Professora indígena denuncia preconceito de colegas em escola não indígena

Glycya Macuxi relata racismo de outros professores e desafios ao inserir saberes ligados aos povos indígenas nas aulas

Por Micael Olegário | ODS 4
Publicada em 15 de janeiro de 2026 - 09:40  -  Atualizada em 15 de janeiro de 2026 - 10:45
Tempo de leitura: 9 min

Leis estabelecem a obrigatoriedade de trabalhar temas relacionados aos povos indígenas; realidade impõe desafios para promover esses saberes em escolas não indígenas (Foto: Arquivo Pessoal)

“Muita terra para pouco índio”.“Índio não produz nada”. Essas são algumas das frases que Glycya Makuxi, 31 anos, escutou em uma das escolas em que atua como professora de História, na zona rural de Cantá, interior de Roraima. O preconceito não veio dos estudantes, crianças e jovens ainda em formação e com maior chance de serem influenciados por desinformações relacionadas aos povos indígenas, mas de colegas professores.

As frases racistas foram ditas em meio à discussão sobre a aprovação da tese do marco temporal pelo Senado Federal, no início de dezembro de 2025. Antes disso, outras situações semelhantes já haviam ocorrido. “Quando nem os professores apoiam os povos indígenas, perdemos enquanto sociedade”, escreveu a indígena, em publicação que repercutiu nas redes sociais após o episódio.

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Psicóloga e também comunicadora, Glycya conta que costuma adotar uma abordagem paciente e contra-argumentar sem qualquer agressividade aos comentários preconceituosos. Ainda assim, a indígena do Povo Macuxi se sente isolada no ambiente de trabalho. 

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“Me faz falta essa liberdade de ser quem eu sou enquanto indígena, culturalmente. Eu não tenho um colega para conversar, para compartilhar. A atuação de pessoas indígenas em escolas não indígenas é muito solitária”, conta Glycya, natural da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. 

Junto dos desafios relacionados às relações interpessoais, a professora relata dificuldade em trabalhar saberes e temas ligados aos povos originários nas salas de aula. Por temor de represálias, ela ainda não fez uma denúncia formal, mas afirma que pretende reunir evidências para enviar à ouvidoria local.

Estou buscando inserir todos os assuntos sobre indígenas que foram ignorados pelo professor anterior, explicando, desde o período colonial como realmente foi

Glycya Makuxi
Professora, psicóloga e comunicadora

Passei a não ir na hora do intervalo pra sala dos professores, eu fico na sala de aula. Quando tem algo obrigatório, converso com a merendeira, com assistente de aluno, mas não chego nesse espaço onde está todo mundo, porque eu sempre me estresso”, explica Glycya.

A reportagem do #Colabora entrou em contato com a Secretaria de Educação de Cantá com questionamentos sobre medidas para combater o racismo e preconceitos contra indígenas, professores ou estudantes, nas escolas do município. Até o momento da publicação, ainda não obtivemos retorno.

Dificuldade em trabalhar temática indígena

Desde abril do último ano, quando foi aprovada em um concurso público, Glycya atua com oito turmas em duas escolas diferentes. Antes, ela já havia sido professora, mas apenas em escolas indígenas. “Meus pais são professores e os dois são lideranças”, recorda, ao descrever fios entrelaçados da sua trajetória na educação.

“Quando eu cheguei ninguém era indígena, ninguém falava: ‘Eu sou indígena, professora’. Agora, no final, já tem gente querendo participar de projetos de identidade”, descreve a docente. Ao perceber o receio dos estudantes em se reconhecerem indígenas, ela começou a trabalhar mais temas e assuntos relacionados aos povos originários.

A professora de História relata ainda ter notado “olhares tortos” ao abordar temáticas indígenas e ambientais, por exemplo, ao propor discussões em sala de aula sobre as mudanças climáticas e a COP30 (Conferência das Partes da ONU sobre Mudança do Clima), realizada em Belém (PA). “Às vezes, estou ensinando uma coisa séria na sala de aula, os alunos estão entendendo, mas vem um outro professor e fala que é besteira”, lamenta. 

Glycya atribui parte destes desafios ao contexto do município de Cantá e à influência do agronegócio na região e no estado de Roraima. “É um município com poucas comunidades indígenas. Ao redor é (tudo) agronegócio, aqui mesmo, na vila onde eu tô morando, tem uma plantação de soja”, complementa.

Glycya Makuxi atua como professora e comunicadora; transformar o imaginário dos alunos sobre os povos indígenas é um de seus objetivos (Foto: Arquivo Pessoal)

Escolas indígenas e não indígenas

“O tempo da escola indígena é diferente, a metodologia é diferente, os alunos são diferentes. Eu senti que na escola indígena, não preciso me provar o tempo todo”. A percepção de Glycya evidencia as diferenças entre dois modelos distintos de ensinar e trabalhar a educação, o que afeta também educadoras e educadores.

Porém, as adversidades não diminuem a determinação de Glycya em ocupar espaço em escolas não indígenas. Para ela, isso é essencial para que os estudantes dessas instituições, sejam eles indígenas ou não, tenham acesso à diferentes perspectivas e formas de aprender sobre o mundo.

“Estou buscando inserir todos os assuntos sobre indígenas que foram ignorados pelo professor anterior, explicando, desde o período colonial como realmente foi. Agora, eles (alunos) sabem que foi uma invasão. Eu falo: se tu está dentro da tua casa, chega alguém e toma o teu território, é o quê? É conquista?”, exemplifica a docente. Para 2026, a intenção dela é trabalhar também com a História a partir de grafismos indígenas.

Políticas públicas

O Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e o Ministério da Educação (MEC) foram consultados para comentar o tema e responder perguntas acerca das iniciativas para facilitar a inclusão de professores indígenas em escolas não indígenas. O MPI não retornou aos nossos últimos contatos.

Por e-mail, o MEC respondeu que “não existem políticas ou iniciativas para facilitar o ingresso e adaptação de professores indígenas em escolas não indígenas”. Segundo o Ministério, o objetivo principal de sua atuação é fortalecer e garantir a educação escolar indígena e a existência de escolas indígenas, como forma de estruturar os processos formativos a partir da centralidade do território para o bem viver dos povos.

A resposta menciona ainda os esforços para aprimorar a formação superior de indígenas. “Vale destacar as iniciativas na forma de ações afirmativas para o acesso de indígenas aos cursos de graduação das Instituições Federais por meio da Lei de Cotas, o que ampliou as oportunidades de formação em diversas licenciaturas que possibilitam atuarem nas escolas indígenas e não indígenas”, diz trecho da nota do MEC.

Sobre as situações de racismo e preconceito contra professores em escolas, o texto do Ministério atribui isso aos traços da colonização presentes em todas as instâncias da sociedade. A nota cita a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena, instituída pela Lei nº 11.645/2008, e orientações da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) que tratam dessas temáticas.

“A BNCC oferece sugestões para que as escolas abordem a temática indígena de forma crítica, reflexiva e antirracista, como: I – utilizar materiais didáticos produzidos por autores indígenas; II – promover atividades interdisciplinares sobre a temática indígena (contos, músicas, artes, debates); III – convidar representantes indígenas para palestras ou rodas de conversa; IV – discutir questões contemporâneas, como demarcação de terras e lutas por direitos”, aponta outro trecho da nota do MEC.

Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestrando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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