Isabelle Clérié: memória, dignidade e o poder da juventude do Haiti

Entre herança familiar e ação coletiva, antropóloga desafia a narrativa da impotência e revela força transformadora dos jovens haitianos

Por Camila Batista | ODS 10ODS 16
Publicada em 19 de janeiro de 2026 - 09:42  -  Atualizada em 19 de janeiro de 2026 - 12:00
Tempo de leitura: 16 min

Isabelle Clérié em entrevista sobre o Haiti: trabalho para ajudar a mobilizar e garantir a autoestima da juventude haitiana (Foto: Reprodução / YouTube)

Sou fã de Mona Guérin, poeta, dramaturga, feminista e uma das intelectuais mais potentes do Caribe. Nascida em Porto Príncipe, construiu uma obra profundamente comprometida com o crescimento intelectual e a libertação das mulheres haitianas. Suas personagens eram mulheres rebeldes, curiosas e inquietas, em busca de conhecimento em um mundo que insistia em lhes negar espaço. Sua mensagem era clara e insistente: a emancipação feminina não é um luxo intelectual, mas uma necessidade política.

Esse pensamento nasceu de um território concreto. 

Ruas estreitas serpenteiam entre casas de cores vibrantes e construções desgastadas pelo tempo; praças comerciais, onde o cheiro de frutas maduras, peixes e temperos se mistura ao burburinho incessante da cidade, contrastando com avenidas silenciosas, onde prédios abandonados lembram as cicatrizes de décadas de conflitos.

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Porto Príncipe, a capital do Haiti, é uma cidade com uma história intensa e complexa. Um lugar onde beleza e dureza coexistem, onde o riso, a música e a colaboração persistem lado a lado com o luto, a violência e a instabilidade política.

Algumas vítimas voltavam. Outras não. Corpos apareciam à beira das estradas. Prisões eram comentadas em sussurros, antes de começar as aulas

Isabelle Clérié
Antropóloga e ativista haitiana

O Haiti está localizado no Caribe, dividindo a ilha de Hispaniola com a República Dominicana. É a primeira república negra do mundo, nascida da revolta bem-sucedida de pessoas escravizadas, um feito extraordinário que abalou o mundo e cuja história, desde então, tem sido marcada por intervenções estrangeiras, dívidas impagáveis e ciclos contínuos de violência política. Cada esquina, cada edifício, cada praça carrega marcas dessa história, algumas bastante visíveis, outras inscritas na memória coletiva do povo haitiano.

A história da cidade é também a história de seu povo: solidário e inventivo. É a partir dessas duas forças que começa a história de Isabelle.

Isabelle Clérié veio ao mundo em um momento de intensa celebração. Nasceu em 1987, apenas um ano após a queda de uma ditadura de quase 30 anos no Haiti. Muitos acreditavam que o Haiti vivia, enfim, um renascimento democrático. Foi o ano da promulgação de uma nova Constituição, que estabelecia liberdades fundamentais e alimentava a esperança de um futuro diferente.

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Em vez de estabilidade, porém, sua infância se desenrolou em meio a sucessivas crises políticas, de segurança e humanitárias, marcadas por frequentes vacâncias de poder. Em 1990, o país viveu uma eleição democrática; um ano depois, um novo golpe militar desencadeou a intervenção dos Estados Unidos. O entusiasmo que cercou o período de seu nascimento foi, pouco a pouco, substituído pela frustração e pela incerteza.

A instabilidade política tornou-se uma constante, atravessando décadas. Esse ciclo prolongado resultou, inclusive, na criação da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH), que permaneceu no país até 2017. Um símbolo da fragilidade institucional e da dificuldade histórica de consolidar a democracia.

Soldado brasileiro resgata um bebê durante a tempestade tropical Noël no Haiti, em 2007: força internacional da ONU no país abalado por furacões, terremotos e violência (Foto: Marco Dormino / ONU)

Aqui um parêntesis… Você sabia que desde sua implementação, a missão teve seu braço militar sob o comando do Brasil, oficialmente encarregado de conter a violência e a instabilidade política local? Ao longo desses anos, cerca de 37.500 militares brasileiros, entre eles 213 mulheres, atuaram no país, fazendo da presença internacional uma experiência prolongada e cotidiana para a população haitiana.

