Em meio à luta por tolerância, comunidade judaica se divide em torno de Bolsonaro

André Liberman celebra o primeiro Pride Shabat no Brasil: luta pela diversidade. Foto: acervo pessoal

Ativista LGBT+ enfrenta preconceito da extrema-direita, em jornada que mostra as tentativas de apagamento da diversidade, além da contradição, diante da aproximação do presidente que comunga de ideias antissemitas

Por Gustavo Zeitel | ODS 16 • Publicada em 26 de agosto de 2021 - 09:03 • Atualizada em 30 de agosto de 2021 - 10:49

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André Liberman celebra o primeiro Pride Shabat no Brasil: luta pela diversidade. Foto: acervo pessoal

Em junho de 2019, André Liberman, então com 19 anos, sentia-se sozinho na comunidade judaica do Recife. Ativista LGBT+, percebeu que, mesmo os reformistas – corrente que defende a introdução de novas ideias nas práticas judaicas – não estavam comprometidos em acolher todos os judeus. Ele passou dias estudando o Sidur, o livro de rezas do judaísmo, e decidiu conceber, no mês do orgulho LGBT+, o primeiro “Pride Shabbat” do Brasil, serviço religioso dedicado a celebrar a diversidade sexual e de gênero.

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De acordo com a halacá, o corpo da lei judaica, não é preciso que um rabino ministre uma cerimônia religiosa. Tenaz, o jovem tomou a missão para si. Sem obstáculos por parte da diretoria do Centro Israelita de Pernambuco, Liberman anunciou nas mídias sociais a realização do “Pride Shabbat”. No dia da celebração, chegou sozinho à sinagoga e enfeitou o ambiente com bandeirinhas nas cores do arco-íris. No púlpito, afixou cartaz com a frase “Todo ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus”. Já na mesa das velas, uma bandeira colorida deu lugar ao tradicional pano branco. “Foi uma maneira de lembrar que a comunidade judaica é formada por integrantes da sociedade em geral. Quis mostrar que judeus LGBT+ tinham um lugar”.

No “Pride Shabat”, Liberman adaptou a liturgia, acrescentando orações pela diversidade, diminuindo as desinências nominais de gênero do hebraico e elaborando prédica especial, em que contou a história do Talmude, uma coletânea de livros sagrados do judaísmo. “O Talmude surgiu quando o Segundo Templo de Israel foi destruído. Naquela época, muitos abandonaram a religião. Mas os marginalizados da comunidade perceberam o que ainda havia de judaísmo em nosso povo”, explica. Baseado na tradição oral, o Talmude é um registro das discussões rabínicas sobre a lei judaica, sendo de natureza interpretativa. Desse modo, a prédica da celebração demonstrou que a diversidade está no âmago do judaísmo.

Hoje, aos 21 anos, Liberman é ativista conhecido, e diversos grupos reformistas do Brasil passaram a realizar o “Pride Shabbat” no mês de junho. Com a chegada da pandemia em 2020, boa parte das celebrações religiosas teve de ser adaptada para videoconferências. Para manter voz ativa, Liberman escreveu o primeiro material do “Chodesh haGav’avá”, o mês do orgulho, em que cada judeu teria autonomia para fazer a própria celebração. No mesmo ano, representou a América Latina no “Pride Living Room”, seminário internacional organizado pela Agudá (Organização Nacional LGBT+ de Israel), em que compartilhou percepções sobre judaísmo e diversidade sexual e de gênero.

Mas, quando elaborou uma série de lives sobre o tema para a comunidade judaica brasileira, percebeu que seu ativismo passaria por momentos difíceis. “As lives foram atacadas por grupos ortodoxos, que enviavam perguntas homofóbicas e questionavam o nosso judaísmo. Queriam ser convidados para o evento. Mas como posso chamar pessoas assim?”

Alinhado a ideais progressistas, Liberman considera o episódio como sintoma de uma cisão na juventude judaica. Os invasores do evento eram, em sua maioria, bolsonaristas. Desde sua eleição em 2018, Jair Bolsonaro contribui para o apagamento da diversidade entre os judeus, tendo angariado apoio dos setores de direita da própria comunidade judaica. Para o ativista, os jovens foram seduzidos pelas propostas de Bolsonaro por conta da forte relação, no Brasil, entre judaísmo e Israel. “Muitas vezes o sionismo ultrapassa a religiosidade”, avalia. Segundo Liberman, os jovens conservadores admiram o exército israelense, e o militarismo propalado por Bolsonaro gera sentimento de identificação entre eles. Desse modo, parte da comunidade judaica compartilha as ideias antissemitas do governo.

Na eleição, parte dos judeus votou em Bolsonaro, porque viu a bandeira com a estrela de Davi nos protestos e achou que o antissemitismo estava superado. Além disso, construiu-se uma ideia de que o PT seria contra Israel

Michel Gherman
Professor de sociologia da UFRJ

Michel Gherman, professor de sociologia da UFRJ e diretor acadêmico do Instituto Brasil-Israel, concorda que, para Bolsonaro, não há diferenças entre os judeus. Gherman analisa a ironia ideológica, evocando o conceito de judeu imaginário. “A extrema-direita acredita que o judeu ainda está no reino de Judá. O bolsonarismo divide o judaísmo em quatro categorias: militarismo, ultraliberalismo, Terra Santa e branquitude”, explica. Para o professor, o antissemitismo de Bolsonaro prima pela sofisticação, na medida em que se apropria de símbolos judaicos para transmitir suas ideias. “Na eleição, parte dos judeus votou em Bolsonaro, porque viu a bandeira com a estrela de Davi nos protestos e achou que o antissemitismo estava superado. Além disso, construiu-se uma ideia de que o PT seria contra Israel”.

