ODS 1
Guerra e transição energética: ataques de EUA e Israel ao Irã evidenciam urgência de abandonar petróleo


O petróleo não é uma mercadoria comum – ele molda a geopolítica do mundo. Dezenas de países aceleram planos para reduzir dependência do combustível fóssil e aumentar a segurança energética


(Hussein Dia*) – Enquanto Israel e os Estados Unidos atacam o Irã, os mercados globais de petróleo estão em alerta.
Os preços do petróleo começaram a subir mesmo antes de qualquer interrupção no abastecimento. Os comerciantes de petróleo estão levando em consideração a possibilidade de que o Estreito de Ormuz seja fechado – o que foi anunciado pelo Irâ nesta segunda-feira, 02/03. (nota da tradução)
Aproximadamente 20% do petróleo comercializado no mundo passa por esta estreita via navegável entre o Irã ao norte e Omã e os Emirados Árabes Unidos ao sul. Um petroleiro foi bombardeado e o tráfego praticamente parou. Nos mercados globais de energia, a mera ameaça de interrupção pode elevar os preços.
O petróleo não é como a maioria das commodities. O controle do combustível de alta densidade energética molda a geopolítica. Três quartos da população mundial vivem em países dependentes da importação de petróleo para carros, caminhões e outros usos. O controle do fluxo de petróleo e, cada vez mais, de gás, tem sido usado há muito tempo como forma de pressão, desde os choques do petróleo da década de 1970 até o corte do fornecimento de gás europeu pela Rússia em 2022.
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Veja o que já enviamosQualquer perturbação grave no tráfego de petroleiros no Golfo causaria um choque nos mercados globais de petróleo e ameaçaria a estabilidade econômica. Longas filas já foram relatadas na Austrália, com motoristas correndo para abastecer antes de possíveis aumentos nos preços.
À medida que as tensões internacionais aumentam, nações de Cuba à Ucrânia, e até a Etiópia, estão acelerando planos para reduzir sua dependência do petróleo e aumentar a segurança energética.
Meio século de influência do petróleo
O poder do petróleo tornou-se evidente durante o embargo petrolífero de 1973, quando os principais produtores de petróleo do Oriente Médio reduziram drasticamente o fornecimento, numa tentativa de reformular a política externa dos EUA. Os preços quadruplicaram, as economias estagnaram e a segurança energética tornou-se uma questão política central quase da noite para o dia. Desde então, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo coordenou o abastecimento para elevar os preços.
Hoje, os mecanismos de controle parecem diferentes, mas o poder criado pela dependência do petróleo permanece.
Leu essa? O império do petróleo contra-ataca
Mesmo antes da ação militar dos EUA, as sanções contra os principais produtores como o Irã e a Venezuela reduziram o abastecimento e remodelaram os fluxos comerciais.
As tensões atuais perto de pontos de estrangulamento, como o Estreito de Ormuz, introduzem prêmios de risco nos preços.
Os mercados de petróleo são prospectivos, o que significa que os preços refletem não apenas a oferta e a demanda atuais, mas também as expectativas sobre o que pode acontecer no futuro.
Os ataques ao Irã fizeram com que os preços do petróleo Brent – referência global – fossem negociados em torno de US$ 76 (A$ 107) por barril, acima dos cerca de US$ 68 (A$ 96) algumas semanas antes. Como os preços são globais, a instabilidade política em qualquer lugar pode ter consequências econômicas em todos os lugares.
Quem está reduzindo a dependência do petróleo?
Em 2015, a Índia bloqueou as importações de petróleo do Nepal, provocando o caos. Em resposta, as autoridades incentivaram o rápido crescimento dos veículos elétricos. As importações de petróleo começaram a cair.
Mais recentemente, a guerra entre a Rússia e a Ucrânia e os ataques dos EUA à Venezuela e ao Irã trouxeram um novo foco na redução das importações de petróleo e no reforço da segurança energética doméstica.
Em Cuba, país dependente do petróleo, a pressão dos EUA reduziu drasticamente o fornecimento. Apagões são comuns e os carros ficam parados. Em resposta, as autoridades e as empresas estão importando 34 vezes mais painéis solares chineses do que há um ano.
Não é a ideologia que está impulsionando essa mudança, mas a necessidade. As importações de veículos elétricos também estão disparando. “Cuba pode passar pela transição energética mais rápida do mundo”, disse um economista cubano à revista The Economist.
Por que as energias renováveis mudam a equação
Ao contrário do petróleo, os painéis solares e as turbinas eólicas podem evitar o transporte através de pontos de estrangulamento marítimos, como o Estreito de Ormuz. As energias renováveis não são comercializadas da mesma forma centralizada globalmente. A energia é gerada localmente e, cada vez mais, em muitos locais menores.
A Rússia tem há muito tempo como alvo a infraestrutura energética e as usinas de energia da Ucrânia durante a guerra. Em resposta, a Ucrânia está aumentando as energias renováveis o mais rápido possível, uma vez que a geração descentralizada de energia é muito mais difícil de destruir. Como um especialista em energia ucraniano disse ao Yale360, um único míssil “poderia destruir” uma usina a carvão, enquanto um parque eólico exigiria 40 mísseis.
A energia descentralizada é mais resiliente, o que significa que danos a um parque não causarão o colapso da rede.


