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‘Entendi o significado do racismo’, diz Vanessa Nakate, ativista cortada de foto

Em entrevista ao #Colabora, jovem conta que chorou ao se ver apagada da imagem em Davos,mas destaca a imensa repercussão que chamou a atenção para a causa ambiental na África


Vanessa Nakate
A foto como foi cortada pela AP e a imagem orginal com todas as ativistas, inclusive Vanessa Nakate (Reprodução)

A ugandense Vanessa Nakate, de 23 anos, é uma das poucas e mais atuantes jovens ativistas ambientais de sua cidade, Kampala, e de seu país. Desde janeiro de 2019, quando “oficialmente” começou sua militância, sua voz vem sendo ouvida por seus pares ao redor do mundo e por entidades representativas da luta pelo meio ambiente. Mas a imagem de Vanessa ficou conhecida mundialmente nos últimos dias, ironicamente, por ter sido apagada de uma foto, tirada em Davos, durante o Fórum Econômico Mundial, onde participou de painéis, protestos e entrevistas ao lado de outros ativistas de várias nacionalidades. Momentos antes de uma entrevista coletiva, foi fotografada com quatro delas, Luisa Neubauer, Greta Thunberg, Isabelle Axelsson e Loukina Tille, todas brancas. Horas depois, ao procurar no Twitter reportagens sobre a entrevista, foi surpreendida pelo fato de que havia sido cortada da foto publicada pela agência americana de notícias Associated Press. Não apenas isso. Seu nome também foi omitido na matéria. “Foi como se eu não estivesse lá”, afirmou.

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Imediatamente reagiu. Usando a força das mídias sociais, denunciou o ocorrido e questionou o motivo. “Por que vocês me removeram da foto? Eu era parte do grupo”, perguntou Vanessa no Twitter para a AP. Foi surpreendida novamente, mas agora com a repercussão imediata de sua indignação. Formada em administração de empresas,  fundadora do The rise up movement, a ugandense recebeu apoio do mundo todo. Milhares de mensagens exigindo respeito a ela, denunciando racismo na edição da fotografia, de solidariedade.

É difícil, porque fazer protestos é ilegal em Uganda. É possível ser preso em caso de atos massivos como os que vemos nas ruas da Europa

Vanessa Nakate
Ativista ambiental

Após o “incidente”, foi criada uma página na Wikipedia com seu nome, aumentou o número de seus seguidores nas redes sociais – no Twitter pulou de 20 mil para 130 mil em cinco dias. Muitos ativistas também a procuraram para dizer que enfrentaram situações semelhantes, mas não tiveram coragem de denunciar. 

Nesta entrevista, Vanessa fala de seu “apagamento” e faz também um apelo ao jovens: “É importante que se ergam e participem do ativismo ambiental, porque o futuro é nosso. Acredito que muitos jovens tenham esperanças e sonhos, muitas coisas que querem conseguir, mas não há garantias de que será possível alcançá-los por causa do futuro incerto que temos”.

#Colabora: Desde quando você tem interesse em mudanças climáticas?

Vanessa Nakate: Em maio de 2018, decidi começar a fazer algo que transformasse as vidas das pessoas de minha comunidade. Pesquisei sobre os problemas enfrentados pela população de meu país. Encontrei vários, mas o que realmente me interessou foram as mudanças climáticas. Passei a ler mais, a estudar para entender mais suas causas e seus impactos, e assim aprendi que já estávamos enfrentando algumas de suas consequências.  

Quando você se tornou uma ativista?

Oficialmente em  janeiro de 2019. Como expliquei, queria fazer alguma coisa que pudesse provocar mudança, que trouxesse soluções para o povo. Ainda não estava certa sobre o que seria, mas acabei escolhendo o ativismo climático. No primeiro domingo de janeiro de 2019, eu e meus irmãos fomos para as ruas de Kampala, onde moramos, participar da greve pelo clima, que acontecia em quase todo o mundo. Fizemos cartazes e abordamos as pessoas para falar sobre as mudanças climáticas.

