É comum olhar para o presidente dos Estados Unidos e afirmar que Donald Trump é negacionista das mudanças climáticas. O próprio costuma reciclar sua retórica afirmando e reafirmando que o aquecimento global é “hoax” – ou seja, uma farsa em bom português. Só que não. O desaparecimento do gelo no Ártico, a redução significativa das geleiras no Canadá e o derretimento de parte dos mantos de gelo da Groenlândia são imprescindíveis para a estratégia de negócios de Trump que cobiça explorar petróleo e minérios nessas regiões do mundo.
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“Parece que o presidente Trump não só quer, como precisa que o aquecimento global acelere”, analisa o climatologista Carlos Nobre, que, logo após a posse do presidente americano, em março do ano passado, quando iniciou seu segundo mandato, publicou um artigo onde levantava o seguinte questionamento: “Negacionismo ou estratégia? O verdadeiro jogo climático de Trump”. De lá para cá, a indagação de Nobre, copresidente do Painel Científico para a Amazônia e um dos autores do documento científico entregue aos negociadores presentes a COP30, vem sendo respondida.
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Veja o que já enviamosO Canadá detém a terceira ou quarta maior reserva comprovada de petróleo no mundo, a Groenlândia possui vastas reservas de petróleo e gás natural ainda inexploradas no Ártico, e a Venezuela, dona das maiores reservas de petróleo comprovadas do mundo, foi invadida pelos EUA no começo de janeiro desse ano – e Trump não fez, na ocasião, nenhuma questão de disfarçar seu interesse econômico.
“Negacionistas são aqueles que não acreditam que mudanças climáticas estão acontecendo ou não acreditam que elas podem trazer riscos para a humanidade”, comenta Nobre, esclarecendo que não é o caso de Trump. Os negacionistas raiz, aqueles que defendem uma posição anticientífica, costumam defender que os eventos extremos do clima sempre existiram.
O futuro será das energias sustentáveis
Em seu artigo, Nobre destacou que o derretimento do gelo no oceano Ártico servirá para abrir novas rotas marítimas para China e Rússia, o que permitirá aos Estados Unidos transportar mercadorias para a Europa e as Américas sem a necessidade de cruzar o oceano Pacífico ou o Canal do Panamá.
Os Estados Unidos são o país que mais investiu em ciência climática no último século – um quarto dos cientistas envolvidos nos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) são americanos. Logo no começo do ano, Trump anunciou a retirada de 31 organizações pertencentes às Nações Unidas (ONU), entre elas o próprio IPCC.
Ao voltar ao poder, saiu novamente do Acordo de Paris, como já havia feito no seu primeiro mandato. “A ofensiva americana ocorre num momento em que o mundo está vivendo uma situação climática muito diferente daquela após a Segunda Guerra Mundial, quando fora criada a própria ONU com o objetivo de prevenir futuros conflitos globais e promover a cooperação internacional – pilares do multilateralismo que não interessam a Trump”, argumentou Nobre.
Para o físico Paulo Artaxo, que assim como Nobre assinou o documento dos cientistas entregue aos negociadores na COP30, por mais que o lobby da indústria de petróleo continue forte, é inegável que os investimentos em energias renováveis estão crescendo no mundo todo.
A base científica está aí e ela não será destruída
O relatório da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) referente a 2025 mostrou que os investimentos totais em energia limpa foram de US$ 2,2 trilhões, ou seja, praticamente o dobro do investimento em combustíveis fósseis naquele ano. Por mais que Trump venha tentando impor ao mundo seu imperialismo energético, Artaxo, membro do IPCC e vencedor do prêmio Nobel da Paz de 2007, comenta que “o futuro será das energias sustentáveis” – citando países como Alemanha, Inglaterra e China que estão investindo pesado nas renováveis.
Apesar da tentativa de Trump de promover um apagão de informações e pesquisas sobre clima, Artaxo admite que o desfinanciamento vai, sem dúvida, trazer prejuízos para a ciência climáticas, mas chama atenção para o fato de que outros países estão tomando à dianteira nas pesquisas sobre o tema. O Brasil é um exemplo, com o Fundo Clima, assim como a China, a União Europeia, o Reino Unido. Os setores que estão concentrando o maior volume de pesquisa são os de transição energética, adaptação climática e tecnologias de carbono.
O vácuo deixado pelos Estados Unidos nas pesquisas climáticas tem sido ocupado por outros países e por instituições, como é o caso do serviço climático Copernicus, da União Europeia. Segundo o órgão, o período de 2023 a 2025 foi o primeiro triênio em que a temperatura média global excedeu o limite de 1,5oC e concluiu que esse aumento pode ser alcançado de forma geral até o final desta década, dez anos antes do previsto na época da adoção do Acordo de Paris, em 2015.
Diretora da Coppe/ UFRJ, a cientista Suzana Kahn – que, assim como Nobre e Artaxo, é membro do IPCC – não acredita que as investidas imperialistas de Trump 2.0 tenham o poder absoluto de prejudicar ainda mais o enfrentamento das mudanças climáticas. “A base científica está aí e ela não será destruída”, analisa, comentando que o 2º e o 4º relatórios do IPCC foram definidores dessa base científica. Divulgado em 1995, o 2º relatório, por exemplo, foi um marco histórico, porque estabeleceu o primeiro consenso científico sobre a influência humana no clima.