Eu ainda não tinha o vocabulário para nomear dinâmicas de poder, colonialidade ou desigualdades estruturais. O que tinha era o desconforto e a recusa em aceitar certos padrões como normais

Isabelle Clérié
Antropóloga e ativista haitiana

Na adolescência de Isabelle, os sequestros eram uma ameaça constante. Estratégicos, direcionados, calculados. As famílias viviam com a certeza de que a segurança havia se tornado um atributo privado: cada um precisava cuidar da sua. “Algumas vítimas voltavam. Outras não. Corpos apareciam à beira das estradas. Prisões eram comentadas em sussurros, antes de começar as aulas”.

A violência não era exceção. Era cotidiana. 

Isabelle cresceu ouvindo histórias dos anos 1990, quando a gasolina era escassa. As pessoas a compravam em galões de plástico nas ruas, filtrando-a com panos antes de colocá-la nos carros, uma rotina improvisada em meio à instabilidade.

Ela atravessou esse cenário de embargos, medo e incerteza enquanto estudava em um colégio americano, originalmente criado para missionários dos Estados Unidos vivendo em Porto Príncipe, um espaço onde experimentou, ainda jovem, a violência silenciosa da condescendência e racismo.

No cotidiano escolar, via haitianos de contextos vulneráveis serem desrespeitados. Mesmo quando eram tratados “com gentileza”, essas aspas vinham carregadas de desumanização: ajuda com discriminação, solidariedade sem escuta, proximidade sem dignidade.

Aos 17 anos, Isabelle fez uma promessa a si mesma. Dedicaria sua vida a um trabalho que tornasse esse tipo de desumanização impossível. 

“Eu ainda não tinha o vocabulário para nomear dinâmicas de poder, colonialidade ou desigualdades estruturais. O que tinha era o desconforto e a recusa em aceitar certos padrões como normais.”

Filha de pais politicamente engajados, Isabelle cresceu em um ambiente em que educação e compromisso social caminham juntos. Sua mãe, professora e pioneira da pedagogia Montessori no Haiti, fundou uma das primeiras escolas do método na região. A proposta de formar cidadãos conscientes de seu contexto deixou uma marca profunda em Isabelle e ajudou a moldar seu olhar crítico desde cedo.

Mais tarde, Isabelle mudou-se para os Estados Unidos para cursar a universidade, onde viveu por sete anos. Ela fala inglês com um sotaque marcadamente americano, moldado pela televisão, pela escola e pela vida no país, mas nunca se viu como “imigrante”. Estava ali para aprender, observar e compreender sistemas por dentro.

Sua trajetória acadêmica reflete essa curiosidade e rigor: dois mestrados, um em gestão de organizações sem fins lucrativos e outro em antropologia. Sua pesquisa girava em torno de uma pergunta que a acompanhava desde cedo: Por que o setor humanitário falha tão frequentemente com as próprias comunidades que diz servir?

O que ela encontrou, repetidas vezes, foram dinâmicas de poder quebradas. Decisões tomadas longe dos territórios afetados. Soluções performáticas. Expectativas baixas disfarçadas de elogio. Eficiência sacrificada em nome do salvacionismo.

Na antropologia, seu trabalho evoluiu para uma crítica profunda às práticas de desenvolvimento, não apenas a partir da teoria, mas da experiência vivida. Ela observou como as comunidades aprendiam a “jogar o jogo”, aceitando o que era oferecido, quisessem ou não aquilo. Não por passividade, mas porque sobreviver exigia isso.

Então, em 12 de janeiro de 2010, tudo mudou.

Na sua primeira semana de aula da pós-graduação nos Estados Unidos, um terremoto devastou o Haiti. “A comunicação colapsou. As notícias demoraram. Quando as imagens finalmente apareceram, a primeira que vimos foi a foto do Palácio Nacional completamente destruído. Naquele momento, eu e minha irmã entendemos o impensável: qualquer pessoa podia estar morta.”

Sua família sobreviveu. Muitas não.

