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Educação em 2026: Onde o Bit encontra o Barro

Tecnologia deve ser o fio que tece a união entre vínculo e sentido, e não o muro que os separa

ODS 4 • Publicada em 30 de janeiro de 2026 - 09:31 • Atualizada em 30 de janeiro de 2026 - 09:51

O calendário marcou, no último 24 de janeiro, o Dia Internacional da Educação. No entanto, para quem observa as fissuras sociais do Brasil de 2026, a data evoca menos uma celebração e mais uma convocatória urgente. Vivemos o paradoxo da hiperconectividade: enquanto a Inteligência Artificial redesenha mercados globais, o “chão da escola” brasileiro ainda luta para traduzir as urgências da crise climática para um currículo que dialogue com a realidade de quem vive na ponta.

Leu essa? Como a IA impacta o trabalho de professores e a relação de adolescentes com o aprendizado

Para a educadora e empreendedora Kelly Baptista, diretora da Fundação 1Bi, fundada em 2019 para democratizar a educação de qualidade no Brasil por meio da tecnologia, a resposta não está na complexidade das ferramentas, e sim em dois fatores: escuta e democratização do acesso. 

Colaboradoras da Fundação 1Bi com celulares com o aplicativo Aprendizap: tecnologia a serviço da educação e da inclusão (Foto: Divulgação)

A dissonância entre os discursos das conferências globais e a prática pedagógica é um dos principais gargalos atuais. Segundo Kelly, o papel da 1Bi é garantir que o tema ambiental não seja apenas um conceito vago. Através do AprendiZAP, a fundação apoia o docente a transformar a “angústia diante da crise climática em ação coletiva”.

Nosso objetivo é que a IA não aprofunde desigualdades, mas funcione como ferramenta de equidade: leve, acessível e desenhada para fortalecer a prática pedagógica onde a conectividade é mais limitada

Kelly Baptista
Educadora e empreendedora

“Nos conteúdos de Ciências da Natureza, o foco não é trabalhar a crise climática apenas como conceito, mas apoiar o docente a transformar esse tema em projetos conectados ao território: investigação de problemas ambientais do entorno, ações de cuidado com água e resíduos, mobilização da comunidade escolar e fortalecimento do protagonismo estudantil”, explica.

A métrica do sucesso aqui não é o número de downloads, mas a capacidade de transformar a escola em um agente de transformação local. Em 2025, os dados já mostravam que mais de 88 mil professores adotaram metodologias ativas, sendo uma delas a sala de aula invertida, onde a sustentabilidade deixou de ser um capítulo estático do livro didático para se tornar projeto de vida.

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Kelly Baptista, diretora da Fundação 1Bi, em evento em São Paulo: “Inovação precisa funcionar nas condições reais de conectividade da maioria da população” (Foto: Divulgação)

A IA como vetor de equidade

Em 2026, o risco de uma “apartheid digital” impulsionado pela IA é real. A estratégia da 1Bi para mitigar esse cenário é a simplicidade técnica. A Mari, assistente pedagógica da fundação, foi desenhada para operar no ecossistema do WhatsApp, garantindo que a inovação chegue a quem possui apenas o básico.

“A premissa da 1Bi é que inovação precisa funcionar nas condições reais de conectividade da maioria da população. Por isso, nossas soluções tecnológicas são pensadas para operar em ambientes já acessíveis, como o WhatsApp, com baixo consumo de dados. Nosso objetivo é que a IA não aprofunde desigualdades, mas funcione como ferramenta de equidade: leve, acessível e desenhada para fortalecer a prática pedagógica onde a conectividade é mais limitada”, afirma a diretora.

Os resultados de 2025 chancelam a eficácia dessa escolha: mais de 11 mil professores utilizaram ativamente a ferramenta, gerando mais de 15 mil exercícios e 6 mil planos de aula.

Outro ponto nevrálgico é a saúde mental do educador frente à avalanche tecnológica. Para a Kelly, o segredo para evitar o “burnout digital” é posicionar a tecnologia como suporte, e não como uma nova camada de cobrança burocrática. “Partimos do entendimento de que ensinar exige tempo, contexto, vínculo e sentido pedagógico, não apenas novas ferramentas. A inovação só faz sentido quando reforça esse protagonismo docente, e não quando tenta substituí-lo”, pondera.

Em pleno ano eleitoral, a capacidade de converter dados em ações de Estado torna-se o grande diferencial para o pós-pandemia. Baptista destaca que as evidências colhidas na plataforma (como lacunas de aprendizagem e dificuldades de engajamento em contextos vulneráveis) já servem de base para o diálogo com redes de ensino.

“Os dados que os professores registram em nossa plataforma permitem compreender com mais profundidade os desafios enfrentados por comunidades escolares em contextos de maior vulnerabilidade. Essas evidências já vêm sendo sistematizadas para dialogar com redes de ensino e organizações do campo educacional. A Fundação 1Bi fomenta práticas que podem inspirar políticas públicas”.

No Brasil continental de 2026, a inovação só encontra sentido se for capaz de escutar a diversidade e fortalecer o docente como mediador central das novas competências socioambientais. Educação exige vínculo e sentido. Que a tecnologia seja, finalmente, o fio que tece essa união, e não o muro que os separa.

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