 

Vanessa Nakate
Vanessa Nakate diz que chorou quando se viu cortada, mas agora aproveita a repercussão positiva para amplificar as vozes africanas pelo meio ambiente (Foto Isaac Kasamani / AFP)

Quais são os obstáculos de ser ativista em seu país? 

É difícil, porque fazer protestos é ilegal em Uganda. É possível ser preso em caso de atos massivos como os que vemos nas ruas da Europa, por exemplo. Isso é desafio para nós como ativistas e tem feito com que muitas pessoas interessadas não participem das manifestações.  

Você recebe apoio de sua família e de seus amigos em suas ações? 

Minha família no geral e meus amigos me apoiam. Meus irmãos me acompanham algumas vezes, durante as atividades da greve pelo clima. Demorou um pouco para que entendessem o que eu estava fazendo, mas entenderam e dão muito apoio.

Desde que você começou a se manifestar sobre a crise climática, algo mudou em seu país? Outras pessoas se interessaram? 

Sim. Acredito que algo mudou, temos mais pessoas falando sobre as mudanças climáticas, realizando atividades em diferentes partes dos país. Claro que ainda não tivemos um feedback do governo. Mas outras pessoas têm se interessado. É um movimento em crescimento. Também fui entrevistada algumas vezes, mas a crise climática não tem cobertura extensa da mídia local. Só de tempos em tempos. 

Não quero ver mais desastres climáticos, quero ver transformações positivas

Vanessa Nakate
Ativista ambiental

Qual a importância da presença crescente de jovens como você nesse ativismo ambiental?

Primeiro de tudo, quero um melhor futuro para mim, para minha família, para meus amigos e para todos neste mundo. Quero um meio ambiente mais limpo e saudável. Essas são as coisas que quero ver. Quero ver mudanças porque a causa pelo qual luto afeta todos nós. Não quero ver mais desastres climáticos, quero ver transformações positivas. A dificuldade tem sido convencer as pessoas que mudanças climáticas são reais. Isso porque muitos são ignorantes sobre o assunto. É difícil convencê-las a se juntar ao ativismo ambiental. É importante que os jovens se ergam e participem porque o futuro é nosso. Acredito que muitos jovens tenham esperanças e sonhos, muitas coisas que querem conseguir, mas não temos garantias de que será possível alcançá-los por causa do futuro incerto que temos. Por isso acho que é tão importante que todo o jovem se erga, lute por um futuro melhor, por um meio ambiente mais limpo, pelo clima. Pela vida em si, porque nossas vidas estão em perigo, nosso futuro está em perigo. É importante que os jovens falem, exijam e definam o que realmente querem.  

Alguma entidade a levou para Davos ou foi por conta própria?

Fui convidada pela Arctic Basecamp, que pagou todas as despesas da viagem. Fiquei três noites e quatro dias. 

Qual o contexto em que a foto em que você está ao lado das também ativistas ambientais Luisa Neubauer, Greta Thunberg, Isabelle Axelsson e Loukina Tille foi tirada?

Momentos antes da entrevista coletiva. Fomos orientados a ficar parados em pé para que os jornalistas tirassem a foto. Depois seguimos para a entrevista.   

Você conhecia pessoalmente as quatro ativistas? Já havia participado de ações fora de seu país?

Conhecia três delas, sendo que a Greta e a Luisa pessoalmente.  Sim, já. Estive, por exemplo, em dezembro, participando da cúpula do clima, a COP 25, em Madri, tanto nas atividades oficiais como em protestos nas ruas.

Como você descobriu que havia sido cortada da foto?

Entrei no Twitter para procurar informações sobre a entrevista, encontrei a reportagem (a foto original já foi substituída pela agência) da AP ilustrada pela fotografia da qual eu havia sido cortada. Não tinha meu rosto, só um pedaço do meu casaco.    

Chorei muito por causa disso, porque foi a coisa mais dolorosa… Me senti muito magoada, perturbada. Me senti muito frustrada

Vanessa Nakate
Ativista ambiental

Poderia falar do que sentiu ao ver a foto cortada?

Chorei muito por causa disso, porque foi a coisa mais dolorosa… Me senti muito magoada, perturbada. Me senti muito frustrada. Também conversei com alguns dos meus amigos que estavam lá no acampamento (do Artic Basecamp). Eles ficaram muito abalados e lamentaram por mim pelo que aconteceu.