Em estado de choque, Isabelle fez o que sempre fez instintivamente: organizou. Mobilizou recursos, coordenou doações, conectou-se com redes humanitárias, acompanhou pessoas sem parar. Sem perceber, estava exercendo o tipo de liderança que marcaria sua vida:  enraizada, urgente, coletiva.

Alguns anos depois, outro ponto de virada emergiu, ancorado na memória e na busca por justiça.

Todos os anos, a família de Isabelle realizava um pequeno encontro no aniversário do desaparecimento de seu avô, um entre tantos que desapareceram durante a ditadura. Era um gesto íntimo, quase silencioso, de lembrança e luto.

Não conheço nenhum jovem haitiano que não faça parte de alguma associação voltada para o bem comum.

Isabelle Clérié
Antropóloga e ativista haitiana

Em 2013, ao completar cinquenta anos do desaparecimento de seu avô, a família decidiu organizar uma missa em sua homenagem. O que começou como um ato privado de memória transformou-se, a partir de uma ideia simples e despretensiosa, em um convite para homenagear não apenas seu avô, mas também outras pessoas desaparecidas e assassinadas.

A missa lotou uma das maiores igrejas de Porto Príncipe. Havia pessoas em pé, inclusive do lado de fora. Gente chorando como se estivesse, finalmente, enterrando seus entes queridos décadas depois. Sobreviventes começaram a falar publicamente, pela primeira vez, sobre a violência do regime. Programas de rádio surgiram. Depoimentos se multiplicaram.

Do que começou como um simples convite para o encontro, nasceu um movimento. A casa da avó se transformou em um pequeno museu, que passou a ser usado como centro de referência e memória. Mesmo sem energia elétrica até 2024, uma série de atividades continuaram sendo realizadas, mantendo vivo o engajamento da comunidade.

Isabelle com grupo de jovens no Haiti: organização dedicada à memória, à comemoração e à justiça de transição no país (Foto: Arquivo Pessoal)

Junto de sua mãe, sua tia e outras pessoas, Isabelle ajudou a fortalecer a criação de uma organização dedicada à memória, à comemoração e à justiça de transição no Haiti. Elas viajaram para vilarejos esquecidos onde massacres haviam ocorrido, honrando vidas apagadas da história oficial. As comunidades ficaram em choque: não apenas pelas cerimônias, mas pelo reconhecimento: alguém se lembrou de nós.

Esse trabalho acabou levando Isabelle, quase por acaso, à justiça de transição em nível internacional, incluindo colaborações com o Escritório de Direitos Humanos da ONU. Foi a primeira vez que o Haiti se engajou explicitamente com a justiça de transição como marco nomeando crimes, memória e responsabilidade.

Mas a crise política haitiana se aprofundou. Um presidente assassinado em sua própria casa. Anos sem eleições. Gangues se consolidando como poderes paralelos. Um governo de transição imposto, sem legitimidade. E, nas palavras de Isabelle, “mais uma ‘solução internacional de segurança’ no horizonte, focada na força, não na paz”.

Mais uma vez, Isabelle recusou a narrativa dominante.

Enquanto outros falavam apenas de segurança, ela insistia na construção da paz. Onde viam incapacidade, ela via organização. Onde jovens eram chamados de inúteis, ela mostrava evidências de seu poder.

No museu da família, grupos de jovens chegam todos os fins de semana sem convite, auto-organizados, famintos por ação. Isabelle faz perguntas simples: Vocês participam de algum grupo? Um clube? Uma associação de bairro?

As mãos se levantam. Sempre. “Não conheço nenhum jovem haitiano que não faça parte de alguma associação voltada para o bem comum”, diz Isabelle.

Se houver uma emergência, é preciso um espaço de aterragem seguro, voluntários para cuidar das crianças e estruturas temporárias, como escolas ou fábricas abandonadas, que possam ser mobilizadas rapidamente. Por enquanto, a comunidade tem oferecido recursos e apoio: pessoas colocam seus ônibus à disposição, supermercados oferecem produtos essenciais, e estudantes de todo o país, com experiência em voluntariado, se prontificam a atuar

Isabelle Clérié
Antropóloga e ativista haitiana

A juventude haitiana está entre as mais organizadas que ela já viu, criando, adaptando e mobilizando constantemente. E, ainda assim, são ensinados a acreditar que “não fazem nada”. Muitos jovens chegam dizendo que não sabem por onde começar ou que não podem fazer diferença.

