Inclusão, tolerância e diversidade x atraso e opressão, clássico sem fim na Euro

O gesto racista do austríaco Marco Arnautovic, no jogo contra a Macedônia do Norte: “cabeça quente”. Foto Daniel Mihailescu/AFP

Torneio europeu de seleções carrega agendas sociais do continente, com racismo, xenofobia e homofobia atravessando as disputas esportivas

Por Aydano André Motta | ODS 16 • Publicada em 3 de julho de 2021 - 02:46 • Atualizada em 23 de julho de 2021 - 11:47

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O gesto racista do austríaco Marco Arnautovic, no jogo contra a Macedônia do Norte: “cabeça quente”. Foto Daniel Mihailescu/AFP

Em estádios de almanaque, com gramados impecáveis, iluminação cinematográfica, toda a estrutura possível e alguns dos melhores jogadores da Terra, o planeta bola assiste, na Eurocopa, ao clássico entre o atraso e o progresso. A competição de seleções – goleada de qualidade na mequetrefe “Cova” América realizada no Brasil da covid-19 – emoldura disputas sobre homofobia, racismo, intolerância, política. Porque nunca será só futebol.

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As agendas do continente mais rico entraram em campo explicitamente, ecoando a polarização que espreita a humanidade. E os cartolas ficaram com o papel mais constrangedor. A Uefa, organizadora do torneio, tentou reprimir atos em defesa da tolerância, com o patético pretexto da proibição de manifestações políticas. Gol contra total.

Estádio alemães iluminados com as cores do arco-íris: resistência à intolerância. Fotos da AFP
Estádios alemães iluminados com as cores do arco-íris: resistência à intolerância. Fotos da AFP

Na seleção dos vilões, o atacante Marco Arnautovic não se constrangeu em comemorar um gol contra a Macedônia do Norte, na primeira fase, com o gesto supremacista que une indicador e o polegar (o mesmo feito por Filipe Martins, assessor de Bolsonaro, numa sessão do Senado brasileiro, em março). A ofensa tinha como alvo o lateral adversário Gjanni Alioski e nasce no sarapatel geopolítico da Europa. O austríaco é de origem sérvia e o macedônio, albanesa. Os dois países mantêm posições antagônicas em relação à independência do Kosovo.

Depois do jogo, o conterrâneo de Hitler suou a camisa para se refugiar na luta esportiva, falando em “momento acalorado”. E jurou o de sempre: “Não sou racista”. A Macedônia do Norte pediu punição severa ao atacante e a Uefa seguiu o protocolo, comunicando a abertura de investigação.

A entidade continental é, até agora, a grande perdedora da Eurocopa. Flácida no enfrentamento à onda de intolerância, prioriza os eventos e os patrocinadores na frente das lutas por respeito e liberdade. Especialmente no Leste Europeu – mas na face ocidental do continente também – racistas e homofóbicos gritam, mas eles, seus clubes e seleções recebem no máximo punições brandas. Ou, em versão mais autêntica: impunidade.

Escondidos atrás da proibição de manifestações políticas, os cartolas tomaram olé constrangedor na briga em que se meteram, contra as manifestações pelo Dia do Orgulho LGBT+. Começou pela Allianz Arena, estádio icônico em forma de pneu do Bayern de Munique e sede alemã da Euro de 11 cidades, concebida para comemorar os 60 anos da competição. A Uefa proibiu a iluminação nas cores do arco-íris, numa ingerência que enfureceu os alemães e sua turbinada autoestima. A reação não tardou: vários estádios pelo país se acenderam nas cores da inclusão.

A neutralidade política é titular absoluta no time das mentiras dos poderosos da bola. “A Uefa não hesita em se comunicar politicamente quando é do seu interesse, mas quando não é, proíbe toda e qualquer manifestação”, resume Gerd Wenzel, especialista em futebol europeu e colunista do DW.com. A hipocrisia virou combustível para a atitude dos poucos jogadores que ostentam cidadania. O goleiro alemão Manuel Neuer, um dos melhores do mundo, usou a braçadeira de capitão nas cores do arco-íris, enfrentando a repressão da cartolagem. Golaço.

“Ao se posicionar contra uma manifestação que prega a tolerância, a Uefa não se mantém neutra, como quer fazer supor. Ela se posiciona ao lado dos intolerantes”, aponta Kelen Cristina, colunista do Estado de Minas. “E há questões em que os atores do futebol, como formadores de opinião, precisam, sim, se posicionar”.

Mas a vitória está longe. A Hungria do primeiro-ministro de ultradireita Viktor Orbán abriu o estádio Ferenc Puskás, em Budapeste, ao público como se pandemia não houvesse. Nos dois jogos em casa na fase de grupos, a plateia atrás dos gols foi ocupada pela Brigada dos Cárpatos, fanáticos que se vestem de preto, bradam intolerância e usam gestos nazistas em suas saudações. Na derrota para Portugal em 15 de junho – mesmo dia em que a legislação anti-LGBT foi aprovada no país -, a turba exibiu faixas e entoou cânticos intolerantes dentro do estádio, mirando o astro Cristiano Ronaldo.

Jogadores de Inglaterra e Escócia superam rivalidade histórica e se ajoelham em protesto contra o racismo em Wembley. Foto Facundo Arrizabalaga/AFP
Jogadores de Inglaterra e Escócia superam rivalidade histórica e se ajoelham em protesto contra o racismo em Wembley. Foto Facundo Arrizabalaga/AFP

Antes do empate de 1 a 1 com a França, integrantes do grupo marcharam até o estádio atrás de uma faixa crítica à atitude de algumas seleções – Inglaterra, Escócia e a própria França entre elas -, que se ajoelharam no protesto clássico antirracista. No mesmo jogo, Pogba, Kanté, Mbappe (negros) e Benzema (muçulmano) foram alvos de xingamentos racistas e xenófobos. A reação das autoridades? Cri, cri, cri…

Politizações e saias justas à parte, a Eurocopa chegará ao fim no domingo 11, numa apoteose esportiva inescapável. Há quem enxergue o copo meio cheio, com o aumento de ídolos estrangeiros ou com raízes coloniais nas seleções cada vez mais miscigenadas. Mas o atraso está longe de tomar o merecido cartão vermelho. Ficarão pelo caminho, como um jogo inconcluso, as demandas sociais de um continente rico, sim – e problemático também.

P.S.: Para os brasileiros com inveja do público nas arquibancadas, a Organização Mundial de Saúde constatou o aumento nas infecções por covid-19, por causa das aglomerações esportivas, nos países que sonhavam estar vencendo a crise sanitária. Açodamento, o nome da derrota.

Aydano André Motta

Niteroiense, Aydano é jornalista desde 1986. Especializou-se na cobertura de Cidade, em veículos como “Jornal do Brasil”, “O Dia”, “O Globo”, “Veja” e “Istoé”. Comentarista do canal SporTV. Conquistou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa em 2012. Pesquisador de carnaval, é autor de “Maravilhosa e soberana – Histórias da Beija-Flor” e “Onze mulheres incríveis do carnaval carioca”, da coleção Cadernos de Samba (Verso Brasil). Escreveu o roteiro do documentário “Mulatas! Um tufão nos quadris”. E-mail: [email protected] Escrevam!

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