Por outro lado, Gherman alerta que o antissemitismo não é particularidade da extrema-direita. Ele argumenta que setores da esquerda, ligados ao PSOL e ao PCdoB, alimentam narrativa de que Israel, representando os valores ocidentais, seria responsável pela destruição do Oriente Médio. E não só: para movimentos ligados à causa identitária, os judeus não são uma minoria. Ao contrário, continua o professor, todos seriam armamentistas, brancos, sionistas e ultraliberais. “Resta saber se a centro-esquerda também se converterá ao judaísmo imaginário. Aí ficaríamos em uma situação muito difícil”.

Ao mesmo tempo, Bolsonaro e seus aliados colecionam episódios antissemitas. Em 2017, no afamado discurso na sede da Hebraica do Rio de Janeiro, o então deputado federal, afirmando suposta superioridade do povo japonês, usou dois conceitos nazistas: raça e honra. Três anos depois, paraquedistas do exército saudaram o presidente com a frase “Bolsonaro somos nós”, uma variação da saudação nazista “Heil Hitler”. Na semana passada, fora da agenda oficial, Bolsonaro se encontrou com Beatriz von Storch, líder do partido de extrema-direita Alternativa para Alemanha (Afd) e neta de Lutz Graf Schwerin von Krosigk, ministro das finanças do governo nazista.

Em maio de 2021, Gherman, agastado com mais de 500 mil brasileiros mortos pela pandemia, qualificou o governo, em postagem no Twitter, como uma ideologia nazifascista. Ironicamente, Alberto Klein, presidente da Federação Israelita do Rio de Janeiro, emitiu nota em que condenava a declaração do professor, por suposta banalização do Holocausto. “Acho ‘bolsonarismo’ um termo fraco. O mais correto é bolsonazismo”, vaticina Gherman. “Vivemos mais do que um racha na comunidade judaica. Houve um divórcio inédito”. Para ele, judeus bolsonaristas se converteram ao judaísmo imaginário.

A ascensão da extrema-direita ao poder causou uma onda antissemita no Brasil. O relatório “O antissemitismo durante o governo Bolsonaro: 18 primeiros meses”, lançado pelo Observatório Judaico de Direitos Humanos no Brasil Henry Sobel, revelou que, só em maio do ano passado, foram criados 204 sites com conteúdo nazista no país. Além disso, até a metade de 2020, o relatório contabilizou 30 manifestações antissemitas na política brasileira.

Liberman, que hoje estuda para ser rabino reformista, acredita que a presença do exército israelense no imaginário da juventude conservadora do Brasil não é saudável e cria sentimento militarista típico da ideologia de Bolsonaro. “Quando estive em Israel no ano passado, pessoas da minha idade que estavam no exército diziam que gostavam de matar palestinos”, conta.

Aqui, quando digo que sou brasileira, logo escuto: vocês que têm aquele presidente maluco?

Paula Frenkel
Brasileira que vive em Israel

Paula Frenkel, de 25 anos, discorda. Em 2015, fez aliá, isto é, mudou-se para Israel, com o ímpeto sionista de se reconectar com as suas origens. Chegando em Tel Aviv, descobriu que, pela idade, deveria se alistar obrigatoriamente ­– em Israel o serviço militar se estende a mulheres a partir dos 18 anos com duração de dois anos. Em 2017, ingressou no exército ao lado de cinquenta brasileiros. Primeiro, passou por treinamento, em que aprendeu a pegar em armas e a prestar os primeiros socorros. No início, sentiu medo, mas hoje fala da experiência com naturalidade e acha que a presença das forças armadas na vida dos jovens é cultural, transmitida em séries e filmes na televisão. Durante o serviço militar, fez um curso sobre a história de Israel e suas guerras e, em seguida, assumiu o cargo de assessora de imprensa. “Foi desafiador, porque não estava representando a minha opinião, estava falando pelo exército”.

Para ela, o exército israelense evocado por Bolsonaro não existe. “Há uma grande diversidade, homens, mulheres, drusos, beduínos, pessoas com opiniões muito diferentes. Aliás, é proibido falar de política dentro do exército”, conta. Frenkel, que apoia a criação de um Estado Palestino, relata, com desgosto, a presença de bolsonaristas em Israel, percebendo que o Brasil está em posição muito delicada. “Aqui, quando digo que sou brasileira, logo escuto: vocês que têm aquele presidente maluco?”

Gustavo Zeitel

Jornalista e editor do Correio IMS, site de cartas do Instituto Moreira Salles. É colunista de cultura do programa O Rio em Pauta da Rádio Roquette Pinto (94.1FM) e colabora com as revistas piauí e Quatro Cinco Um, entre outros veículos de imprensa.

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