
Iara foi desenvolvida com o objetivo de entender como funciona o cérebro humano. E, para chegar lá, a equipe do professor Alberto Ferreira, coordenador da pesquisa, entrou pelos olhos. “É ousado querer entender como funciona um órgão tão complexo como o cérebro, mas, na ciência, a gente faz assim. Um médico, por exemplo, pode optar por tentar resolver a cura do câncer, que é algo muito audaz. Esse objetivo está longe, então a gente quebra o problema em pedaços menores, até chegar a fronteira do conhecimento”, explicou Alberto. “Como escolhemos estudar e compreender o funcionamento do cérebro, nesse processo de pegar o problema e reduzir o tamanho, começamos a estudar a parte da visão”, completou.
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Veja o que já enviamosFerreira acrescentou que o estudo começou com imagens estáticas para entender como o cérebro reage. “A pesquisa foi iniciada em 2009. No ano seguinte, nós desenvolvemos um robô que faz reconhecimento de faces e ficou entre os melhores projetos do mundo. Também produzimos um sistema que consegue perceber a profundidade a partir de duas câmeras que imitam dois olhos. Nós usamos essa capacidade para medir distância e volume. Virou até produto e hoje esses robôs são utilizados para medir pilhas de minério.”, contou Alberto.
Depois de um tempo o grupo decidiu que precisava ir além das imagens estáticas. “Pensamos: onde tem um problema de visão que é relevante para sociedade e que é difícil? Nisso, surgiu a ideia do carro autônomo”, contou. “Começamos colocando sensores em carros de passeio de alunos mesmo, depois evoluímos, conseguimos recurso para pesquisa e tenho que agradecer muito a Fundação Amparo do Estado do Espírito Santo, ao CNPQ, CAPES, FINEP. Todos esses órgãos ajudaram a gente até aqui”, declarou o professor. “Graças aos resultados anteriores, publicações, financiamento, conseguimos comprar um carro em 2012. Tivemos que importar porque precisávamos trabalhar com carro híbrido – elétrico e a combustão – e não tinha no Brasil. Modificamos ele para poder controlar eletronicamente, ou seja, conseguir acelerar, usando comando de computador; frear, virar volante, tocar buzina, ligar seta”, acrescentou.
O grupo começou a desenvolver tecnologia e softwares para que Iara pudesse começar a entender o mundo ao seu redor e ter ideias de visão. “Sempre focamos na ideia de primeiro implementar o estado da arte. Qual a melhor técnica que tem para resolver esse problema? O carro autônomo precisa saber onde ele está no mundo, por isso se utiliza o mapa. Qual a melhor tecnologia que tem para mapa? A gente implementava para fazer a mesma coisa usando modelos neurais e desse modo fomos resolvendo cada problema que o carro precisava”, afirmou. “Depois precisa ter mapa para que o carro funcione. Ele tem que ser capaz de criar mapas e o mundo externo. Em seguida, regulamos ele para que compreendesse como se controlar no volante, algo parecido com a direção humana”, concluiu.
Claro que a Iara teve que aprender a detectar coisas do mundo real que são necessárias e importantes para que ela possa transitar sem prejudicar a sociedade. “Regulamos para que o carro aprenda regras de trânsito as placas, se o semáforo está vermelho, verde ou amarelo, as faixas na pista, pedestres, regras de interação. Foram vários sistemas neurais implantados como sensores pelo carro, todos responsáveis por compreender esses aspectos do externo”, finalizou.
O primeiro desfile de Iara foi pelo campus principal da Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória, num percurso de cerca de quatro quilômetros. Depois de outros testes em circuito fechado, Iara viajou, em 2017, 74 quilômetros da capital capixaba até Guarapari, também no litoral capixaba, passando por três municípios, a uma velocidade média de 45km/h.
O carro autônomo idealizado pelo grupo já está despertando interesse de indústrias brasileiras. Segundo Alberto Ferreira, empresas como Vale e Embraer ficaram interessadas Iara e estão acompanhando o processo de desenvolvimento de perto. “O grupo está dando continuidade à pesquisa e aperfeiçoando a Iara sempre que a gente pode”, disse Ferreira, que coordena no LCAD, professores, doutorandos, mestrandos e estudantes de graduação dos cursos de Ciência da Computação, Engenharia de Computação, Engenharia Elétrica e Informática.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”none” size=”s” style=”solid” template=”01″]10/100 A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse período, a importância das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil.
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