É exatamente esse mito que a antropóloga e pesquisadora Isabelle se propõe a desmontar. Ela conduz exercícios, faz perguntas e mostra que eles estão, de fato, realizando ações concretas todos os dias. Ela conta histórias como a de um jovem que, após um furacão destruir colheitas, mobilizou agricultores para criar uma produção específica de sementes, uma iniciativa que, anos depois, ainda continua beneficiando sua comunidade.

Além dessas ações, Isabelle está desenvolvendo o que chama de “Mapa da Paz”, uma abordagem prática para mobilizar ativos locais em prol da construção da paz. A ideia é identificar recursos locais, avaliar o que já existe e o que é necessário para oferecer apoio imediato.

Como ela explica: “Se houver uma emergência, é preciso um espaço de aterragem seguro, voluntários para cuidar das crianças e estruturas temporárias, como escolas ou fábricas abandonadas, que possam ser mobilizadas rapidamente. Por enquanto, a comunidade tem oferecido recursos e apoio como forma de testar o conceito: pessoas colocam seus ônibus à disposição, supermercados oferecem produtos essenciais, e estudantes de todo o país, com experiência em voluntariado, se prontificam a atuar.”

Isabelle mostra, assim, que mesmo em um contexto marcado por escassez e vulnerabilidade, é possível criar redes de apoio ágeis, colaborativas e fundamentadas na iniciativa local. Ela ressalta que essas ações não são pequenas ou insignificantes; pelo contrário, são provas da criatividade, do engajamento e da capacidade de organização das pessoas que, mesmo diante de narrativas externas que tentam minimizar seu impacto, continuam transformando suas realidades de forma concreta.

Isabelle Clérié e sua receita para o Haiti: escutar os haitianos, confiar em sua inteligência, rejeitar a impotência imposta e reconhecer que o futuro já está sendo construído de dentro do país para fora (Foto: Reprodução / YouTube)

O trabalho de Isabelle está focado em subverter a ideia de que nada pode ser feito. Ela mostra que os jovens haitianos estão constantemente pensando em oportunidades, crescimento coletivo e melhoria para a comunidade, e que cada gesto, cada iniciativa, tem valor real.

Escutando-a, lembrei-me de Edwidge Danticat, uma das escritoras haitianas mais reconhecidas internacionalmente. Mais do que narrar histórias, Danticat construiu uma poética da diáspora haitiana, marcada pela sutileza, pela memória e pelos “grandes milagres das coisas pequenas”, como ela mesma define. Recomendo, inclusive, o livro Colheita de Ossos, em que Danticat revisita feridas históricas profundas com humanidade e delicadeza.

Isabelle caminha nesse mesmo fio histórico e simbólico. Como Mona Guérin, recusa a ideia de que mulheres haitianas precisem ser “salvas” para pensar, criar ou liderar. Como Edwidge Danticat, entende que memória, linguagem e dignidade são formas de ação, e que contar a própria história é, em si, um gesto de poder. Ela carrega a memória como resistência, a dignidade como método e a ação coletiva como estratégia.

Em um mundo obcecado em “salvar” o Haiti, Isabelle insiste em algo muito mais radical: escutar os haitianos, confiar em sua inteligência, recusar expectativas baixas, rejeitar a impotência imposta e reconhecer que o futuro já está sendo construído — de dentro para fora.

No Haiti, resistir nunca foi apenas sobreviver. Sempre foi narrar, organizar e imaginar futuros possíveis, mesmo quando tudo insiste em dizer que eles não existem.

Obrigada Isabelle.

Camila Batista

Camila Batista Pinto, advogada e ativista pelos direitos das mulheres, é uma empreendedora social brasileira e COO da Migraflix, organização que promove a inclusão social e econômica de migrantes e refugiados na América Latina por meio do empreendedorismo; também preside o Conselho Consultivo da Migration Youth and Children Platform (MYCP), plataforma global oficial de participação juvenil em processos intergovernamentais e no sistema das Nações Unidas, e é conselheira da organização Palhaços Sem Fronteiras Brasil

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