os resultados estão mostrando que era a única decisão correta que jornalistas de verdade poderiam tomar”.

“Os dados, assim como as pessoas, também mentem”

Também participante do debate, Giannina Segnini, Diretora do Mestrado em Jornalismo de Dados da Universidade de Columbia, em Nova York, falou sobre a importância de que os vazamentos sejam usados como ponto de partida para uma investigação mais ampla. Ela destacou que pessoas que vazam informações sigilosas podem ter interesses políticos e econômicos, sendo necessário, portanto, tomar cuidado para os jornalistas não serem manipulados.

“Trabalhei nos casos do WikiLeaks e do Panama Papers. Acredito no poder desses vazamentos. Mas tenho uma posição bastante crítica porque isso pode nos manipular. Por mais que seja de interesse  público, é importante usar os vazamentos como ponto de partida para depois fazer uma investigação para buscar mais dados e ir mais além desse universo que está sendo vazado”,  disse Giannina.

Trabalhei nos casos do WikiLeaks e do Panama Papers. Acredito no poder desses vazamentos. Mas tenho uma posição bastante crítica porque isso pode nos manipular. Por mais que seja de interesse  público, é importante usar os vazamentos como ponto de partida para depois fazer uma investigação para buscar mais dados e ir mais além desse universo que está sendo vazado

Giannina Segnini
Diretora de Mestrado na Universidade de Columbia

Ela também lidera o Columbia Journalism Investigations, uma equipe de pós-graduandos que investigam histórias colaborativas transfronteiriças usando dados. Em 1993, começou a investigar a corrupção na Costa Rica, seu país de origem. As reportagens comprovaram subornos pagos a três ex-presidentes. Em 2009, ela sugeriu modificar a unidade de investigação para trabalhar com dados, incorporando à equipe estatísticos, geógrafos, cientistas de dados e programadores. Giannina ressaltou a necessidade de colaboração entre jornalismo e tecnologia, mas também as dificuldades dessa relação:

“O jornalismo de dados é uma base para a apuração, para o uso de ferramentas jornalísticas. Desconfiar é fundamental no jornalismo: assim como as pessoas mentem, os dados também podem mentir”.

Empresas investigadas por trabalho escravo

Mediadora do debate, Natalia Viana, co-diretora da Agência Pública, falou da parceria com a ONG Repórter Brasil no projeto Por Trás do Alimento, sobre o uso de agrotóxicos no Brasil. Marcel Gomes, secretário-executivo da ONG coordenou pesquisas sobre impactos socioambientais da cadeia de produção agropecuária e de biocombustíveis. Ele chamou a atenção sobre os impactos causados por reportagens investigativas na reputação de grandes empresas.

“Várias marcas famosas tiveram envolvimento com trabalho escravo. Não basta apenas monitorar e mostrar o que está acontecendo. É preciso mostrar quem é responsável. Uma das estratégias é o monitoramento das cadeias produtivas. Não basta contar simplesmente que os problemas estão acontecendo. Essas investigações são complexas, baseadas cada vez mais na análise de dados. Organizar essas informações é muito importante para o jornalismo, construindo a própria base de dados”, disse Marcel.


Escrito por Lauro Neto

Carioca, mas cidadão do mundo. De carona na boleia de um caminhão ou na classe executiva de um voo rumo ao Qatar, sempre de malas prontas. Na cobertura de um tiroteio na cracolândia do Jacarezinho ou entrevistando Scarlett Johansson num hotel 5 estrelas em Los Angeles, a mesma dedicação. Curioso por natureza, sempre atrás de uma boa história para contar. Jornalista formado na UFRJ e no Colégio Santo Inácio. Em 11 anos de jornal O Globo, colaborou com quase todas as editorias. Destaque para a área de educação, em que ganhou o Prêmio Estácio em 2013 e 2015. Foi colunista do Panorama Esportivo e cobriu a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016.

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