Vanessa_Cris Vector
Ilustração do brasileiro Cris Vector que Vanessa Nakate agora usa como foto de perfil (Reprodução/Twitter/Cris Vector)

Sua vontade de reagir denunciando o ocorrido foi imediata? 

Não pensei muito, assim que vi a foto cortada, só quis questioná-los. E tuitei. Mais tarde no mesmo dia, postei o vídeo no Twitter.  

Foi a primeira vez que se sentiu vítima de racismo?

Foi realmente a primeira vez que entendi o significado e a definição de racismo, porque não havia acontecido comigo ainda.  

O que sua família e amigos falaram quando viram? E as outras ativistas? 

Ficaram realmente muito tristes, desapontados por eu ter sido cortada. As outras ativistas me procuraram e me apoiaram de todas as formas possíveis. Mandaram lindas mensagens e deram todo o encorajamento que eu precisava na hora.

A AP entrou em contato com você?

Sim, finalmente entrou. Eles mandaram um pedido de desculpas, postaram nas redes sociais e teve uma mensagem da editora executiva. Não me senti satisfeita com o pedido de desculpas porque não me pareceu honesto. Mas não tenho o que fazer sobre isso.  

Você se sentiu e está se sentindo apoiada pelas pessoas em geral neste momento?

Sim. Por todo o mundo. Recebi incontáveis mensagens das mais variadas pessoas. Em Uganda também tenho recebido amor e apoio. Muita gente tem vindo falar comigo desde que voltei para casa.   

Vou usar minha nova audiência para falar mais sobre a crise climática, para amplificar as vozes de outros ativistas de toda a África. Acho que tudo mudou no meu ativismo por causa da foto

Vanessa Nakate
Ativista ambiental

Algo positivo surgiu a partir da repercussão da foto cortada? Algo muda na sua forma de ativismo?  

Vou usar minha nova audiência para falar mais sobre a crise climática, para amplificar as vozes de outros ativistas de toda a África. Acho que tudo mudou no meu ativismo por causa da foto. Não só para mim, mas para outros ativistas da África, porque o mundo agora colocou um foco sobre o que estamos fazendo. 

Quais são os maiores desafios ambientais de Uganda?

Meu país, que tem forte dependência da agricultura, está enfrentando condições climáticas extremas. Isso ficou evidente durante as chuvas torrenciais que atingiram o país em 2019, que causaram enchentes, destruíram casas, esperanças, sonhos, mataram pessoas. Desde setembro não para de chover. São efeitos das mudanças climáticas. 

O governo demonstra preocupação com o tema?

Sim, claro. O governo se preocupa coma a crise climática, mas não acho que realmente saiba a extensão dos riscos para nós. Acho que é a preocupação geral de qualquer governo sobre a questão. Eles não sabem o que pode acontecer. Claro que algumas coisas estão sendo feitas, mas precisamos mais. 

Os países africanos não são tão preocupados sobre o assunto porque estão focados em outros, como pobreza, política, desemprego, corrupção

Vanessa Nakate
Ativista ambiental

A população é atenta à causa?

A maioria das pessoas em meu país ainda é ignorante sobre o tema crise climática. Não estão muito certas se está acontecendo realmente agora. Isso porque nas escolas é falado que é algo que pode acontecer no futuro, e muitas pessoas são deixadas no escuro sobre o fato, sem saber que é uma ameaça que está acontecendo agora. 

Você acha que a visibilidade provocada por sua ausência na foto pode fazer as pessoas em seu país se interessarem mais sobre as questões ambientais?

O que aconteceu comigo provocou um maior interesse de pessoas do meu país no tema mudança climática. Muitas têm dito que se sentiram inspiradas e encorajadas a fazer o que nós ativistas temos feito. 

Você acha que os países africanos no geral têm preocupação com as mudanças climáticas?

Não são tão preocupados sobre o assunto porque estão focados em outros como pobreza, política, desemprego, corrupção. Essas questões não deixam espaço para as preocupações com a crise climática. É preciso continuar falando, continuar ensinando, espalhando as informações sobre educação ambiental/climática.


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