Resiliência por meio do transporte elétrico
A eletrificação do transporte é um pilar fundamental dessas novas abordagens à segurança energética.
Os veículos elétricos movidos a eletricidade produzida localmente reduzem a exposição aos mercados globais de petróleo. Essa linha de pensamento é visível na decisão da Etiópia de proibir novos carros com motor de combustão interna.
A China importa a maior parte do seu petróleo – grande parte do Irã. Pequim vem acelerando sua rápida mudança para veículos elétricos. No ano passado, os veículos elétricos representaram 50% dos carros novos na China e 12% da frota total. A China está usando cada vez mais petróleo para fabricar plásticos, e não para transporte. O aumento nas importações no ano passado deveu-se ao armazenamento de grandes volumes em meio à incerteza global.
China is moving rapidly to a solar/electric future with very little need for oil or gas https://t.co/mOBg3NtZkY
— Elon Musk (@elonmusk) March 1, 2026
A Austrália, que importa a grande maioria de seus combustíveis refinados, teria estoque para cerca de um mês de gasolina antes de ficar sem combustível para a sua frota de automóveis. Se as guerras elevarem os preços do petróleo, o aumento nos preços da gasolina se refletirá nos custos de frete, nos preços dos alimentos e na inflação no país. Mesmo com a rápida transição para a energia verde, o transporte continua extremamente dependente do petróleo estrangeiro. Isso deixa a Austrália exposta.
Política energética é política de segurança
As energias renováveis não eliminam o risco geopolítico. As redes elétricas enfrentam ameaças cibernéticas. As cadeias de abastecimento de minerais críticos introduzem novas dependências – e grande parte da fabricação atual de painéis solares, baterias e veículos elétricos está concentrada na China.
Mas há uma diferença estrutural clara. Os sistemas descentralizados são mais difíceis de manipular por meio de pontos de estrangulamento no abastecimento. Os painéis solares, uma vez instalados, geram energia localmente. A vulnerabilidade muda das importações contínuas de combustível para a dependência inicial da fabricação.
O petróleo moldou a política global durante décadas porque é transportável, negociado globalmente e apenas alguns países têm grandes reservas.
A redução da dependência do petróleo é frequentemente enquadrada como política climática. Mas também é vital para a segurança energética e segurança nacional. Reduzir o uso de petróleo aumenta a resiliência a choques e diminui a influência de outras nações.
A crise do Irã pode não levar a aumentos sustentados nos preços. A oferta pode se ajustar. Os mercados podem se estabilizar. Mas os líderes vão repensar a sabedoria de se expor ao petróleo comercializado globalmente em um mundo volátil.
*Hussein Dia é professor de Tecnologia de Transportes e Sustentabilidade no Departamento de Engenharia Civil e de Construção da Universidade de Tecnologia de Swinburne, na Austrália
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